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Frase de Humberto Silveira

INSURGÊNCIA A fome e a seca no Nordeste não foram tragédias naturais — foram estratégias. Sintomas de um projeto político que tem donos: da terra, da água, do poder. Desde o período colonial, o Nordeste foi desenhado para sangrar. As mãos que aravam a terra nunca foram as que a possuíram. E, assim, condenaram um povo inteiro à miséria. E o que ficou no Nordeste? A terra rachada… e as mulheres. Elas não migraram. Ficaram. Ficaram para segurar o mundo nos ombros, com os filhos no colo e a esperança entre as mãos. Mesmo quando não havia farinha, comiam palma. Enganavam o estômago das crianças com caldos ralos, enquanto rezavam para que a noite não levasse mais uma vida. E é aqui que começa a insurgência. A insurgência dessas mulheres foi não morrer. Foi não ceder. Foi insistir em existir onde tudo ao redor pedia silêncio e desaparecimento. Suas mãos calejadas, seus pés rachados, seus olhos secos de tanto chorar — tudo isso é marca de uma luta que nunca foi reconhecida como deveria. A verdadeira insurgência nordestina tem o rosto dessas mulheres. Elas são a terra que não cede, a raiz que não morre, a memória que não se apaga. Lilian Morais Há momentos em que a arte não representa. Ela confronta. Ela insiste. Ela se ergue. Insurgência, como nos propõe Lilian Morais, não é revolta ruidosa, mas fogo subterrâneo que ascende em silêncio e cor. Esta exposição não se limita a apresentar obras: ela se recusa a calar afetos. Cada traço, matéria e composição é um fragmento de um corpo que pulsa — corpo individual, corpo social, corpo-mulher, corpo-luta. A insurgência que Lilian nos convoca é ao mesmo tempo íntima e coletiva: nasce de dentro, mas se espalha para fora, como se cada tela estivesse tentando respirar pelo mundo. Numa época marcada pela normatização dos gestos, dos desejos e das imagens, sua arte desvia. Desvia do esperado, do domesticado, do permitido. E ao desviar, revela: revela o que foi silenciado, o que foi esquecido, o que nunca teve nome. A escolha do título Insurgência não é aleatória: é afirmação. É o reconhecimento de que a arte pode — e deve — ser território de fratura e reinvenção. Aqui, as cores não decoram; elas denunciam, acolhem, provocam. Os vazios não são ausências; são respiros. As formas não obedecem; elas insistem em ser o que são. Lilian Morais entrega sua insurgência com elegância firme, com delicadeza dura, com beleza que não fecha feridas, mas as mostra com dignidade. É arte que se posiciona sem se explicar. É arte que não se curva — e por isso toca. Numa cidade como Salvador, onde os tambores da história ainda ressoam nos corpos das ruas, a exposição Insurgência não poderia encontrar lugar mais vivo. É nesta Bahia de lutas e encantos, de dores e reinvenções, que a artista instala sua travessia. E convida: não apenas a ver, mas a sentir. A escutar o que vibra dentro de cada imagem. A insurgir-se, também — ainda que só por um instante. Por Humberto Silveira

Humberto Silveira

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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