Frase de 7bilhoesdehistorias
Bonito de doer! Nossa senhora! Assim percebemos, eu e minha amiga, um jovem de altura [in]desejável (para elas que apreciavam os pequenos) pedindo “seiscentos gramas de queijo coalho fatiado, por favor”! ******* Acostumas a ouvir seiscentas sempre...Seiscentos gramas foi demais! O suficiente para fazer voar a imaginação de nós duas sobre aquele rapaz na padaria, véspera de feriado e sozinho às 7 da noite. ******* Minha amiga (Yah) é do mundo, mas nasceu em Caruaru, interior de pernambuco(logo alí), terra do famoso Mestre Vitalino, jovem(vinte e poucos anos), artista(atriz das boas), desinibida, linda, cult, inteligente, urgente, emotiva, estudou ballet, piano, leu mil livros, escreve e é quase realizada na vida. Eu (Adriana)também do mundo, nasci em Serra Talhada, sertão do mesmo estado(lá na "baixa da égua", como dizia vovó quando o lugar era longe) terra de um cangaceiro chamado Lampião. Estudante, chata, pragmática, apressada, intolerante, às vezes engraçada, apaixonada por cinema, quadros, tintas, pincéis, artesanato, adereços, saias, havaianas, livros... ******* - Acho que é de fora, tinha sotaque diferente. - Será que é solteiro? - É nada. Um gato daquele não ia ta sozinho nunca! - Ele pode ser novo na cidade, tem cara de estudante. - Será gay? - Não, acho que não. Mas se for, não parece. Sim porque, em Recife, fora noivo, casado, gay, padre e os mal educados que comem de boca cheia, falam seiscentas, arrotam e peidam sem cerimônia, não sobra nada que se aproveite. - Acho que é estudante de mestrado vindo de algum lugar. - Estudante, inteligente e pelo jeito mora só, pois pediu queijo fatiado, sinal de quem não tem empregada e não queria ter trabalho na hora de assar. Para quem não sabe, queijo coalho só presta assado. Assim a conversa rendeu por horas a fio. O fato é que elas chegaram em casa e só então lembraram o feriadão e a falta que o pão que elas esqueceram de comprar faria nos dias seguintes em que tudo era fechado. Mas não pareciam se incomodar, pois o gato da padaria pedindo seiscentos gramas de queijo coalho-fatiado- compensava qualquer necessidade de comer. Mentira! Elas cozinharam como nunca, inventaram pratos ótimos e passaram muito bem, mesmo sem pão e sem romance. Depois Yah comentou que ele poderia ser de fato solteiro e estava em companhia de amigos em um apartamento mal arrumado qualquer ali pertinho. Eu achei por bem acreditar, considerando a quantidade generosa de pão e queijo comprados a suposição me pareceu apetitosa para uma viagem rápida ao mundo fantástico de bobby. Eu e Yah tínhamos vasto histórico de romances fracassados parecidos e mesmo não apreciando os aproximados 1.80m de altura do rapaz, era bom imaginar que ele servia para qualquer coisa. Uma amizade, um rolo e por que não, um namorado? Que sonho! Ele era fofo, gentil e doce no modo de falar, não parecia gay e àquela altura do campeonato solitário de nós duas, com a chuva daquele fim de semana tão longo... O cansaço da busca pelo ideal -inexistente- [bonito, inteligente, pequeno, solteiro, independente e hétero] deu lugar ao essencial. A importância de ter alguém na vida que (lógico, entre outras virtudes indispensáveis à nossa exigência) naquele momento soubesse apenas pedir por favor 'gentilmente' e falasse: seiscentos gramas.
No pensador.ai desde