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Frase de Ana Carolina Paulo

Capítulo — 14 de Outubro, 4h20 Era dia 14 de outubro. 04h20 da manhã. O portão ecoou com um grito. — Carolina! Reconheci a voz do meu primo. Não éramos próximos. Ele não apareceria ali, naquela hora, por qualquer motivo comum. Antes mesmo de levantar da cama, pensei: alguém morreu. Meu marido foi atender. Eu fiz o que sempre faço quando o nervosismo me invade: corri para o banheiro. Era como se o azulejo frio e a porta fechada pudessem me proteger do que quer que estivesse por vir. Quando saí, ele já havia voltado. — Sua mãe está em Saquarema, na casa da irmã. Passou mal. Está no hospital. Meus dois filhos dormiam. A casa estava em silêncio, mas dentro de mim algo já gritava. — Cuida das crianças. Eu vou pra lá ver minha mãe. Comecei a arrumar uma mala às pressas. Ele tentou me convencer a não ir. — Não precisa. Sua irmã disse que, quando você chegar, provavelmente ela já vai estar de alta. O telefone dele tocou. Era minha irmã. Estranhei. Por que ela ligaria para ele e não para mim? Ele desligou e repetiu a mesma história: que eu não precisava ir, que não era grave. Continuei arrumando minhas coisas. Então ele disse: — Procura um documento da sua mãe. Ela foi para Saquarema sem identidade. Parei. Minha mãe nunca sairia sem documentos. Nunca. Peguei o telefone e liguei para minha irmã. Assim que ela atendeu, fui direta: — O que aconteceu com a minha mãe? Do outro lado, silêncio. Depois: — Teu marido não te deu o recado? — Ele disse que ela estava internada. Então ouvi o som que nenhuma filha deveria ouvir: o choro quebrado de uma irmã tentando ser forte. — Carolina… nós perdemos a nossa mãe. Eu sabia o que aquelas palavras significavam. Mas meu cérebro se recusava a aceitar. — O quê? — repeti. — Nós perdemos a nossa mãe. Ela repetia. Eu repetia. Até que ele tirou o telefone da minha mão. Fiquei sentada na beira da cama por uns dez minutos. Ou talvez uma vida inteira. Eu me senti como uma criança de três anos perdida numa feira, olhando ao redor e não encontrando a mão que sempre segurou a sua. Senti um vazio brutal. Uma dor física no peito. Um rasgo. Respirei fundo. Como vou contar para os meus filhos? Fiz café. Esquentei o leite. Preparei pão com queijo e ovos. A rotina parecia cruelmente normal. A cozinha tinha cheiro de manhã comum, mas nada mais era comum. Acordei as crianças. Tomamos café. Ao final, disse: — Filhos, a mamãe tem uma notícia muito triste. Eles se sentaram no sofá. Eu fiquei de frente para eles. — A vovó estava passeando em Saquarema. Ela passou mal, foi levada para o hospital… mas infelizmente não resistiu. Eles se abraçaram e choraram. Havia tristeza, mas também uma serenidade que me surpreendeu. Talvez porque o amor que ela plantou neles fosse maior que o medo da morte. Meu marido ficou com as crianças. Eu precisava fazer o que ninguém queria fazer. Dar a notícia ao meu pai. Entrei na casa que, a partir daquele momento, deixava de ser “a casa dos meus pais” para se tornar apenas a casa do meu pai. Eu tinha a chave. Ele não estava lá. Comecei a procurar a certidão de casamento — necessária para emitir a certidão de óbito. Enquanto isso, ligava para tios, tias, amigas, primos. Minha mãe era amada. Muito amada. Quando meu pai chegou e me viu ali, tão cedo, estranhou. — Quem morreu? — perguntou, direto. Respirei. — Minha mãe. Sua mulher. Ele sentou. Expliquei como soube: que ela passou mal na casa da irmã, foi levada à UPA, depois transferida para o hospital de Bacaxá. Que, no caminho, teve um infarto dentro da ambulância. Que tentaram reanimá-la. Que não conseguiram. Ficamos sentados na varanda esperando minha irmã chegar. Quando o corpo chegou, já era fim de tarde. Foi levado direto para a capela, no mesmo local do sepultamento. Meu filho ficou em casa com uma prima. Minha filha foi comigo. Meu marido também foi, mas ficou distante. Não me amparou. E, naquele momento, eu não tinha espaço para analisar ausências. Eu só queria me despedir. Minha filha e eu entramos juntas na capela. No caminho, ela foi abraçar parentes. Eu tracei uma linha reta até o caixão. Lá estava ela. Inerte. Coberta de flores brancas. O rosto pálido, mas sereno. Vestia uma camisa de Nossa Senhora de Fátima, sua devoção maior. Eu me plantei ao lado dela como uma guarda. E não saí mais. Aquela era a última vez que eu estaria ao lado da mulher que me deu a vida e nunca poupou esforços para que eu vivesse bem. O choro começou contido, mas a certeza de que nunca mais teríamos nosso café da tarde juntas me atravessou como lâmina. Deram-me quatro tranquilizantes. Nenhum fez efeito. Nada me tiraria dali. Quando avisaram que era hora de fechar o caixão, pediram que todos saíssem. Eu disse: — Eu não saio. Pode fechar na minha frente. E assim foi. Seguimos em procissão até o jazigo. Houve oração. Falaram de Nossa Senhora, como ela gostaria. O caixão desceu. Aquele era o fim. As pessoas começaram a ir embora. Mas meus pés não se moviam. Era o último dia. A última imagem. O último adeus físico. Minha filha, minha irmã e minha prima ficaram comigo. — Ficamos aqui o tempo que você precisar — disseram. As horas passaram. Até que minha prima falou, com doçura: — Vamos? Já está na hora. Sua filha está cansada. Seu filho te espera. Olhei para o jazigo e, dentro de mim, falei: — Mãe, eu ficaria aqui por dias. Mas a vida continua. E eu sei que você ama seus netos. Vou cuidar deles o dobro do que já cuidava. Respirei fundo. E fui embora. Sabendo que, naquele 14 de outubro, às 4h20 da manhã, eu deixei de ser filha no mundo — mas passei a carregar minha mãe inteira dentro de mim.

Ana Carolina Paulo

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Outras frases de Ana Carolina Paulo

Quando entrei para a escola de normalistas, tive a nítida sensação de atravessar um portal. Era como se, ao vestir aquele uniforme, eu deixasse para trás a menina de antes e desse os primeiros passos em um mundo totalmente novo. Blusa branca social, broche delicado preso à pontin…
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Quando entrei para a escola de normalistas, tive a nítida sensação de atravessar um portal. Era como se, ao vestir aquele uniforme, eu deixasse para trás a menina de antes e desse os primeiros passos em um mundo totalmente novo. Blusa branca social, broche delicado preso à pontinha da gola, saia de pregas na altura exata do joelho, meias brancas altas e sapatinho preto. Um conjunto que me fazia parecer uma boneca cuidadosamente colocada na prateleira dos sonhos. Acordei cedo, muito antes do despertador tocar. Arrumei-me com um zelo quase cerimonial, como quem sabe que está prestes a viver algo importante. Saí de casa brilhando feito um centavo novo, com o coração acelerado e a alma cheia de expectativas. No ônibus, os olhares vieram antes mesmo de eu me sentar. Muitos, principalmente masculinos. Naquele dia eu não entendia completamente, mas hoje sei o quanto o imaginário dos homens é fértil quando se trata das normalistas. Eu seguia meu caminho, tentando parecer segura, embora por dentro a timidez ainda falasse mais alto. Ao chegar à escola, fui engolida por uma multidão de meninas iguais a mim: mesmos uniformes, mesmos sorrisos contidos, a mesma mistura de medo e encantamento nos olhos. Éramos muitas, todas com a sensação de estar começando algo que mudaria nossas histórias. A diretora surgiu imponente no patamar da escada principal. Sua voz ecoou firme ao anunciar as boas-vindas, enquanto apontava para um grande quadro onde estavam escritos nossos nomes e as turmas às quais seríamos designadas. Permaneci um pouco afastada, deixando que as outras passassem à minha frente. A timidez me fazia preferir observar de longe. Quando o pátio já estava quase vazio, aproximei-me do quadro com cuidado. Meus olhos percorreram as listas até encontrarem: turma 1111, segundo andar. Respirei fundo e subi as escadas, cada degrau carregado de ansiedade. Ao entrar na sala, fui surpreendida por dois rostos conhecidos: Letícia e Rita, amigas da minha antiga escola. A alegria foi imediata, quase uma festa silenciosa no meio de mais de seiscentas pessoas desconhecidas. Ter dois portos seguros naquele mar novo fez tudo parecer mais possível. A aula inaugural aconteceu no auditório magnífico da instituição. Professores novos, colegas novos, histórias que ainda seriam escritas. Tudo era novidade para aquele centavinho recém-polido, ainda aprendendo a brilhar sem medo. Na volta para casa, eu e minhas amigas antigas pegamos o mesmo ônibus. Uma descia em um ponto, outra mais adiante, até que restasse apenas eu. Mas todas descíamos com o mesmo sorriso largo, de orelha a orelha, carregando o dia inteiro no peito. Minha mãe me esperava na varanda. O rosto dela refletia orgulho, satisfação e uma alegria quase silenciosa. Quis saber tudo: como tinha sido, o que eu sentira, o que eu vira. Tomei um banho, como se lavasse o cansaço e guardasse apenas a emoção, e passamos a tarde conversando. Falamos do dia que havia passado e dos muitos que ainda viriam. Eu estava, oficialmente, entrando em uma nova fase. Uma fase que minha mãe sonhara viver, mas que, pelos percalços da vida, não pôde alcançar. Ainda assim, através de mim, ela também seguia aquele caminho. E ali, naquele fim de tarde tranquilo, fiz uma promessa silenciosa: eu daria o meu melhor. Por mim. E por ela.

Os dias e os meses passavam depressa enquanto eu cursava a escola normal. Havia uma pressa no tempo, como se a rotina puxasse os ponteiros para frente sem pedir licença. Quando percebi, já era época de provas finais — e que provas! Pareciam ter sido sopradas diretamente da cabeça…
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Os dias e os meses passavam depressa enquanto eu cursava a escola normal. Havia uma pressa no tempo, como se a rotina puxasse os ponteiros para frente sem pedir licença. Quando percebi, já era época de provas finais — e que provas! Pareciam ter sido sopradas diretamente da cabeça do capeta. Uma mais difícil que a outra, exigindo não só conhecimento, mas nervos firmes e fé. No último dia de prova, acordei mal. O corpo pesado, o estômago embrulhado, a cabeça latejando. Tudo em mim pedia cama, silêncio e descanso. Mas era o último dia. Faltar significava recuperação, e eu não queria, não podia. Levantei-me como quem se arrasta contra a própria vontade, vesti-me no automático e fui. Naquele dia fiz três provas. Cada questão parecia sugar o pouco de energia que ainda me restava. Quando eu já enfrentava a última, tentando manter a letra firme no papel, a inspetora apareceu à porta da sala. Chamou a professora e as duas começaram a conversar em voz baixa, num cochicho que gelava o ambiente. De repente, da porta, ela ergueu a voz: — Ana, falta muito para você terminar a sua prova? Olhei para ela como quem encara um inquisidor. A sala inteira parecia prender a respiração comigo. Com a voz trêmula, respondi: — Não, senhora… faltam três questões. Ela assentiu, ainda da porta: — Pois bem. Quando acabar, vá até a minha sala e leve suas coisas. Um silêncio pesado caiu sobre a turma. Todos me olhavam com olhos de compaixão. Nós sabíamos — quando alguém era chamado daquele jeito, algo sério havia acontecido. Terminei as três questões com cautela, respirando fundo, lutando contra o enjoo e o aperto no peito. Entreguei a prova, recolhi meu material e segui até a sala dela, exatamente como havia sido orientada. Bati à porta. Ela nem esperou que eu falasse. — Ana, pode ir embora. Aconteceu algo na sua família. Como hoje é o último dia de prova, fique tranquila. Eu mesma ligo para avisar sobre o resultado. Minhas pernas viraram bombas. Um zunido tomou conta da cabeça. O que tinha acontecido? Saí da escola sem sentir o chão. O ônibus demorou mais do que o habitual, e o motorista dirigia tão devagar que tive a impressão de que, se fosse correndo, chegaria antes. Na minha mente, só vinham pensamentos ruins. Ninguém nunca tinha ligado para a escola pedindo para eu ir embora. Quando cheguei em casa, o portão estava aberto. Minhas tias estavam lá, meus primos também. Choravam. Choravam muito. Meu tio falava ao telefone, mencionando algo sobre uma van. A casa, que sempre fora abrigo, estava tomada por uma dor densa. Minha mãe veio da cozinha, caminhou até mim e disse, com a voz quebrada, a notícia que eu não queria ouvir: — O vovô Jorge faleceu. Na mesma hora, um filme começou a passar na minha cabeça. Lembrei-me do avô maravilhoso que ele era. Aquele avô garotão, pra frente, que ria alto, contava histórias e bebia uma cervejinha com os netos como se fosse um deles. A minha memória fez uma retrospectiva apressada dos nossos melhores momentos, e eu me recusei a aceitar que ele tinha ido, que nunca mais nos veríamos. Meu Jorge. Meu Jorge Amado. Ele tinha partido — e, com ele, uma parte inteira da minha infância também se despedia.

É incrível como a vida pode me levar a momentos de reflexão profunda. Muitas vezes, eu me perco na rotina e esqueço de viver de verdade. O dia a dia se torna um ciclo automático, onde estou apenas cumprindo obrigações e esquecendo o que realmente importa. Eu percebo que algumas…
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É incrível como a vida pode me levar a momentos de reflexão profunda. Muitas vezes, eu me perco na rotina e esqueço de viver de verdade. O dia a dia se torna um ciclo automático, onde estou apenas cumprindo obrigações e esquecendo o que realmente importa. Eu percebo que algumas coisas não valem a pena e que é essencial questionar o que me traz felicidade e o que me mantém presa a situações que não me satisfazem. O medo do novo e do diferente pode ser paralisante, mas é na mudança que, muitas vezes, encontro novas oportunidades e caminhos para a felicidade. Já passei por muitas mudanças e, sinceramente, gostaria de um pouco de estabilidade. Isso é compreensível; a mudança constante pode ser desgastante. No entanto, sei que é importante buscar um equilíbrio. Melhorar a minha forma de viver pode significar pequenas mudanças que trazem significados maiores, como dedicar um tempo para mim, cultivar hobbies ou até mesmo conversar com pessoas que oferecem novas perspectivas. Conversar com alguém de fora é uma forma poderosa de abrir os olhos. Às vezes, uma visão externa me ajuda a ver as coisas de maneira diferente e a encontrar soluções que não consigo perceber sozinha. A vida é preciosa, e cada momento conta. Sinto que é um convite para eu redescobrir o que me faz feliz e buscar isso ativamente. Espero encontrar um caminho que traga mais alegria e significado para a minha vida, além das obrigações diárias. E sempre que precisar de um espaço para desabafar ou refletir, sei que posso contar com apoio!

Te quero, porque quando estou contigo, A conversa rola sem nenhum esforço, As palavras dançam, leves no ar,
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Te quero, porque quando estou contigo, A conversa rola sem nenhum esforço, As palavras dançam, leves no ar, E o tempo parece parar, só pra nos observar. Te quero, porque juntos, A gente sorri solto, Rindo das pequenas coisas, De momentos que são só nossos, Como notas de uma canção que nunca se apaga. Te quero, porque tudo o que você quer, Eu quero também, Nossos sonhos se entrelaçam, Como as estrelas no céu, Brilhando em harmonia, Atraídos por um mesmo destino. Te quero, porque nossas ideias são iguais, Como se tivéssemos lido a mesma página, Entendendo o mundo com o mesmo olhar, E criando histórias que só nós podemos contar. Te quero, porque seu gosto de rock é igual ao meu, As melodias se misturam, E cada acorde nos leva a dançar, Em um festival de sentimentos, Onde só nós dois sabemos a letra. Te quero, porque você gosta de acampar, E eu quero sempre ficar sozinha com você, Sob as estrelas, compartilhando segredos, Um dia ainda teremos Nosso refúgio no meio da natureza, Um lar que levamos dentro de nós. Te quero, porque quando você me quis, Não mediu esforços para me ter, Foi simples e verdadeiro, Como um abraço que acalma a alma, E transforma o cotidiano em algo especial. Te quero, porque te quero, Simplesmente te quero, E você sempre me faz te querer, Com seu jeito único de ser, Obrigada por existir, Por ser a razão do meu querer.