Frase de Nelson Rodrigues da Costa
Carrinho de bebé Queres tudo. Sem dar nada. E acreditas que isso é liberdade. Não é. É prisão disfarçada de conforto. Vais sentado. Não por falta de pernas, mas por falta de vontade. Braços soltos, olhar vago, como se o mundo te devesse movimento. Empurram-te. Eles. Velhos, cansados, mas fiéis. Ainda a carregar-te como se fosses promessa por cumprir. Como se amar fosse garantir que nunca caias, mesmo que nunca aprendas a andar. És adulto. Mas recusaste o salto. Preferiste o colo prolongado, o caminho sem ferida, a sombra do que nunca arriscaste ser. Fazes-te pequeno porque crescer implica dor. E tu preferes que te amem imóvel do que te enfrentem de pé. Queres sucesso, mas sem obra. Queres destino, mas sem jornada. Queres tudo, mas não queres pagar o preço de nada. Vives numa redoma. De vidro espesso, mas temperado a afeto. Um casulo onde o cordão umbilical não foi cortado, apenas esticado, como uma corrente feita de ternura e medo. Eles empurram-te porque te amam. Mas o amor, quando não acorda, também adormece. Um dia cairão. E não por cansaço, mas porque chegou o fim. E tu, sem chão, sem rumo, sem desculpa — descobrirás que a vida que evitaste não te espera. Nunca esperou.
No pensador.ai desde