Frase de Miguel Chiyo Tomás
MONÓLOGOS DE UM MISERÁVEL Capítulo II — Fragmentos Ou matas, ou acabas apunhalado. Neste mundo condenado, para estabelecer vínculos, é preciso estar disposto a suportar o peso esmagador do ódio. O “amigo”, essa ficção social, figura entre os principais agentes do sofrimento. Em algum momento, inevitavelmente, desprezar-te-á quando a tua utilidade atingir o seu prazo de validade. Não por maldade deliberada, mas porque a compreensão entre os homens é uma farsa, um pacto rompido antes mesmo de ser firmado. As pessoas não se interessam pelas razões que motivam as tuas ações. Reagem apenas à superfície dos gestos. Fingir, ocultar, proteger... tudo é interpretado como traição. «No Hospital Dr. Bernardinho Camanga, na cidade do Dundo, província da Lunda-Norte, um homem ocultou a verdade de outro, acreditando que poupá-lo do desespero de uma doença terminal seria um ato de compaixão. Imaginou que poderia consolá-lo ou alimentá-lo com a esperança de uma possível recuperação, embora lhe restassem apenas três dias de vida. Quando a verdade emerge — como sempre emerge —, a amizade desfaz-se, contaminada pela mágoa e pela decepção.» A intenção, ainda que nobre, é sempre relegada ao esquecimento. O que subsiste é a acusação, a ruptura, o silêncio. O mundo fracassa porque não há compreensão; nem entre os homens, nem entre os animais, nem sequer entre as plantas, essas testemunhas silenciosas da degradação. Um único mal-entendido basta para romper um vínculo. Um lado afunda na depressão; o outro, na decepção. Uma amizade de anos dissolve-se num instante. Ninguém deseja ouvir explicações. Exige-se transparência absoluta, e qualquer ambiguidade é punida com desprezo. Mesmo quando se mente para proteger, colhe-se ódio. A sinceridade não redime; a intenção não absolve. Por isso, quem aspira escapar dessa prisão miserável acaba por evitar a convivência. O homem que vive só, fala só, caminha só: esse homem, ainda que dilacerado pela dor, é o único que já não pode ser ferido. Não possui vínculos; logo, não pode ser traído. Já não ama; portanto, já não é odiado. Não se relaciona; por isso, não se decepciona. Erros? Só existem porque há outros para julgá-los. Na solidão, o homem não erra: ele apenas é. As pessoas assemelham-se às águas de um rio: fluem, passam, desaparecem. Tornam-se ausentes mesmo quando permanecem ao lado. Estão vivas, mas como mortas; incapazes de lembrar, ouvir ou socorrer. A sua ausência torna-se mais presente do que a própria presença. À distância, são moldadas pela vontade alheia, convertendo-se em marionetes nas mãos de quem melhor as manipula. Pessoas são instrumentos. Nada mais. A África, entre tantos exemplos históricos, é a ferida exposta dessa verdade: Se não dominas, serás dominado. Se não enganas, serás enganado. Se não exploras, serás explorado. Se não matares, morrerás. Eis a lógica imunda do mundo: violência, domínio, ilusão. O sofrimento é o indício mais honesto da existência. Ele atesta a ausência de paz, de sentido, de finalidade. Não há serenidade na alma: se é que a alma existe. O mundo é um palco desprovido de propósito. Um deserto de significados. Tudo aquilo que chamamos de “sentido” não passa de uma construção desesperada; uma ficção que inventamos para suportar o fardo de existir. Criamos os problemas e, em seguida, simulamos as soluções. Mas... qual é o sentido de nascer para morrer? Qual é o sentido de viver para sofrer? Qual é o sentido de esquecer para depois lembrar, e lembrar para depois se arrepender? Qual é o sentido? Não há. Apenas fragmentos.
No pensador.ai desde