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Frase de Nivea Almeida

COMIDA FRIA Lá em casa, habitualmente, não cozinhamos aos sábados. Saí para buscar o almoço com a nossa fornecedora atual, Dona Maria, que nos últimos anos abriu o portão de sua casa e começou a entregar aos finais de semana uma deliciosa feijoada, nas versões tradicional e “light”. Sorridente, falante e cortês, Dona Maria atende a todos com o seu gorro e avental branquinhos, e faz questão de dizer que tudo ali é feito com qualidade, asseio e carinho. Motivada pelo pedido de alguns clientes, estruturou a sua garagem e agora mantém meia dúzia de mesas plásticas, forradas com um tecido rendado, quatro cadeiras em cada e um freezer cheio de cervejas e refrigerantes para que os clientes possam se deliciar com a iguaria ali mesmo, caso prefiram. Estacionei o meu carro numa rua perpendicular. Peguei a minha filha pela mão, tranquei e acionei o alarme e fui me aproximando da casa de Dona Maria. Do lado do seu portão principal, estava estacionado um carro muito bonito, com cabine dupla, cor prata e recém lavado, denotando o capricho do dono. Em um piscar de olhos, vi um rapaz de boné baixo (acho que para esconder parte do rosto) ao lado do carro, na porta do passageiro. Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, o rapaz retirou a camiseta branca, enrolou em algo (que depois fui descobrir que era uma pedra bem grande) e bateu com toda a força dos seus braços finos no vidro da porta do passageiro, fazendo cacos de vidro voarem para toda lado. Mais rápido que o The Flash, meteu a mão dentro do veículo violado, retirou algo e saiu correndo. O “algo” era uma bolsa feminina, da cor vermelho escuro. O alarme do carro bonito começou a gritar alto, chamando a atenção do dono que estava no interior da casa de Dona Maria, aguardando o almoço. O senhor careca, proprietário do veículo, também demorou alguns segundos para entender o que havia acontecido. Já com as mãos na cabeça em desespero, ouviu o meu grito abafado. Eu apontava e sacudia a mão desocupada na direção onde o rapaz decidiu correr… Mas foi em vão. A nossa capacidade cerebral de entender a cena, agir, gritar, fazer qualquer coisa útil foi infinitamente mais vagarosa do que as pernas compridas do rapaz tomando a direção já calculada. Na sequência, uma pequena senhora de cabelos alaranjados também apareceu e descobri que era a dona da bolsa roubada, esposa do calvo senhor. A mesma, chorosa e assustada, afirmava repetidamente que não havia dinheiro ou nada que um meliante pudesse aproveitar lá dentro, somente seus documentos, cartões, maquiagens, remédios e pertences pessoais. Tentando concluir a minha missão ali, apesar do susto e da injeção de adrenalina, entrei na casa de Dona Maria (que nessa hora voltava da rua após procurar ajuda policial com o casal) e meu coração estremeceu diante da cena que vi. Em uma das mesas com forro rendado colocadas à disposição dos clientes, duas porções completas e caprichadas (e ainda nem tocadas) da deliciosa feijoada da Dona Maria. Aquele momento íntimo e sagrado da dupla havia sido interrompido pelo grito do alarme, e acredito que os dois, naquela mistura de emoções e sobressalto, haviam perdido o apetite. Nessa hora, minha filha, sacudindo levemente o meu braço, pediu explicações: – Mamãe, aquele era um ladrão? – Sim, meu amor, era. – Por que ele quebrou o vidro do carro do moço? – Para pegar dinheiro, meu bem. Ele não tem trabalho e não tem dinheiro para comer. Por isso faz isso com as pessoas – Expliquei de um jeito que ela pudesse entender, sem entrar em detalhes sobre o que eu realmente pensava a respeito do destino do dinheiro (não) roubado. E ela continuou: – Uai mãezinha, mas se ele estava com fome não era mais fácil ele pedir um prato de feijoada para Dona Maria? Ela é tão carinhosa e boazinha e faz um montão bem grande de comida… Dizendo isso, ela pegou a sua bolsinha rosa e começou a retirar suas moedas: – Mamãe, essas moedas aqui pagam uma feijoada? Sem entender, respondi: – Não meu amor, não é suficiente. Mas para quê você quer comprar outra porção? Uma só dá pra gente, mamãe já pediu e pagou. – Eu quero comprar comida para dar para aquele rapaz. Vamos encontrá-lo. Daí ninguém fica triste. A senhorinha do cabelo engraçado não precisa chorar por causa da bolsa dela, nem o moço careca precisa ficar triste com o carro quebrado. E o rapaz não precisará mais fazer coisas ruins com outras pessoas. Ajoelhei, abracei a minha filhinha, beijei a testinha inocente dela e nada mais consegui dizer. Peguei a embalagem térmica com uma porção da deliciosa iguaria, busquei para mim a mãozinha miúda e fomos caminhando devagar, atravessando a rua, em silêncio. Antes de sair dali ainda pude observar novamente a mesa posta para o casal. Corações aflitos e comida fria.

Nivea Almeida

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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REUNIÃO POLÊMICA - Não peça ajuda! - Respondeu o Orgulho. - Isso só te deixará mais cansado! - Afirmou a Preguiça. - Deixe para amanhã! - Disse a Procrastinação. - É impossível! - Replicou a Incredulidade. - É muito arriscado! - Falou a Dúvida. - É absolutamente inútil! - Respondeu a Razão. - Não compartilhe isso! - Afirmou o Egoísmo. - O outro sempre conseguirá primeiro! - Disse a Derrota. - O do outro sempre será melhor! - Replicou a Inveja. - Fique onde está, não adianta! - Falou o Desânimo. - Você não é capaz! - Respondeu a Baixa Autoestima. - Não faça nada a respeito! - Afirmou a Estagnação. - Isso só te deixará doente! - Disse a Autopiedade. - Não perca o seu tempo com isso! - Replicou o Imediatismo. - Você só pode ser louco! - Falou a Sanidade. - Nem procure saber! - Respondeu a Ignorância. - Você perderá tudo o que lhe resta! - Afirmou o Medo. - FAÇA! SÓ DEPENDE DE VOCÊ! - Reagiu a Força de Vontade.

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IRONIA CRIATIVA Hoje a Paulinha amanheceu “louca varrida” e implorou para eu falar dela aqui. Paulinha é o nome de batismo para uma voz que fala com certa freqüência no meu ouvido direito, desde a minha infância. Ela é extremamente inconveniente. A sua voz esganiçada aparece como se estivesse lendo um texto escrito, chego a perceber as pausas das vírgulas e as ênfases nas partes mais importantes. A dita cuja não existe, mas, do nada, começa a “ler os textos” enquanto eu estou no chuveiro, dirigindo, tentando dormir, assistindo alguma série... No meio de reuniões importantes do trabalho ou quando, na sala de aula, dou um tempo para os alunos fazerem alguma atividade. Na verdade, a maluca lê textos AINDA NÃO ESCRITOS, e aí está a questão. ELA LÊ PARA QUE EU ESCREVA! O meu processo criativo é assim descrito. A Paulinha tem um apetite fora do comum e gosto bem peculiar. Vive faminta! A mocinha é alimentada por cores de flores, cheiro de chão molhado pela chuva, pelo abrir dos olhos depois de um saboroso beijo de amor... Pelo sorriso da minha filha, por um momento de chateação, um longo gole de um bom vinho, uma nova paisagem durante uma viagem, pelo gosto forte de um café, pela minha TPM... E por tudo o que gere alguma forte emoção. Mesmo bem alimentada, a moleca às vezes some por dias, semanas... E ela é bem desobediente, nunca vem quando eu preciso ou chamo (ou quando estou participando de algum concurso de contos ou tenho algum texto encomendado, por exemplo). Minha memória é terrível, fato, então para transcrever o que ela dita, tenho sempre à mão o gravador do celular, um papel para anotação, um bloco de notas... Já documentei as leituras dela em guardanapos no meio de uma DR ou já interrompi conversas importantes para registrá-las, pois a garota já tinha “me feito o favor” de me desconectar dali, depois de tanta tagarelice. Posso recordar que, na adolescência, eu escrevia ditados da monstra usando batom em espelhos de banheiros alheios, e poemas inteiros nas camisas dos colegas, em final de período letivo. Essa fantasma surge frequentemente no meio da madrugada, entre um pestanejo e outro (a diaba é, sem sombra de dúvidas, um dos grandes motivos das minhas noites de insônia). O problema é que, escrava dessas leituras da garota, se eu não anotar... A “coisa toda” some em um piscar de olhos, evaporando no ar... Para nunca mais. São leituras textuais individuais, únicas, exclusivas e que não permitem replay. Será um dom? Um cárcere? Um delírio? Insanidade? Um mistério ou feitiço? Acho que se resume na verdade em uma grande ironia criativa. Obs.: A Paulinha nesse momento está aqui se revirando em gargalhadas. Ela já estava cansada de só observar eu levando o mérito e recebendo elogios, sendo que a grande artista na verdade é ela.

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DEIXE-A CAIR! – Mamãe, você está chorando? Mesmo disfarçando ela percebeu. De mãos dadas na porta de saída do restaurante, observávamos a chuva que havia iniciado e nos impedia de seguir. – Sim, meu amor, mamãe está ficando velha e boba e se emocionou com a chuva. – Reparei então, pelo seu semblante, que não havia entendido bem a minha resposta. Continuei: – Chuva é riqueza para nosso povo tão pobre de água. – Mamãe, mas estamos sem guarda chuva. Como chegaremos até o carro? Está bem forte. – Alertou a minha pequena, sempre tão prática e racional, e naquele momento também preocupada com o horário do prometido cinema. – Não se preocupe, filhinha. Para a chuva, temos todo o tempo do mundo. Deixe-a cair! O Sertão está com tanta sede… E vê-la assim, tão densa, é bem melhor do que qualquer filme, tenha certeza. Nesse momento, ajoelhei para ficar da sua altura. Eu poderia ter só me abaixado, é verdade, mas era de joelhos que todo o meu Ser queria estar naquela hora. Na perspectiva visual da minha menina, pude observar ao longe um grupo de jovens em algazarra tomando banho na chuvarada, gritando, cantando, dançando e pulando poças. Nos edifícios, várias pessoas debruçadas nas janelas, sorrindo e observando a água cair. Os carros passando, vagarosamente, vidros entreabertos e os “caronas” com as mãos para fora (pelo jeito buscando sentir as grossas gotas ao encontro da própria pele). Um senhor que passava ali portava um guarda chuva fechado (e não parecia ter a intenção de abri-lo), e o vi pedir muito sorridente um “saquinho plástico” ao garçom do restaurante que estávamos, decerto para proteger o celular enquanto enfrentasse o aguaceiro. Cada um demonstrando a sua emoção de um jeito diferente. Continuamos ali paradas por mais alguns minutos, abraçadas, nos deliciando com o cheiro, o som e a visão daquele precioso evento, que alegrou sobremaneira o nosso domingo.

COMERCIAL DE MARGARINA COLETIVO . Em uma quarta feira qualquer
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COMERCIAL DE MARGARINA COLETIVO . Em uma quarta feira qualquer Juntei palavras em um texto que mudaria a vida Colei madrugadeira pelos muros da cidade. . Amanheceu. Quem leu, boquiabriu A lavadeira deixou a trouxa cair O ciclista por pouco não trombou no poste A correria foi tanta Que ventou nas saias das meninas O semáforo piscando feito luz de Natal O rasante do pássaro assustou o guri Que caiu para trás com o peso da mochila O caderno se abriu E folhas escritas bateram asas naquela direção... Nuvens escuras foram se despedindo O sol morninho arrancou suspiros e agasalhos (Os ousados despiram também outras partes) Moças desprenderam cabelos, retocaram batom O casal tímido resolveu se abraçar A senhorinha girando a bengala no ar Uma música começou a tocar... Aaah! . E em uma quarta feira qualquer (Se contar ninguém acredita) O tempo parou, o povo dançou E por um minuto eterno a tristeza se foi Em fileiras sincronizadas Mãos levantadas, corpos embalados No compasso da música Uma chuva multicolorida caiu do céu Cada gota pintava o cenário Um sabor diferente em cada cor... Línguas de fora, braços em ondas Toda dor subindo, girando em espiral Desconhecidos se abraçaram Pretos, brancos, ricos ou pobres Motoristas estacionando os carros A vaidade, os falsos pudores, a vergonha Arrastados pela enxurrada multicor Sorrisos escancarados, mãos dadas Ritmo que todo mundo sabia de cor . E em uma quarta feira qualquer (E pela primeira vez na história) Um comercial de margarina coletivo O ódio, o rancor, a inveja, a desumanidade Feito lagartixas cascudas subindo os muros Explodiram como pipoca em óleo quente Desabrochando flores perfumadas Confortando o coração de toda a gente...