Frase de Rogéria Cardeal Hta
Retalhos de cor em pó Negrinha... do pé da ladeira Cresceu pela vida sem eira nem beira Aprendeu que sua é pele não é brincadeira De saia rodada, pés descalços, deu pulos e saltos correndo no asfalto Seus sonhos dourados trocados aos farrapos Princesas das ruas, escolas nos saltos, com príncipe aos lados, mostravam os fatos Por ter nascido sem cor, sem brilho e aos fados Teria a sombra, não pra proteção mas como esconderijo de indignação Negrinha sem livros, histórias infantis, nunca foi princesa, sem escolhas seguiu Seguiu na certeza de que nunca a dariam lugar de rainha Cresceu pela rua, já dormiu na rua e sentiu que, na sua, ganhava mais justas saudações de estrela, nuvens e lua Que em sua ternura falava aos rostos, que em sua ingênua e doce leitura, via neles amigos e um amor que cura Negrinha, negrinha... o que ela ouvia, estica os cabelos e ganha nas ruas Quem sabe os olhares, troféu quase, sinta o gostinho da mão de alguém Negrinha, negrinha, sem eira nem beira, guarda o coração e esconde essa beiça Beiça de mula, cor de burro fujão Teu lugar é na sombra e não na multidão Momentos pequenos de migalhas que sobram, sentiu o sabor do que as outras provam Negrinha dentuça das pernas finas, escreve teus sonhos no papel e na tinta Encontres no palco na arte em vida O prazer ilusório do brincar de rica, Sereia bonita, princesa e rainha, de contos de fada que nunca te abriga Teimosa negrinha, relincha entre os dentes, brigando espaços em fios invisíveis Esperança falida, certezas que brotas apenas dos sonhos que não casam as portas fechadas de sortes que foge à galopes que de tanto ligeiro nem mota se trota De rua ternura manchada de morte Teu corpo pequeno magrelo sem sorte sentiu o amargo do gosto da morte Cresceu na esperança peitinho floriu, roubaram-lhe a sorte o que te feriu Jogada aos tapetes asfaltos mil, o que foi mais duro não foi o chão que dormiu Negrinha se olha e não mais se nota Pergunta qual nota se dança tão torta A música que canta a harmonia fugiu pois não tem espaço, seus retalhos mil Negrinha negrinha teimosa demais Cansada da vida já não pode mais Rodeada de todos e vivendo só na vida amizade só encontra o pó Negrinha se encanta, por ti se apaixona, se encontra na sombra a cura em somas de estender a mão aos que como a ti também são... Negrinha negrinha que então descobriu, que os não que recebes nunca te serviu Um não não te acode teu corpo sangrando sua sorte fugiu Cor de burro fugido o que sempre ouviu quem é que te acode quem foi que te ouviu? Que espaço pertences teu povo fugiu na falta de sorte alguém te seguiu Aquele ombro amigo que nunca foi teu, palavras tão duras nunca se escondeu Negrinha se avexe, se feche seu corpo e sorriso ninguém vê que preste...
No pensador.ai desde