Frase de Retalhos de uma vida inteira
Ovelha de Guarda Por Mônica Barreto Alves Fui a filha teimosa, a do contra, a rebelde, a ovelha negra que o rebanho não entende. Desobediente aos olhos de quem queria silêncio, fui o erro, o ruído, o eterno desavenço. Meus passos eram tortos para a régua da família, enquanto os "escolhidos" brilhavam na trilha. Eles eram os troféus, o orgulho, a perfeição, eu era a sombra, o aperto no coração. Mas o tempo, esse mestre que não sabe mentir, viu o brilho dos "queridos" um a um sumir. E quando o esquecimento se instalou no teu olhar, nenhum dos adorados veio te segurar. O Alzheimer chegou, apagando o que restou, e o silêncio da casa os "perfeitos" afastou. Onde estão os troféus? Onde está a devoção? Não estão no teu leito, nem te dão a mão. E aqui estou eu, a ovelha marcada, aquela que, para você, nunca valia de nada. Sou eu que te limito, que te guio, que te dou o pão, sou eu o teu porto, a tua única direção. Sou eu quem segura o que a memória perdeu, quem cuida do pai que de mim se esqueceu. Porque o amor de quem foi julgado é o mais verdadeiro: não cuido por mérito, cuido por ser inteira. A ovelha negra, no fim da jornada, é a única luz na tua estrada nublada.
No pensador.ai desde