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Frase de Paulo H Salah Ad din

*O GATO, OS MORTOS E A ÚLTIMA PÁGINA* A sala estava do jeito que eu havia deixado. Não era exatamente bagunça. Bagunça pressupõe algum critério. Aquilo era apenas o resultado de anos deixando as coisas para depois. Havia caixas de livros encostadas na parede desde a última mudança. Algumas ainda fechadas. Outras abertas. Uma delas tinha o canto rasgado e deixava escapar algumas lombadas, como se os livros estivessem tentando fugir. No canto da sala havia uma vitrola do final dos anos setenta. Pesada, de madeira escura, com a tampa transparente já marcada pelo tempo. Ao lado dela, uma coleção de vinis que eu vinha carregando de uma casa para outra havia mais tempo do que gostaria de admitir. Um disco girava. Eu não estava prestando muita atenção à música. Talvez fosse esse o motivo de ela ainda estar tocando. A música servia melhor quando não exigia nada da gente. Na mesa havia uma xícara de café com whisky irlandês. Não era um hábito. Era uma negociação. O café me mantinha acordado. O whisky fazia parecer menos estúpido o fato de eu estar acordado. A televisão permanecia ligada. Passava um filme antigo. Muito antigo. Um daqueles filmes em que as pessoas ainda tinham tempo para ficar em silêncio antes de dizer alguma coisa importante. Eu gostava disso. Hoje ninguém tem tempo para silêncio. Há mensagens. Notificações. Contas. Reuniões. Senhas. Aplicativos. Até a tristeza precisa ser rápida. Talvez por isso eu ainda gostasse dos livros. Eles não têm pressa. Podem deixar um homem sofrer por quatrocentas páginas sem pedir que ele melhore no capítulo seguinte. Fiquei olhando para as caixas. Uma delas estava aberta. Eu não lembrava de ter deixado daquele jeito. Aproximei-me. Havia um romance. Um livro de história. Um drama. Um livro que eu tinha comprado e não lembrava por quê. E outro que eu lembrava perfeitamente por que tinha comprado, mas já não sabia por que ainda conservava. Foi aí que percebi uma coisa desagradável. Os livros sobrevivem aos motivos pelos quais foram comprados. Talvez as pessoas também. Fiquei algum tempo parado diante daquela caixa. Depois puxei um dos livros. A poeira subiu. E minha memória resolveu trabalhar. O que foi uma péssima ideia. Frida Kahlo apareceu primeiro. Não como retrato. Como ferida. Frida. Ferida. Uma palavra puxando outra. Sal. Salitre. Saudade. Uma palavra quase igual a outra, mas com uma letra de diferença. É curioso como uma letra pode mudar uma vida. Pensei naquilo e comecei a lembrar de outras coisas. Pimenta do campo. Sertão. Terra seca. Estrada. Distância. Não sei por que certas palavras ficam guardadas enquanto outras desaparecem. Talvez a memória não seja um arquivo. Talvez seja um bêbado escolhendo o que levar para casa. Peguei outro livro. Jonas. O Leviatã. Um homem dentro de um peixe. Fiquei olhando para a página. Um homem entra dentro de um peixe e sai de lá com uma missão. Eu entro dentro de mim mesmo e saio com azia. Fechei o livro. Depois pensei em Moisés. A arca. Os animais. Dois de cada. Ou sete. A memória não sabe mais. Ela altera as coisas para poder continuar funcionando. Pandora apareceu depois. Sempre a caixa. Os homens gostam de caixas. Guardam documentos. Fotografias. Cartas. Remédios. Armas. Livros. Coisas que não querem esquecer. Coisas que não conseguem jogar fora. Às vezes guardam mortos. Eu olhei para as caixas espalhadas pela sala. Foi quando percebi que talvez tivesse feito a mesma coisa. Passei anos guardando pessoas dentro de objetos. Uma fotografia. Um livro. Uma música. Uma rua. Um cheiro. Um disco. Meu pai apareceu assim. Não numa fotografia. Num pensamento. Estava entre os mortos da minha memória como se nunca tivesse saído de lá. Isso me incomodou. Não porque eu não quisesse lembrar. Mas porque algumas lembranças não pedem licença. Elas simplesmente entram. E sentam. Peguei outro livro. Hamlet. Depois Hamnet. A palavra ficou na minha cabeça. Hamnet. O menino que morreu cedo demais. Um nome pequeno para uma ausência enorme. Pensei nele durante algum tempo. Talvez todos nós sejamos um pouco Hamnet. Filhos de alguma coisa que não conseguimos terminar. Pais de alguma coisa que não conseguimos salvar. Ou apenas homens que chegaram tarde demais para algumas coisas. A garganta apertou. Eu bebi o café. Ainda estava quente. O whisky já tinha desaparecido. Foi então que percebi que eu estava cansado. Não fisicamente. Era outro tipo de cansaço. Aquele que aparece quando a pessoa começa a perceber que passou boa parte da vida tentando compreender coisas que não foram feitas para serem compreendidas. Peguei outro livro. Odisseu. Hades. Agamenon. Tirésias. Os mortos conversando com os vivos. Aquilo me pareceu familiar. Meu pai continuava ali. Não dizia nada. Talvez soubesse que eu já tinha perguntado demais. Olhei para ele dentro da minha cabeça. Queria dizer alguma coisa. Não disse. Há conversas que só funcionam depois que uma das pessoas morre. Talvez porque finalmente desapareça a expectativa de resposta. Sentei novamente. A música continuava girando na vitrola. A agulha fazia aquele ruído pequeno entre uma passagem e outra. Era um som antigo. Um som de coisa que ainda precisava de matéria para existir. Hoje apertamos um botão e a música aparece. Naquela vitrola, era preciso colocar o disco. Levantar a tampa. Baixar a agulha. Esperar. Talvez a espera também tenha sido uma tecnologia que perdemos. A televisão mostrava o filme. Um homem falava. Uma mulher chorava. O homem parecia culpado. As pessoas daqueles filmes tinham uma quantidade impressionante de tempo para sofrer. Nós não. Hoje precisamos sofrer entre uma reunião e outra. A vida moderna não eliminou a dor. Apenas organizou a agenda dela. Ri sozinho. Foi então que pensei na Casa Verde. Machado de Assis. Bacamarte. A razão tentando medir a loucura. O homem que decidiu descobrir quem era louco e acabou colocando quase todo mundo dentro da instituição. Talvez a diferença entre loucura e normalidade seja apenas uma questão de votação. Alguns recebem diagnóstico. Outros recebem cargo. Alguns falam sozinhos. Outros têm microfone. A loucura não desapareceu. Aprendeu a usar gravata. Olhei para os livros. Eu já não sabia se estava lendo ou apenas lembrando. Napoleão apareceu. Depois Alexandre. Depois César. Depois Jesus. Depois Moisés. Depois Pandora. Depois meu pai. Tudo misturado. A história inteira parecia ter entrado naquela sala sem pedir autorização. O problema dos mortos é esse. Eles não precisam de espaço físico. Cabem todos dentro de uma cabeça. Fui até a janela. Lá fora havia uma noite tranquila. A casa estava cercada por aquele silêncio de bairro que aparece quando as pessoas finalmente fecham as portas e param de fingir que têm algum controle sobre a própria vida. Olhei para o céu. Pensei em Deus. Nunca tive muita sorte com essa questão. Há homens que encontram Deus numa igreja. Outros encontram numa doença. Alguns encontram no fundo de uma garrafa. Eu sempre encontrei perguntas. Talvez Deus seja apenas o nome que damos ao que não conseguimos suportar não compreender. Voltei para a sala. O gato entrou pela porta. Sem cerimônia. Não perguntou o que eu estava fazendo. Não perguntou por que havia livros espalhados. Não quis saber quem era Hamlet. Passou pela vitrola. Cheirou uma caixa. Ignorou um livro. Parou diante de mim. Olhou. Depois continuou andando. Aquilo me pareceu uma atitude muito inteligente. Um gato não precisa saber quem foi Napoleão. Não precisa saber quantos animais entraram na arca. Não precisa resolver o problema de Deus. Não precisa compreender a morte. Precisa de comida. Água. Um lugar razoavelmente quente. E talvez alguma paz. Nós complicamos tudo. Inventamos religiões. Filosofias. Sistemas. Teorias. Construímos universidades para tentar explicar aquilo que um gato resolve dormindo. Fui até a cozinha. Coloquei comida no prato. Chamei. Ele apareceu. Comeu. Sem agradecer. Como deve ser. Depois desapareceu. Procurei pela casa. Encontrei-o na minha cama. Já havia tomado posse. Não discuti. Naquela altura da vida, eu já tinha perdido discussões mais importantes. Apaguei a luz. A sala ficou escura. A vitrola continuava girando. A música havia terminado. O disco permanecia dando voltas. Fui até ela e desliguei. O silêncio entrou no lugar da música. Foi então que tudo pareceu voltar para o lugar. Os livros voltaram a ser livros. As caixas voltaram a ser caixas. Os mortos voltaram para dentro das páginas. Frida voltou para sua ferida. Jonas para o Leviatã. Odisseu para o Hades. Hamlet para sua dúvida. Hamnet para sua morte. Fabiano para a seca. Severino para sua cova. Bacamarte para a Casa Verde. Meu pai voltou para onde quer que os mortos permaneçam quando ninguém está pensando neles. E eu fiquei ali. Sentado. Um homem numa sala. Nada mais. Pensei que talvez essa fosse a parte que mais incomodava. Passamos a vida tentando ser alguma coisa. Inteligente. Forte. Bom. Importante. Amado. Lembrado. No fim, continuamos sendo apenas um corpo sentado numa sala escura, esperando a próxima coisa acontecer. O gato se aproximou. Deitou-se ao meu lado. Senti a respiração dele. Regular. Pequena. Sem preocupação alguma com o destino da humanidade. Não perguntou quantos anos eu tinha. Não quis saber o que eu havia feito da minha vida. Não perguntou se eu acreditava em Deus. Não quis saber se eu estava louco. Não perguntou se eu tinha amado o suficiente. Apenas ficou. Foi aí que percebi uma coisa. Talvez eu tivesse passado tempo demais procurando respostas em homens mortos. Nos livros. Nas religiões. Na filosofia. Na memória. E talvez a resposta estivesse naquela coisa simples que eu sempre considerei pequena demais para ser levada a sério. Uma presença. Alguém ficando. Não para resolver. Não para explicar. Apenas para não ir embora naquele instante. Fiquei olhando para o teto. Pensei que talvez esse fosse o nosso maior erro. Queremos a resposta inteira. O livro inteiro. A história inteira. Queremos saber o começo antes de começar e o fim antes de continuar. Queremos compreender o amor antes de amar. Queremos compreender a morte antes de morrer. Queremos saber para onde estamos indo antes de dar o próximo passo. Talvez não exista essa informação. Talvez exista apenas a próxima página. O próximo gole. A próxima noite. O próximo corpo ao nosso lado. Senti o gato se aproximar mais. Fechei os olhos. Por alguns segundos, não havia Napoleão. Não havia Moisés. Não havia Pandora. Não havia César. Não havia Jesus. Não havia Hamlet. Não havia meu pai. Não havia Casa Verde. Não havia Sertão. Não havia Hades. Não havia Deus. Havia apenas o quarto. O gato. Meu corpo. E o silêncio. Dessa vez, o silêncio não pareceu vazio. Pareceu suficiente. Talvez seja isso que a velhice ensina quando finalmente perde a paciência com as próprias perguntas. Nem tudo precisa de resposta. Algumas coisas precisam apenas de companhia. O gato respirava ao meu lado. A casa permanecia quieta. As caixas continuavam esperando. Os livros continuavam fechados. A vitrola estava parada. E eu pensei que talvez a última página não fosse o fim. Talvez fosse apenas o lugar onde finalmente paramos de escrever perguntas. Então dormi. Sem descobrir o nome da tristeza. Sem descobrir o nome de Deus. Sem descobrir o que seria de mim. Mas com um gato ao lado. Para uma vida inteira, talvez isso seja pouco. Ou talvez seja exatamente o bastante.

Paulo H Salah Ad din

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Pensador.com

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Chega de Margens Ainda estou me acostumando com ela em pleno 62/63— esta versão de mim que parece uma evolução silenciosa, metade caos, metade clareza e, de alguma forma, ainda intencional. Ela é nova, mas também… não é. Mais como um despertar. A próxima fase do por vir. Eu não…
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Chega de Margens Ainda estou me acostumando com ela em pleno 62/63— esta versão de mim que parece uma evolução silenciosa, metade caos, metade clareza e, de alguma forma, ainda intencional. Ela é nova, mas também… não é. Mais como um despertar. A próxima fase do por vir. Eu não percebi que escolher ser imperfeito eventualmente se tornaria parte do por vir. E agora que ela está aqui, ela não anda na ponta dos pés. Ela (idade/mente) não pergunta se é demais. Ela simplesmente chega — crua, firme, despreocupada — como se estivesse esperando que eu parasse de me moldar em formas que deixavam todos os outros confortáveis. E quando ela avança, ela não apenas sobe ao palco — ela o preenche, como se finalmente se lembrasse de que nunca deveria ter vivido à margem da própria vida. Ela permanece ali com essa certeza silenciosa, daquela que não precisa provar nada, daquela que faz você perceber que ela nunca foi o problema — o espaço é que era pequeno demais e me fazia me preocupar, me sentir pressionado. E talvez seja essa a parte que ainda estou aprendendo: que tenho permissão para viver uma vida que me encaixe. Que não preciso me retrair para ser compreendido. Que posso querer mais espaço sem sentir que estou pedindo demais. Não se trata de me tornar alguém novo — trata-se de finalmente me permitir ser quem eu sempre tentei proteger. E é isso que estou aprendendo agora: tenho permissão para crescer (ainda da tempo) além dos limites de quem eu costumava ser. Não preciso me retrair para ser compreendido e nem preciso que alguém me compreenda se esse alguém pretende caber na mesmice do cotidiano orientado por “influencer´s. Posso querer uma vida que me encaixe sem me desculpar por isso. Não se trata de me tornar alguém novo — trata-se de finalmente me permitir ser eu mesmo. E quanto mais me permito crescer, mais percebo o quanto eu me reprimia sem nem notar. Quantas vezes tentei me tornar mais fácil de carregar, mais fácil de entender, mais fácil de amar. Mas não farei mais isso. Nesta idade, a idade do pôr do sol da vida, estou aprendendo a me aceitar como sou — não como um projeto, não como um problema, mas como uma pessoa que merece o espaço que preciso conquistar. Há uma estabilidade nisso. Uma espécie de confiança tranquila que eu não sabia que podia ter. E é nisso que me apego agora — na compreensão de que não preciso me diminuir para me manter amistoso. Posso crescer – ainda que nesta idade o corpo encolha e se curve - sem me perder. Posso ocupar espaço sem sentir que estou tirando algo de alguém. Esta versão de mim não é uma partida; é um retorno – talvez seja isso, quando envelhecemos, retornamos para quem fomos um dia, quando crianças puras. Uma expansão. Uma acomodação na vida que venho construindo silenciosamente. Pela primeira vez, parece menos que estou me desvencilhando de quem eu era e mais que finalmente estou me tornando quem sempre fui.

*VOCÊ NÃO É A CASA* Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como s…
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*VOCÊ NÃO É A CASA* Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como se até ela soubesse que não valia a pena se esforçar demais. Eu estava olhando para a garrafa quando vi a fotografia. Uma mulher de vestido branco, descalça, subindo uma escadaria destruída. Fiquei algum tempo olhando aquilo. Não sei por quê. Talvez porque havia alguma coisa familiar naquela escada. Os tijolos estavam expostos. O reboco tinha caído em pedaços. Havia entulho nos degraus. A casa parecia ter sido abandonada depois de uma briga longa demais. Daquelas em que ninguém lembra mais quem começou e todos saem perdendo. Ela subia. De costas. Não dava para saber quem era. Nem precisava. O que importava era que ainda estava subindo. Pedi outra dose. O homem do meu lado olhou para a fotografia e disse: — Lugar perigoso. Eu disse que sim. Mas não era a escada que me preocupava. Era reconhecer a casa. A gente passa uma parte da vida construindo paredes. Trabalho. Família. Amigos. Algumas mulheres. Hábitos. Pequenas certezas. Vai colocando coisa dentro e chamando aquilo de vida. Depois começam as rachaduras. Primeiro ninguém percebe. Uma porta que já não fecha direito. Um joelho que reclama. Um nome que você esquece. Uma pessoa que antes ligava e agora não liga mais. Um amigo que morreu e deixou uma cadeira vazia que ninguém tem coragem de ocupar. Depois vem o resto. A casa começa a perder pedaços. Aos sessenta e poucos anos, eu já não tenho a mesma disposição para fingir que não vejo. O corpo diminui um pouco. A paciência também. A gente começa a carregar menos coisas porque percebe que carregar tudo nunca foi sinal de força. Às vezes era só medo de deixar alguma coisa para trás. Olhei novamente para a mulher. O vestido branco destoava daquela destruição toda. Aquilo me incomodou. Talvez porque eu tivesse passado tempo demais acreditando que era preciso estar inteiro para continuar. Não é. Você pode estar cansado e continuar. Pode ter perdido gente e continuar. Pode olhar para trás e descobrir que boa parte daquilo que chamava de futuro já virou entulho. E continuar. A escada estava quebrada, mas ainda era uma escada. Isso bastava. A mulher levantava um pouco o vestido para não tropeçar. Não havia heroísmo naquilo. Nenhuma grande lição. Ela simplesmente precisava subir. Foi quando entendi uma coisa que demorei décadas para entender. Eu não sou a casa. Passei muito tempo confundindo as duas coisas. Achei que cada perda arrancava um pedaço de mim. Que cada fracasso derrubava uma parede. Que cada despedida me deixava mais perto do fim. Talvez não. Talvez algumas coisas apenas precisem cair. Há construções que só continuam de pé porque ninguém teve coragem de abandoná-las. A música terminou. O dono do bar não colocou outra. Ficamos alguns segundos ouvindo o silêncio das garrafas, dos copos, da rua quase vazia. Paguei a conta e saí. Na calçada, o ar estava frio. Não me senti renovado. Não houve epifania. Minha vida continuava com os mesmos problemas e algumas contas novas. Mas, naquela noite, eu tinha uma pequena diferença. Eu sabia que a ruína não era necessariamente o fim. Às vezes era só o lugar onde a gente finalmente percebe que não precisa morar para sempre. E então sobe. Mesmo descalço. Mesmo tarde. Mesmo sem saber exatamente o que existe no andar de cima. Sobe porque ficar parado dentro dos próprios escombros também é uma escolha. E eu já tinha passado tempo demais escolhendo errado.

*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO* Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali. Isso acontece mais do que eu gostaria.
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*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO* Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali. Isso acontece mais do que eu gostaria. Às vezes saio da cozinha com alguma coisa na cabeça e, quando chego à varanda, a coisa desaparece. Fico parado com o copo na mão, olhando o jardim, como se a resposta pudesse ter ficado para trás no corredor. O jardim vai até o passeio público. Não há muro. Nunca coloquei. A árvore cresceu torta para um lado e ocupa quase toda a sombra da varanda. O gato gosta de ficar ali embaixo. Naquele dia estava deitado sobre a terra, com as patas recolhidas e os olhos fechados. Eu tinha um cigarro aceso. Não lembrava por que tinha ido fumar. Isso me pareceu mais importante do que deveria. Sentei. Na mesa havia uma caixa de fósforos vazia. Peguei, virei entre os dedos e tentei lembrar quando tinha sido usada pela última vez. Não consegui. Deixei de volta. O gato abriu um olho. — Também não sabe? Ele fechou o olho novamente. Talvez estivesse dormindo. Talvez apenas não tivesse interesse na conversa. Eu respeitei. Passei muito tempo acreditando que precisava entender algumas coisas antes que fosse tarde. Não sei exatamente quando comecei com isso. Talvez depois dos quarenta. Talvez antes. A memória tem esse defeito conveniente de reorganizar os fatos para que pareçam ter acontecido quando a gente estava pronto para entendê-los. Eu não estava. Ainda não estou. Lembrei de uma frase que escrevi muitos anos atrás. Não sei onde está o papel. Talvez tenha jogado fora. Talvez esteja dentro de algum livro. Eu costumava guardar essas coisas. Escrevi que era um rascunho de um plano que o tempo havia esquecido de executar. Na época, achei que tinha descoberto alguma coisa sobre mim. Hoje penso que talvez estivesse apenas cansado. Mas a frase ficou. Algumas frases fazem isso. A gente escreve para se livrar delas e acaba passando anos carregando-as. Levantei para buscar mais uísque. Na cozinha, fiquei alguns segundos diante do armário sem saber o que estava fazendo ali. Voltei para a varanda com a garrafa. O gato tinha mudado de posição. Só isso. Eu tinha envelhecido alguns anos desde aquela frase e o gato continuava mudando de posição. Talvez fosse esse o problema. Eu sempre quis que o tempo produzisse alguma conclusão. Ele não produziu. Produziu contas, fotografias, algumas cicatrizes, nomes que já não significam muita coisa e uma coleção de decisões que, vistas de longe, parecem ter sido tomadas por homens diferentes. Talvez tenham sido. Ou talvez eu só goste de pensar assim porque é mais fácil atribuir meus erros a versões anteriores de mim mesmo. Um homem de vinte anos. Um homem de trinta. Outro aos quarenta. Todos com o mesmo nome. Nenhum deles me pediu autorização. Uma mulher passou pelo passeio empurrando uma bicicleta. Olhou para o jardim. Eu tive a impressão de que olhou para mim. Ela continuou. Durante alguns segundos fiquei esperando que voltasse o rosto. Não voltou. Foi quando percebi uma coisa que deveria ter percebido muito antes: quase ninguém está olhando. Passei anos me comportando como se houvesse uma plateia. Como se cada escolha minha estivesse sendo registrada. Como se fosse necessário chegar a algum lugar com uma história coerente para apresentar no fim. Mas não havia plateia. Havia apenas o passeio, a árvore, a rua e uma mulher que provavelmente já tinha esquecido a varanda antes de chegar à esquina. O gato levantou. Caminhou até a borda do jardim. Parou. Olhou para o outro lado da rua. Eu fiquei esperando que ele fizesse alguma coisa. Ele não fez. Depois entrou em casa. Fiquei sozinho. Pensei novamente naquela frase antiga. Rascunho. Plano. Tempo. Eu tinha passado tantos anos tentando descobrir qual era a versão definitiva de mim que talvez não tivesse percebido o óbvio: eu continuava escrevendo rascunhos porque não queria assinar a versão final. Não sei se isso é covardia. Talvez seja. Também pode ser apenas hábito. Acendi outro cigarro. Fiquei olhando a fumaça desaparecer antes de chegar à árvore. Pensei nas coisas que deixei pela metade. Algumas por falta de coragem. Outras porque perderam o sentido. Outras simplesmente porque eu era jovem demais para perceber que certas portas fecham sem fazer barulho. Ainda havia uma parte de mim que insistia em voltar a essas portas. Não para entrar. Só para verificar se continuavam fechadas. Achei isso ridículo. Depois pensei que talvez fosse apenas humano. O céu começou a escurecer. A luz da varanda acendeu sozinha. A caixa de fósforos continuava sobre a mesa. Peguei-a novamente. Dessa vez não tentei lembrar de onde vinha. Coloquei no bolso. O cigarro terminou. Fiquei segurando o filtro entre os dedos por alguns segundos, como se esperasse alguma instrução. Não veio. Joguei no cinzeiro. Eu poderia ter ido para dentro. Não fui. Talvez ainda esperasse alguma coisa. Não sei o quê. Uma resposta. Uma lembrança. Uma vontade antiga. Uma prova de que todo aquele tempo tinha servido para alguma coisa. Nada aconteceu. E talvez tenha sido justamente isso que me fez ficar ali. Sem resolver. Sem concluir. Sem transformar a tarde em uma explicação. A rua continuou. A árvore continuou. Dentro da casa, ouvi o gato derrubar alguma coisa. Fui ver. Era apenas um copo vazio no chão. Peguei o copo. O gato já estava no corredor, indo embora. Fiquei olhando. Depois apaguei a luz da varanda. A casa ficou escura por alguns segundos antes que meus olhos se acostumassem. E eu percebi que ainda havia coisas em mim que não tinham terminado. Mas, pela primeira vez, não tive pressa de terminá-las.

*EU ME QUERO DE VOLTA* Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar. Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mo…
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*EU ME QUERO DE VOLTA* Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar. Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mochila pequena, pouca roupa, documentos, algum dinheiro e aquela sensação conhecida de que talvez, se eu ficasse longe o bastante, certas coisas dentro da cabeça perdessem o endereço. A estrada de serra estava quase vazia. Subi sem pressa. Curva depois de curva. Pinheiros, barrancos, casas isoladas, pequenas vendas onde ainda se podia tomar café sem alguém perguntar se você queria açúcar. Em alguns lugares, o mundo parecia ter esquecido de atualizar a paisagem. Eu gostava disso. Talvez porque passei boa parte da vida fazendo exatamente o contrário. Atualizando. Mudando de emprego. De cidade. De mulher. De opinião. De planos. Trocando certezas velhas por certezas novas, como quem troca uma camisa suja e acredita que ficou limpo. Quando somos jovens, ninguém nos explica direito o tamanho da brincadeira. Dizem para estudar. Trabalhar. Construir. Casar, talvez. Ter filhos. Comprar uma casa. Ser alguém. A gente acredita. Depois descobre que existe uma diferença enorme entre cumprir o figurino e caber dentro dele. Eu cumpri algumas partes. Outras fiz pela metade. E algumas fiz tão bem que quase consegui destruir a pessoa que deveria ter sido. Foi só muito depois que percebi isso. Na juventude, eu achava que as decepções eram acidentes de percurso. Uma mulher que não ficou. Um amigo que virou estranho. Um projeto que morreu antes de nascer. Uma porta que não abriu. Um sonho que parecia grande demais para o quarto onde eu dormia. A gente sofre. Depois chama aquilo de experiência. É uma maneira elegante de não admitir que não entendeu nada. Continuei subindo. Em determinado ponto, parei a moto num acostamento. Havia uma venda pequena, dessas que parecem ter sobrevivido por teimosia. Pedi café. O homem atrás do balcão devia ter mais ou menos a minha idade. Talvez um pouco mais. Ele não tinha pressa. Fiquei olhando enquanto ele limpava o balcão com um pano que provavelmente já tinha visto dias melhores. Pensei em quantas pessoas eu havia observado durante a vida. Homens cansados. Mulheres que desistiram de certas coisas sem anunciar. Gente que bebia todos os dias. Gente que trabalhava todos os dias. Gente que dizia estar feliz com a convicção de quem precisava convencer a si mesmo. Eu costumava olhar para essas pessoas de fora. Agora começo a reconhecê-las por dentro. Essa talvez seja uma das partes menos agradáveis de envelhecer. Você começa a encontrar nos outros os mesmos defeitos que passou anos condenando. O homem que você julgava acomodado. Você. A mulher que você achava que tinha desistido. Você. O sujeito que dizia não esperar mais nada da vida. Você. É uma espécie de justiça tardia. A vida não manda boleto. Manda espelho. Voltei para a estrada. Desci a serra em direção ao litoral. O ar mudou primeiro. Depois a paisagem. A estrada se abriu e o mar apareceu entre uma curva e outra. Parei. Fiquei olhando. Não senti nenhuma revelação. Ainda bem. Tenho desconfiança de revelações. Quase sempre elas duram até o próximo problema. O que senti foi uma coisa mais simples. Cansaço. Um cansaço antigo. Não do corpo. O corpo estava funcionando. Era outro. O cansaço de carregar perguntas que aprenderam a se reproduzir. Quando somos jovens, procuramos respostas. Depois de algum tempo, percebemos que algumas respostas apenas criam perguntas melhores. E algumas perguntas não querem resposta. Querem companhia. Segui pela estrada litorânea. Pequenos lugarejos apareciam e desapareciam. Uma igreja. Uma praça. Dois cachorros dormindo na sombra. Um bar aberto numa quarta-feira à tarde. Um velho sentado numa cadeira de plástico olhando para lugar nenhum. Talvez ele soubesse alguma coisa. Talvez não. Essa é outra mentira da idade. A gente imagina que quem chegou mais longe sabe mais. Nem sempre. Às vezes só chegou mais longe. Foi então que lembrei de algumas coisas que eu tinha deixado para trás. Não pessoas exatamente. Momentos. A adolescência. Aquele período estranho em que a vida ainda não tinha apresentado a conta. Eu sinto falta de coisas que, na época, pareciam insignificantes. Uma rua. Um quarto. Uma conversa idiota. Uma música tocando num rádio ruim. Uma tarde sem obrigação. A sensação de que ainda havia muito tempo. É curioso. Quando temos tempo, queremos futuro. Quando o futuro já está parcialmente ocupado pelo passado, começamos a querer de volta algumas tardes. Não quero voltar a ser adolescente. Isso seria uma estupidez. Quero apenas recuperar alguma coisa daquele sujeito que acreditava que a vida podia ser diferente. Não necessariamente melhor. Diferente. Talvez seja isso que eu tenha perdido. Não a juventude. A capacidade de acreditar antes de exigir garantias. Passei anos tentando viver de acordo com aquilo que parecia correto. E algumas coisas corretas fizeram estragos. Essa talvez seja uma das coisas que ainda não compreendi. Como alguém pode fazer tudo conforme o figurino e, mesmo assim, terminar diante de uma vida que não reconhece? Você trabalha. Paga contas. Cumpre compromissos. Evita escândalos. Engole algumas vontades. Adia outras. Diz “depois”. Diz “agora não”. Diz “é o melhor”. E, quando percebe, existe uma distância entre aquilo que você construiu e aquilo que você era. Não houve uma explosão. Não houve música triste. Ninguém percebeu. Foi acontecendo. Depois que sangra, seca. O problema é que a pele fica diferente. Talvez algumas coisas tenham morrido em mim em dias que eu achei que tinha apenas perdido. Uma relação. Uma amizade. Uma possibilidade. Uma versão de mim. Aquilo não me matou. Mas algo naquele dia morreu em mim. Demorei para entender. Ou talvez ainda não tenha entendido. A diferença entre amadurecer e se acostumar é uma das perguntas que continuam me perseguindo. Porque existe gente madura. E existe gente apenas cansada. Existe gente tranquila. E existe gente que desistiu de discutir com a própria vida. Existe gente que aprendeu a viver. E existe gente que aprendeu a não reclamar. Às vezes eu não sei em qual grupo estou. Talvez nos dois. Continuei rodando. O vento batia no capacete e levava embora qualquer possibilidade de pensamento organizado. Foi bom. Minha cabeça sempre foi um lugar pouco recomendável. Sou de carne, osso e uma confusão de pensamentos. Nunca fui exatamente uma pessoa simples. Durante muito tempo achei que isso fosse um defeito. Hoje já não sei. Talvez a simplicidade seja apenas uma forma eficiente de esconder aquilo que não conseguimos compreender. Eu sempre vou ser uma confusão. Não digo isso com orgulho. Também não digo com vergonha. É apenas um diagnóstico sem médico. No fim da tarde, parei perto de uma praia pequena. Não havia quase ninguém. Tirei o capacete e sentei num banco. O mar fazia aquele trabalho antigo de ir e voltar sem precisar justificar nada. Pensei que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando resolver a minha vida. Talvez a amnésia resolvesse o problema. Esquecer algumas coisas. Esquecer algumas pessoas. Esquecer certas versões de mim. Mas logo percebi que seria inútil. Porque não é o passado que continua nos perseguindo. Somos nós que continuamos voltando até ele. Voltei para a moto. Ainda não sabia para onde iria dormir. Também não sabia o que faria no dia seguinte. Pela primeira vez em muito tempo, isso não pareceu uma ameaça. Talvez porque eu tenha finalmente entendido que planejar tudo não me protegeu de nada. Tudo correu como eu não planejei. E, apesar disso, cheguei até aqui. Não é uma vitória. Também não é uma derrota. É apenas o lugar onde estou. A estrada continuava pela costa. Eu podia seguir. Podia parar. Podia voltar. Não havia placa dizendo qual das três opções seria a mais correta. Ainda bem. Passei anos demais obedecendo placas. Naquela noite, enquanto o céu escurecia sobre o mar, pensei numa frase que não parecia minha, embora viesse de dentro: eu me quero de volta. Não o homem que fui. Isso seria impossível. Quero de volta alguma coisa que existia antes de eu começar a negociar comigo mesmo. Antes de transformar desejo em obrigação. Antes de confundir responsabilidade com abandono. Antes de aprender a dizer “é assim mesmo”. Talvez viver seja justamente isso. Perder algumas versões de si. Encontrar outras. E, de vez em quando, reconhecer uma antiga no acostamento. Parar. Olhar. Não tentar trazê-la de volta. Apenas agradecer. Depois subir na moto e continuar. Porque existir é pouco. É preciso viver. Mesmo sem saber exatamente como. Mesmo carregando perguntas. Mesmo fazendo errado. Mesmo descobrindo tarde demais que algumas respostas não estavam na estrada, na cidade, nas pessoas ou nos lugares para onde fugimos. Estavam naquilo que a gente evitou olhar enquanto ainda tinha tempo. O motor pegou na primeira tentativa. Pus o capacete. Acelerei. Vamos, vida. Me surpreenda. Dessa vez eu não vou exigir que você faça sentido.