Frase de Clarice Lispector
Descobri o meu país Subi a montanha e no seu topo os anjos me cercaram e me engrinaldaram a fronte com as flores do céu. Asas zumbiam em harmonias fragílimas e vozes de arcanjos louvavam a paz. Derramaram sobre meu corpo sete bálsamos purificadores e fizeram-me beber ambrosia e mel. Banharam-me no rio da música e eu saí ingênua como o canto de uma criança. E depois surgiram novos anjos e não havia noite e não havia dia. E a ambrosia e o néctar deslizavam com fartura celestial. E novas canções se entoaram sempre em louvor a Deus. E não havia noite e não havia dia. E aos poucos cresceu dentro de mim o desespero e eu busquei em vão os olhos celestiais. Eles nada diziam e cantavam a paz. E aos poucos uma nostalgia me enlanguesceu e eu era o arco distendido sem a flecha e eu buscava o ar sem respirar. Um anjo me interrogou: mais néctar? Eu gritei: quero cheiro da terra! E o anjo me perdoou E eu cansei de ser perdoada, eu queria sofrer. E não havia noite e não havia... Quebrei minhas asas, desci a montanha e vivi na Terra! Homens amavam e cansavam do amor. Homens bebiam sangue e descobriam que não desejavam brigar Entoavam-se cânticos místicos onde só havia a insatisfação. E depois homens morriam e todos sabiam que era o fim. Nem a terra, nem o céu! Fechei-me num quarto, inventei outro Deus, outro céu, outra terra e outros homens.
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Fonte e informações de autoria
Pensador.com | Fonte: Dom Casmurro, 25 out. 1941. In: Moser, Benjamin. A Newly Discovered Poem By Clarice Lispector. Revista de Literatura Brasileira, n. 36, p. 37-46, ano 20, 2007. | Nota de autoria: Nota: Esse é um dos dois únicos poemas que foram publicados em vida por Clarice Lispector. O outro poema publicado em vida pela autora é A mágoa.
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