Frase de Lucci Santz
RESPOSTA O que fica não é necessariamente o que foi deixado. Há coisas que atravessam uma vida e desaparecem sem testemunha. Outras permanecem num lugar que sequer conhecemos. Uma palavra pode morrer em quem a escreveu e continuar respirando em outra pessoa. Uma ausência pode ser apenas ausência para quem partiu, e tornar-se linguagem para quem ficou. Por isso, nenhuma história termina quando a última palavra acaba O que foi dito já não pertence inteiramente a quem disse. O que foi vivido também não permanece intacto em quem viveu. Cada pessoa recolhe uma parte diferente dos acontecimentos. Uma guarda o silêncio. Outra, a ofensa. Outra, a ternura. Outra sequer sabe explicar por que determinada coisa nunca deixou de doer. E sempre haverá algum idiota disposto a interromper o texto com a grande descoberta: “É inteligência artificial.” Como se nomear uma ferramenta fosse suficiente para desqualificar aquilo que ela produziu. Curioso é que, às vezes, a única coisa artificial na sala é justamente a inteligência de quem acusa. Porque escrever não é juntar palavras. É sustentar uma ideia. É construir pensamento. É saber onde uma frase termina e onde outra começa. E há quem não consiga sequer organizar o próprio argumento sem tropeçar nele, mas se sinta suficientemente preparado para julgar a literatura alheia com três palavras e uma acusação. No fim, pouco importa quem escreveu primeiro, quem escreveu melhor ou quem utilizou qual ferramenta. O texto precisa sobreviver ao autor, ao método e principalmente ao julgamento de quem não conseguiu compreendê-lo. Talvez seja essa a única propriedade impossível de confiscar: o significado que algo adquire depois de passar por nós. O que tu fica não é o que eu fico. E talvez seja justamente aí que começa a literatura.
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Pensador.com
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