Pular para o conteúdo

Frase de Andrésaut

Pensamentos na Roda de Chimarrão A roda de chimarrão se forma sem aviso. Um chega, outro puxa a cadeira, alguém esquenta a água. Quando se percebe, o tempo já diminuiu o passo e ninguém sente falta da pressa. Na roda de chimarrão sempre tem quem fale menos. Não é silêncio vazio, é escuta. A cuia vai e volta, e junto dela um pensamento que ainda não terminou. O silêncio na roda de chimarrão nunca constrange. Ele se senta junto, toma um mate e fica. Às vezes diz mais que a conversa inteira. Tem roda de chimarrão que começa leve e, sem combinar, vai ficando funda. Quando vê, alguém falou de infância, outro de ausência, e ninguém tentou consertar nada. A roda de chimarrão mostra o ritmo de cada um. Tem quem devolva a cuia rápido, tem quem demore. Ninguém apressa. O mate não gosta disso. Na roda de chimarrão se encontram pessoas que talvez não se encontrassem em outro lugar. Ali, todo mundo bebe do mesmo amargo e isso iguala. Algumas conversas só existem na roda de chimarrão. Fora dali não teriam espaço, nem clima. São feitas do vapor da água e da confiança que se cria sem anúncio. Quando alguém chega atrasado na roda de chimarrão, a roda abre. Não precisa pedir licença. A cuia já sabe o caminho. Tem roda de chimarrão em que ninguém resolve nada. E mesmo assim todo mundo sai melhor do que entrou. Resolver nunca foi o objetivo. Na roda de chimarrão, a ansiedade vai ficando menor a cada gole. Não some, mas aprende a sentar e esperar. Sempre tem uma risada que nasce do nada na roda de chimarrão. Não é piada ensaiada, é convivência se reconhecendo. A roda de chimarrão não cobra explicação. Quem fala pouco fica. Quem fala demais também. O mate não mede ninguém. Tem histórias que se repetem na roda de chimarrão. E ninguém reclama. Porque não é a história que importa, é quem está contando de novo. Quando a água esfria na roda de chimarrão, alguém levanta e esquenta de novo sem dizer nada. Cuidar ali é gesto pequeno. Às vezes a roda de chimarrão fica só no som da bomba. Ninguém se incomoda. Aquilo também é conversa. A roda de chimarrão ensina que dá pra discordar e continuar sentado. A cuia passa mesmo assim. Tem roda de chimarrão curta. Alguém precisa ir, outro chega só pra um mate. Mesmo assim valeu. A cuia passa por mãos diferentes na roda de chimarrão e nunca muda. O que muda é o jeito de segurar. Quando a roda de chimarrão termina, ninguém anuncia. Ela se desfaz como coisa viva, deixando um resto de calma no ar. No fim, a roda de chimarrão não é sobre o mate. É sobre estar. O resto acontece sem esforço.

Andrésaut

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

Abrir fonte original (abre em nova aba)

Outras frases de Andrésaut

Distraidamente fiz amizade com o tempo que devagar me apresentou a felicidade, num rápido passeio pela tristeza, que por educação cumprimentei.
Continuar lendo

Distraidamente fiz amizade com o tempo que devagar me apresentou a felicidade, num rápido passeio pela tristeza, que por educação cumprimentei. Em seguida, porque o tempo não para, me fez conhecer um gracioso sorriso que eternizou uma amizade. E quase no finzinho daquele momento numa lágrima deu um tempo para lembrar que existe saudade.

Regar é lembrar. Um pouquinho todo dia. Planta também sente.
Continuar lendo

Regar é lembrar. Um pouquinho todo dia. Planta também sente. Carinho não gosta de atraso. Água é abraço da terra. Quem cuida, volta. Regador cheio, planta feliz. Esquecer acontece, cuidar conserta. Todo dia é dia de regar. Água mansinha faz milagre. A plantinha espera, mas sente. Cuidar é voltar sempre. Um dia sem água, outro com amor. A terra agradece. Regar é dizer: eu tô aqui. Carinho não é de vez em quando. Quem rega, cresce junto. O jardim aprende com o jardineiro. Água também é palavra. Amor se prova no cuidado.

Nem todo vento é ruim. Vento também ensina. Balançar não é cair.
Continuar lendo

Nem todo vento é ruim. Vento também ensina. Balançar não é cair. Raiz forte segura. A terra ajuda. Quem confia, fica. O vento passa. Medo também passa. Segurar firme faz bem. Aprender dói um pouquinho. Ficar em pé é coragem. O sol sempre volta. Vento testa, raiz responde. Quem aguenta, cresce. Cair não é sempre. Balançar faz parte. A raiz sabe o caminho. Depois do vento, calma. Nem tudo que empurra derruba. Confiar também é crescer.

Somos feitos de pedaços. Sim, de pedacinhos de vida. De sonhos que às vezes cabem na palma da mão e de vivências que mal cabem no peito.
Continuar lendo

Somos feitos de pedaços. Sim, de pedacinhos de vida. De sonhos que às vezes cabem na palma da mão e de vivências que mal cabem no peito. De experiências, de sorrisos, de lágrimas, de cara fechada em dia de desgosto e de alma perfumada quando a esperança resolve florescer de novo. Somos feitos de gostos e desgostos. De encontros e desencontros. De silêncios que ensinaram mais do que muitos discursos. De tombos que doeram, mas também de recomeços que nos levantaram mais fortes. Todos os dias, todas as horas, todos os minutos, esses pedaços vão se juntando, se costurando, se entendendo dentro da gente. E, aos poucos, vão nos formando. Sim, somos pedaços de um inteiro. Inteiros aos pedaços. E talvez seja justamente por isso que somos tão difíceis de quebrar. Porque quem já foi montado pela vida aprende a resistir. Quem já se refez muitas vezes descobre que força não é dureza, é capacidade de se reconstruir. E por isso somos brasileiros. Porque carregamos no peito essa estranha e bonita arte de seguir em frente mesmo quando falta um pedaço. A gente remenda a alma, ajeita o sorriso, sacode a poeira do coração e continua. Não porque seja fácil, mas porque dentro de nós sempre sobra coragem para juntar os cacos e transformá-los em caminho.