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Frase de Maria Alice Guimarães

A MULHER DE UM HOMEM Só Há muitas espécies em extinção na natureza. Desde os ursos Panda até a “mulher de um homem só”. Se por acaso alguém encontrar alguma por aí encaminhe para o Fantástico, pois se trata de raridade. A “mulher de um homem só” para quem não sabe, só teve na vida, um único namorado, ainda na adolescência. Muito jovem casou-se com ele. Sua “performance” sexual limitava-se a alguns tímidos beijinhos (os famosos selinhos de hoje) e uma ou outra mão-boba na perna da donzela que, de tão culpada, rezava a noite inteira rosários e rosários em penitência. E de joelhos, para que o pecado fosse mais facilmente perdoado. O encontro amoroso só podia acontecer no sofá da sala, aos domingos à tarde, sob a vigilância da família inteira que se revezava na guarda do hímen da moça. Depois de muitas e silenciosas tardes de namoro começava a ficar urgente passar à próxima fase, a do noivado, ante-sala para o casamento. “Os outros” já estão falando , dizia o pai, referindo-se a urgência em casar os pombinhos antes que acontecesse o pior. E o noivado era festejado com muita comida e muitos doces, familiares presentes na festa e uma bela aliança de ouro na mão direita dos noivos. Tudo isso vinha acompanhado de autorização paterna para andarem de mãos dadas e “de braços”. Podiam passear, mas sem dispensar o “doce- de- pera “. A núpcias da “mulher de um homem só” eram rigorosamente preparadas e implicava em muita festa , despesas enormes, quase sempre maiores que o poder econômico de muitas famílias. A festa durava o dia inteiro, tudo isso depois de semanas de exaustos preparativos. O vestido da noiva, obrigatoriamente branco, acompanhado de véu e grinalda de flores de laranjeira, só podia ser usado pelas moças-donzelas, virgens, de comportamento comprovadamente casto, avalizadas pelo pároco da igreja local, inclusive. A preparação da vida futura da “mulher de um homem só” parava por aí. Ela sabia através de conversinhas com casadas recentes que teria que passar por grandes apuros na noite de núpcias, mesmo assim, munida de muita coragem, encarava o fálico marido com toda coragem de que dispunha. Traumaticamente chegava até o matadouro, vestida em camisola de sedas e rendas, de preferência branca para combinar com sua pureza. Curiosidade havia, mas o medo era maior. A possibilidade da dor superava qualquer possibilidade de esperar por algo que pudesse ser bom. Era um ritual de passagem doloroso, sofrido, onde dor e alegria se confundiam. Muitas se separavam das famílias e iam viver em lugares distantes e como aves migratórias chegavam tristes acompanhadas daquele quase desconhecido que iria fazer gato e sapato da pobrezinha. Mas era assim que tinha de ser e todas as moças queriam casar. Ficar solteira era uma vergonha. Solteironas, nem pensar. Seria a condenação de “ficar para titia” ou cuidar dos irmãos mais novos e arcar com os pais quando envelhecessem. Melhor o matadouro, morder o travesseiro e tornar-se mulher (como se já não o fossem). Tornar-se, para sempre, “mulher de um homem só”. Ensinadas na lei do sacrifício e da doação acolheriam os filhos que deus mandasse, uma dúzia deles e nunca esqueceria nem o nome nem o aniversário de nenhum, afinal seu título era de nobreza- rainha do lar – quase uma santa.Dava até a impressão que os filhos foram concebidos sem sexo, como Jesus. Essa mulher não podia ter a visão de seu marido despido. Sexo só santificado, diziam os padres. Tinha que passar pela água-benta, pelo confessionário e era preciso zelar a vida inteira pela reputação, abdicar de enfeites e perfumes. Quem ouve uma história dessas nos dias de hoje pensa que é pura lenda. Mas ainda existem algumas dessas mulheres vagando por aí. Não conseguem entender muito bem quem são as extravagantes e voluptuosas” mulheres de muitos homens” que desfilam pelas ruas enfiadas em “jeans” apertados, barriguinhas à mostra, seios empinados, bundas arrebitadas, equilibrando-se em saltos muito altos e finos. Não se falando que exalam perfumes libidinosos que provocam paixões avassaladoras. Todas sem donos, livres pensam as “mulheres de um homem só” ou será que o mundo mudou tanto que agora são eles que têm de obedecer, comportar-se e se submeterem ao desejo delas? Será que eles é que viraram “homens de uma mulher só?”

Maria Alice Guimarães

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Outras frases de Maria Alice Guimarães

Vó é tão especial, que mesmo sendo modernas, joviais e cibernéticas, não se importam nem um pouco em dividir o espaço em sua cômoda, abarrotada de frascos de perfumes e de batons vermelhos, com porta-retratos ostentando aquelas carinhas, que só ela sabe, são o maior e mais descar…
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Vó é tão especial, que mesmo sendo modernas, joviais e cibernéticas, não se importam nem um pouco em dividir o espaço em sua cômoda, abarrotada de frascos de perfumes e de batons vermelhos, com porta-retratos ostentando aquelas carinhas, que só ela sabe, são o maior e mais descarado amor que uma mulher é capaz de sentir.

Para muito além do silêncio Meu amado morreu numa noite de agosto, como um passarinho abatido por um tiro certeiro. E nem foi por nada. Apenas para deixar de viver e pronto. Para que nunca fosse meu e eu nunca fosse dele ou para que fôssemos um do outro para sempre, sem que entr…
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Para muito além do silêncio Meu amado morreu numa noite de agosto, como um passarinho abatido por um tiro certeiro. E nem foi por nada. Apenas para deixar de viver e pronto. Para que nunca fosse meu e eu nunca fosse dele ou para que fôssemos um do outro para sempre, sem que entre nós nunca houvesse desencantos nem mágoas, banalidades e desgastes. Não houve tempo para mais que a ternura do amor primeiro, a mágica doçura de uma lembrança que ficou guardada, escondida para sempre naquele lugar mais secreto onde se guardam as relíquias. Virou claridade, congelou no tempo da memória que não é o mesmo que o tempo da vida. Não é passado, nem presente, nem futuro. Parou naquele agosto de todos os silêncios, porque se calou para sempre, parou ali e caminha num espaço sem referências, num vai e vem, talvez andando em círculos, não sei. E, se não fala, porque ouço essa voz que me chama e me consola com sorrisos inesperados, vestindo uma camisa de seda azul? Por que teima em não me deixar e fala que me aguarda, pede que me apoie na esperança, diz que não me trai e que é fiel à promessa que fizemos. Meu amado morreu e eu não fiquei triste. Fiquei vazia. Tristeza faz sentido e um dia passa, dá lugar à saudade, vira lembranças e até pára de doer, tem como consolar porque as alegrias sempre vêm pra socorrer e a tristeza se esconde envergonhada. O vazio não, esse precisa ser preenchido, senão não há como viver. No vazio a gente se perde, se confunde num labirinto sem fim, como se fosse sensação de fome e sede. E eu comi e bebi de fontes envenenadas, só pra não me sentir assim, vazia. Só sei que fiquei aqui e que meu amado morreu, que tive de viver sem ter sido dele, sendo dele para sempre. Que o busquei em muitos, tudo em vão. Meu único abrigo é a certeza que em algum lugar meu amado me espera , que sairá do esconderijo secreto onde guardei minha dor, o choro que ninguém viu e o fogo que não me queimou, que só fez doer, onde nada faz muito sentido, de onde sai o grito que não encontra eco nem consolo, mas me segue vida adentro e me fere como um raio de sol enviesado. Meu amado morreu sem me dizer nada, apenas me pediu pra não morrer também. Maria Alice Guimarães COLCHA DE RETALHOS