Frase de Sabrina Niehues
Conto de Ilusão Eu estava com meu grupo de amigos na praça da cidade. Estávamos bebendo. Fazíamos isso constantemente. Sempre à noite, claro. Mas tinha um garoto. Sempre tem um garoto. Eu e ele conversávamos bastante. Ele era muito inteligente e interessante. Naquele instante estávamos todos ali, conversando, rindo e ficando bêbados. À essa altura, alguns vão para um lado, outros para outro. Começa a rolar aquela história de pegação. Odeio essa parte porque sempre fico só. Mas tudo bem, apesar de tudo, eu ainda acho que o amor é lindo. Que meus amigos aproveitem. Então me sentei em um muro, acompanhada pelo copo de vodca, e fiquei olhando todos eles com um olhar meio vago, flutuante. E claro, fiquei me perguntando aonde o ele tinha ido. Não estava em nenhum lugar à minha vista. Imaginei que tivesse saído com alguma garota, mas todas estavam ali. Quando de súbito ele me deu um susto por trás. - Caramba, que susto. Eu quase caí. - Eu não ia deixar te deixar cair. - Ah, ta bom. - Posso sentar aqui? - Sim. Ele subiu o muro e se sentou ao meu lado. Fiquei olhando-o subir. Quando se acomodou, me encarou. Ficamos nos encarando por alguns instantes, e então ele perguntou: - Por que você se diz tão pessimista? Não parece ser. Está sempre tão bem humorada, rindo... Ele deixou a frase morrer no silêncio. Não esperava uma pergunta assim, mas respondi: - Quando a vida nos machuca muito, nós acabamos por perder a esperança de dias melhores. Então tudo acaba por dar errado e você pensa que tudo sempre será errado. Você acaba se tornando pessimista. E então, quando algo bom acontece, você se surpreende. E você tenta aproveitar ao máximo esse algo bom. É o que eu tenho feito. Aproveitado cada segundo que estou com vocês. Meus amigos. Ele me encarou por alguns segundos e perguntou: - Quer ficar comigo? Por esse eu não esperava. Sinceramente. - Acho que não. Ele pareceu se ofender, então me apressei em dizer: - Não é nenhum problema contigo. Sério mesmo. O problema é comigo. - Tudo bem, não precisa se explicar. - Não preciso, mas eu quero. Eu gosto de ti. Me sinto atraída por ti. Em vários sentidos. E é exatamente por isso que eu não quero me envolver mais. Eu não quero ficar dependente de ti. Ele pareceu surpreso. Deu aquele sorriso de canto e falou: - Tem medo de se apaixonar? - E depois eu que sou convencida... - Não estou sendo convencido, só achei que fosse isso. - É, pode ser. - Não é você que vive dizendo que o amor é lindo? Porque não aceita a beleza dele? - Porque, na maioria das vezes, ele não me mostra beleza alguma. Só me mostra seu lado ruim. Para os outros ele é bonito, mas para mim, não. - Então você tem medo de amar porque pensa que vai se machucar, é isso? Já foi ferida por alguém, certo? - Sim e sim. Novamente ele me encarou. Desviei o olhar e bebi mais uns goles de vodca. Ele disse: - Eu te acho muito interessante. Poderia me apaixonar por ti e te dar todo o meu amor. Mas, como eu já te disse, não está nos meus planos me entregar para alguém. Então não posso te prometer amor. - Sim, eu sei. Não quero que prometa. Só quero me compreenda. - Compreendi, sim. É uma pena que você não queira apenas se divertir. - Gostaria. É uma pena que eu não saiba separar as coisas. E também uma pena que você não queira se entregar à mim. Por completo. - É esse o seu desejo? - Talvez. Acho que seria bom. - Talvez. Mais uns goles na minha vodca. Ele desviou o olhar para o nada. Pensei, vagarosamente, por uns instantes. Dei o último gole da vodca. Desci do muro e estendi a mão para ele. - Desce aqui. Ele aceitou a minha mão. Quando desceu, estávamos bem próximos. Olhei nos olhos dele e disse: - Quer saber de uma coisa? Acho que já estou ferrada mesmo, então não faz diferença me ferrar mais. Aliás, sei que vou gostar. Ele deu aquele sorrisinho de canto e eu o beijei. Na minha lentidão, causada pela bebida, eu imaginava que um dia ele me amaria. Um dia ele sentiria e acreditaria no verdadeiro amor.
No pensador.ai desde