Frase de Alessandro Teodoro
Se os pilantras não divergissem, não se traíssem nem se digladiassem, os de bem da boca para dentro só fariam para pagar a conta. Há um detalhe curioso na engrenagem da corrupção humana: raramente ela cai por virtude coletiva. Quase sempre desmorona pelo ego dos próprios corruptos. O silêncio, a fidelidade e a cumplicidade entre os desonestos duram apenas enquanto os interesses caminham lado a lado. Basta faltar espaço na mesa, poder no bolso ou protagonismo no palco para que a fraternidade do oportunismo se transforme em guerra aberta. É por isso que tantos esquemas vêm à tona, não pela força moral de quem combate, mas pela vaidade de quem participa. O pilantra suporta dividir o lucro; o que ele não suporta é dividir o comando. E quando a ambição entra em conflito com a cumplicidade, surgem os vazamentos, as delações, os arquivos esquecidos, os aliados transformados em inimigos históricos da noite para o dia. Enquanto isso, existe também o “homem de bem” performático — aquele honesto da boca para fora que condena a sujeira em público, mas a tolera em privado, desde que seu lado continue vencendo. É o moralista de conveniência, cheio de valores da boca para fora, indignado seletivo, que chama de princípio aquilo que, no fundo, é apenas preferência política, ideológica ou tribal. Esse tipo não combate o sistema; apenas deseja ocupar uma cadeira melhor dentro dele. Se os desonestos fossem minimamente disciplinados entre si, talvez a sociedade jamais enxergasse as rachaduras do teatro. Porque muita verdade não aparece pela busca sincera de justiça, mas pelo colapso inevitável da confiança entre aqueles que jamais souberam ser leais a nada além de si próprios. No fim, parte da esperança social repousa numa ironia desconfortável: a ganância dos maus frequentemente faz muito mais para expor a podridão do que a coragem dos bons acomodados.
Publicada em
Fonte e informações de autoria
Pensador.com
Abrir fonte original (abre em nova aba)