Frase de Raniere Gonçalves
Caminhava atrapalhado pela terra arada, na cabeceira do Piancó. As minhas botinas tossiam poeira. Mais de vinte dias de veranico desde o plantio. Eu chorava os adubos e sementes adormecidos na terra seca; remoía, triste, os prejuízos iminentes, quando estampidos de arcabuz ecoaram no longe. As nuvens de algodão foram empalidecendo com os ventos atropelados, lá das bandas do Cachoeirão. Num risco eles já penteavam angicos e sucupiras. Enegreceu. Corri de volta, sobre os meus calcanhares, pra juntar a tralha. Deveras que vinha uma borrasca. E veio. Quando entrei na cabina eu já estava empapado. Meu chapéu goteirava alegrias. Fiquei ali, protegido, apreciando aquela beleza líquida. Escorriam sorrisos dos meus lábios. E assim foi um pedaço alongado de hora. Aproveitei pra abrir o caldeirão: almocei como um padre porquanto lá fora tudo era água. Quando amainou fui conferir a felicidade empoçada no desnível das curvas: bastante. Agora é esperar o broto, pensei. Na volta a D20 rabeava, parecia dançar o hit do Gene Kelly. E, ainda essa vez, a esperança voltou pra colorir o horizonte dos meus olhos.
No pensador.ai desde