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Frase de Renata Mulinelli

outubro Eu não queria levar nada, carregar nada, lembrar nada. Preferi não me despedir, despedidas costumam ser melancólicas e explicativas, e de todas as coisas que eu fugia com a minha decisão, as principais eram a melancolia e as explicações que implicavam aquela vida.. Juntei dinheiro, peguei uma mochila, nem grande demais pra não chamar a atenção, nem pequena demais pra não faltar espaço pro que eu precisaria dali pra frente. Selecionei a bagagem: poucas mudas de roupas, três fotografias, uma carta, um rascunho de resposta, dois livros, um mapa rabiscado e fiquei indecisa sobre os pingentes: um mamãe me dera, o outro fora dela.. Resolvi levar os dois. Botei a mochila, enfiei o boné na cabeça, meu pai sempre disse que eu botava aquele boné quando queria aprontar alguma, talvez o velho não estivesse tão errado assim. Deixei um bilhete no espelho do banheiro: "Não sei quando tu volta, mas sei o que vai pensar sobre isso. Um dia, talvez, entenda que não é fraqueza, é liberdade, mas eu não tenho grandes esperenças quanto a isso. Ainda, com amor, L. " E saí, nunca me senti tão feliz em sentir a brisa das seis da manhã, os primeiros raios de sol de primavera me invandiam por inteira e me permiti um sorriso, fazia tanto tempo, já tinha esquecido a sensação... Não qualquer sorriso, sorrir a gente sorri todos os dias, mas sorrir pra alma também, sorrir com o corpo inteiro, sentir os pulmões se enxerem e a expressão do rosto iluminar-se, isso sim, é um sorriso. Pensei então no que seria agora, nem tinha me passado pela cabeça que eu não tinha nada planejado, engraçado como essas coisas acontecem. Quando eu era criança e fugia de casa (dava a volta no quarteirão, passava a tarde embaixo de um banco e comia um CQ na praça, a noitinha voltava correndo pra casa), passava meses desenhando mapas e contabilizando minha mesada, pra ver o que dava pra fazer. Hoje, com 19 anos, eu não pensei em nada, me dei alta da semi-vida e escolhi viver, simples assim. Mesmo sem querer, lembrei da Fer, não era justo ir embora assim e não dizer nada nem pra ela, e de qualquer forma, sabia que dela ninguém ouviria uma palavra. Peguei o celular, mas hesitei por um instante, o que eu queria dizer não dava pra expressar pro telefone, mudei a rota e segui até a casa dela. Fazia dois anos que a Fer dividia a casa com quatro colegas de faculdade, o irmão dela, uma guria e dois amigos. Era um chalézinho simpático, com um pátio grandão e duas árvores que me deixavam encantada, já pensei várias vezes em me mudar pra lá também, mas nunca fui muito social, e a idéia de dividir o banheiro com cinco pessoas, é, não mesmo. Toquei o interfone, um dos meninos que moravam lá era técnico em eletrônica, o chalé era todo equipado com coisas exageradas, mas que davam um toque de personalidade pro lugar. - Quem? - uma voz sonolenta atendeu. Reconheci imediatamente o tom, era o Biel, irmão da Fer. Me dei conta que eram seis e vinte da manhã, e que a maioria dos estudantes normais estudavam só depois das oito, me dei conta também, do misto de sentimentos que eu senti ao ouvir aquela voz. Balbuciei alguma coisa e fiquei totalmente sem jeito. - Biel? A.. a Fer "tái"? - Cara, que horas são? Bah, eu nem sei da Fer, não abri os olhos ainda.. "Guentaí" que eu vou ver. - com um estalido ele desligou o interfone. Passou alguns instantes, alguns passos no parquet do chalé, a chave girou na fechadura, esperei ver a Fer com o seu pijama amarelo que rendeu altas piadas entre a gente, mas ao invés dela veio o Biel com uma caneca de chocolate. - Bom dia senhorita-surpreendente - disse ele com um sorriso e ergueu outra caneca na minha direção. - Não.. Biel.. eu realmente preciso falar com a Fer, não dá tempo.. agora, não. Todo esse embaraço não era de graça, eu e o Biel sempre tivemos uma relação... engraçada, no mínimo! Sem falar que eu só queria ver a Fer e ir embora, não queria que mais ninguém me visse, ninguém pra me tentar convencer a mudar de idéia, não que eu corresse esse risco, sabia exatamente o que queria, ou pelo menos, o que eu não queria. E o Biel sempre teve aquele jeito, de me fazer falar tudo o que eu tava pensando, sem muito esforço. Pra falar a verdade, era natural, quando tomava por conta, já tinha falado tudo que eu não admitia nem pra mim mesma. - Ei, ei, calma aí, pequena! Parece até que tá fugindo.. - ele se manteve sorrindo e com a caneca no ar. "Parece que tá fugindo, comentáriozinho sem vergonha esse." Aceitei a caneca, não tinha mesmo planos, essa era a vantagem, essa era a grande mudança, o que fazia tudo ter sentido, sem explicação alguma.. Nada de planejar, nada de saber, estava no ínicio do dia do primeiro mês do resto da minha nova vida..

Renata Mulinelli

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Outras frases de Renata Mulinelli

Só pra'te contar de todas as vezes que eu não te sentia perto, e te confessar que eu sentia todas as vezes em'que tu estavas aqui, em que eu abraçava o teu pescoço pra te fazer mais meu, mais próximo, mais parte-de-mim ou parte-que-me-cabe-de-ti, e que teus braços, tanto quanto t…
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Só pra'te contar de todas as vezes que eu não te sentia perto, e te confessar que eu sentia todas as vezes em'que tu estavas aqui, em que eu abraçava o teu pescoço pra te fazer mais meu, mais próximo, mais parte-de-mim ou parte-que-me-cabe-de-ti, e que teus braços, tanto quanto tua mente e teu olhar se distanciavam cada vez mais, cada encontro mais, cada abraço mais, porque eu te segurava, e criava mais braços e mais mãos pra te juntar, pra te acorrentar, por que, entende? Não que eu quisesse te possuir ou te comandar, eu só queria sentir os teus braços, o teu corpo, o teu querer-estar e querer-sentir, mas eu não sentia, e quanto mais meus braços envolviam o teu corpo mais deixava transparecer que era só um corpo, oco. Não havia nada ali, ao menos não pra'mim.. E que cada vez que eu tentava te sentir, via os teus braços distantes de mim, e o teu rosto usando meu ombro de repouso apenas para mirar com os olhos um outro lugar tão, mas tão longe dali.. E os meus braços cansaram, finalmente enxergaram, que não importava a força e o amor que eles sentissem pelo teu pescoço, e o meu faro pelo teu cheiro, e os meus olhos pela tua cor, meu ouvido pelo teu timbre, sempre seria assim, eu ali, entregue assim, e o teu querer-pertencente-a-outro-alguém jamais estaria onde eu estivesse, porque o teu querer pertencia-a-outro-alguém e não queria-a-mim.. Então tornou-se tudo tão mais claro, e tudo tão mais fácil, que me fez querer ter alguém que criasse elos, ligações, conexões, sintonias em apenas estar perto, meus braços cansaram-se, fecharam-se, hoje, aceitam apenas os braços que primeiro lhes tocam, e sentem necessidades que antes desconheciam, como encostar em outros braços que também-lhes-queiram e também-os-sintam, que não haja mais a necessidade de segurar, de esperar resposta, de procurar pulsos e encontrar repulsa.. Apenas o toque, apenas a recíprocidade, hoje, eles não esperam mais por ti e nem meus olhos procuram ver o que os teus parecem querer, nem meu faro sente falta do teu cheiro que o acompanhava aonde quer que fosse, descobri mil outros timbres, no início foi difícil não comparar com o teu e com aquela sensação gostosa que emanava, vibrando em mim, mas não sinto mais, e é tão livre, tão puro.. Tudo bem, se demorar pra encontrar braços que queiram os meus abraços, só que teu eu não espero mais, eu não peço mais, eu não quero, não quero mais.

Foi em uma rara noite chuvosa de dezembro, final de ano, fim do ensino médio. Eles foram deixados, propositalmente, para trás, e riram, satisfeitos com a situação. Martini, cereja, moedas, sorriso, silêncio. - Vam'bora daqui? Esse cara cantando tá me deixando doida! Passos ince…
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Foi em uma rara noite chuvosa de dezembro, final de ano, fim do ensino médio. Eles foram deixados, propositalmente, para trás, e riram, satisfeitos com a situação. Martini, cereja, moedas, sorriso, silêncio. - Vam'bora daqui? Esse cara cantando tá me deixando doida! Passos incertos em meio a calçada deserta, chuva, vento, liberdade. O silêncio fez mais pelos dois que qualquer frase ensaiada, era mútua a confiança, a cúmplicidade. Passaram juntos por mil situações ao longo do ano, sem jamais precisar falar demasiadamente sobre nenhuma delas, era o olhar, era o sorriso, e bastava. Riram de tudo, deixaram-se enxarcar e chover também, nessa noite não era só do céu que caíam as gotas, a presença dele coloria o céu nublado e aquecia a outra alma deserta, fugitiva. Contaram passos, casos, passado. Cantaram, sentaram no meio da madrugada da cidade. Relembraram, planejaram, enterraram. Tiveram chance e até intenção de ir além, por instantes imaginaram soltar-se e deixar os instintos e os impulsos agirem, e quem sabe, um leve toque de lábios, uma leve mudança de hábitos, de quem-sabe-o-quê, porque isso é normal, sentiam que era, mas sempre existe alguma coisa, alguma voz lá no fundo que insiste em lembrar que consequências não desistem, e que nenhum dos dois estavam dispostos a arcar. Não havia medo, receio, teor algum de desconforto diante da presença um do outro. Havia só a chuva, o tempo correndo numa outra dimensão, não contabilizada pelos relógios de pulso, um tempo que contava um sentimento nutrido por anos em algumas horas na madrugada chuvosa daquele final de ano, inseguro e confuso. Não sabiam, não pensava, apenas sentiam. Cheguei em casa com cabelos, corpo e alma lavadas, o guarda-chuva que carreguei a noite inteira, continuava fechado e agora divertia a lembrança da madrugada mais livre, simples, e justamente por isso, mais incrível do meu ano.

Ah, cara, não me segura não.. A estrada me chama, o sol me chama, o som disso tudo me instiga. Óculos escuros e o vento bagunça meu cabelo, o sol deixa a pela morena e no som algo que não me deixe pensar, eu só quero cantar.. No ar uma atmosfera de entrega, uma vontade insana de…
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Ah, cara, não me segura não.. A estrada me chama, o sol me chama, o som disso tudo me instiga. Óculos escuros e o vento bagunça meu cabelo, o sol deixa a pela morena e no som algo que não me deixe pensar, eu só quero cantar.. No ar uma atmosfera de entrega, uma vontade insana de viver, de ver, cara, me entende? Eu não preciso de um destino, na verdade, eu não tenho um, não quero rotas, guarde os mapas, eu quero me perder no meio de uma louca tempestade. Eu quero ver toda essa gente. Todas as cores, todos os tons, os sons, amores. Eu quero sentir todos os ventos e mergulhar em todos os mares. Chega de relógios, tic tac, hora marcada. Não! Tem muito mundo no mundo e eu não quero ficar aqui. Me disseram que a vida tem compromissos demais pra se deixar viver, mas eu não aceito, não na minha.. Chame do que quiser, a minha alma nasceu pra essa liberdade, meu corpo pede intensidade. E eu não preciso de mais nada se você disser que vem comigo.. Vem, vem ser uma aventura eu e você. Eu quero percorrer os quatro, os cinco, todos os cantos do mundo com o teu sorriso do meu lado.. Eu quero rir de tudo, quero sentir tudo, quero falar tudo, ouvir tudo, quero esgotar a minha necessidade de mundo.. e de você.