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Frase de Nereu Alves

Ninguém entra num túnel desses por vontade própria. A gente entra porque a vida empurra e porque sair, às vezes, parece mais difícil que continuar. Lá dentro, havia gente demais. Corpos se esbarrando, pensamentos fora de lugar. O túnel pulsava como um organismo antigo, estreito demais para quem carregava pressa, culpa ou medo. No chão, pequenos orifícios deixavam passar guias — fios, artérias, destinos. Disseram que aquilo mantinha a cidade viva. Disseram também que, se rompesse, tudo viraria água. Foi quando vi a janelinha. Redonda, pequena, quase tímida. Atrás dela, peixes atravessavam o silêncio como se o mar não soubesse do nosso pânico. Alguém gritou que ia romper. A palavra bateu nas paredes e voltou maior. As pessoas correram sem saber para onde. Eu fiquei. Nem coragem, nem medo. Só cansaço. Então surgiram elas. Criaturas compridas, estranhas, como enguias que aprenderam a sorrir. Uma parou, juntou as mãos e agradeceu a Deus pela comida. Ninguém riu. O túnel respeitou. Pouco depois, apareceu uma princesa brasileira. Vestido simples. Dignidade sem brilho. Ela olhou o túnel, respirou fundo e disse que ainda não era a hora de entrar. Quando percebi, já estava na água. Um lago que parecia piscina, ou uma piscina que fingia ser lago. A água era morna. O corpo flutuava sem pedir licença à mente. Havia pessoas conhecidas. Sem passado pesado. Sem perguntas difíceis. Alguém trouxe um bolo de chocolate. Comi. E o mundo não desabou. Em volta do lago, hotéis. Todos provisórios. Como quase tudo que dói quando a gente insiste em chamar de definitivo. Fiquei ali muito tempo. Tempo suficiente para entender que o túnel não era prisão. Era travessia. E que o mar, lá embaixo, escuta melhor quando a gente finalmente para de lutar. Nereu Alves

Nereu Alves

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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