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Frase de Natália Correia

De amor nada mais resta que um Outubro e quanto mais amada mais desisto: quanto mais tu me despes mais me cubro e quanto mais me escondo mais me avisto. E sei que mais te enleio e te deslumbro porque se mais me ofusco mais existo. Por dentro me ilumino, sol oculto, por fora te ajoelho, corpo místico. Não me acordes. Estou morta na quermesse dos teus beijos. Etérea, a minha espécie nem teus zelos amantes a demovem. Mas quanto mais em nuvem me desfaço mais de terra e de fogo é o abraço com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia

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Pensador.com

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A POSTERIORI No princípio era treva. Alma que se rebela Contra um céu que se encobre. E Judas foi o mau Na novela de Cristo Para embarcarmos na ideia De outro metal mais nobre. O mal foi um Ulisses Com medo das sereias. O que seria o mundo Se ele as tivesse ouvido? Talvez saísse um cuco Do relógio das veias Anunciando ao mundo Que Deus tinha nascido.

Tinha o tamanho da praia o corpo era de areia. E ele próprio era o início
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Tinha o tamanho da praia o corpo era de areia. E ele próprio era o início do mar que o continuava. Destino de água salgada principiado na veia. E quando as mãos se estenderam a todo o seu comprimento e quando os olhos desceram a toda a sua fundura teve o sinal que anuncia o sonho da criatura. Largou o sonho nos barcos que dos seus dedos partiam que dos seus dedos paisagens países antecediam. E quando o seu corpo se ergueu Voltado para o desengano só ficou tranquilidade na linha daquele além. Guardada na claridade do olhar que a retém.

A Defesa do Poeta Senhores juízes sou um poeta um multipétalo uivo um defeito
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A Defesa do Poeta Senhores juízes sou um poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com uma camisa de vento ao contrário do esqueleto. Sou um vestíbulo do impossível um lápis de armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos espero viver dentro de mim. Sou em código o azul de todos (curtido couro de cicatrizes) uma avaria cantante na maquineta dos felizes. Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte serei não há cidade sem o parque do sono que vos roubei. Senhores professores que pusestes a prémio minha rara edição de raptar-me em crianças que salvo do incêndio da vossa lição. Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes sois os reis dou um poeta jogo-me aos dados ganho as paisagens que não vereis. Senhores heróis até aos dentes puro exercício de ninguém minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais além. Senhores três quatro cinco e sete que medo vos pôs em ordem? que pavor fechou o leque da vossa diferença enquanto homem? Senhores juízes que não molhais a pena na tinta da natureza não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante minha defesa. Sou um instantâneo das coisas apanhadas em delito de paixão a raiz quadrada da flor que espalmais em apertos de mão. Sou uma impudência a mesa posta de um verso onde o possa escrever. Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer.