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Frase de Paulo H Salah Ad din

*ANTES QUE ALGUÉM ENTRE* Entrei no bar porque ainda era cedo demais para voltar para casa e tarde demais para fingir que tinha alguma coisa importante para fazer. O garçom me reconheceu. Depois de certa idade, ser reconhecido num bar não é exatamente uma conquista. Significa apenas que você esteve ali vezes demais. Sentei no canto de sempre. Pedi bourbon. O primeiro gole resolveu algumas questões que eu não tinha intenção de discutir naquela noite. Peguei o celular. Não sei por quê. Talvez por hábito. Talvez por tédio. Talvez porque, depois de certa idade, qualquer tela iluminada pareça uma promessa de companhia. Havia aplicativos abertos. Alguns deles eu nem lembrava por que tinha instalado. Não eram necessariamente aplicativos de namoro. Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo. Curiosidade também é uma palavra bastante útil. Passei o dedo pela tela. Rostos. Mulheres novas, balzaquianas, maduras. Pessoas sorrindo diante de praias, restaurantes, cachorros, academias e lugares onde provavelmente nunca tinham estado tão felizes quanto pareciam estar na fotografia. Algumas apresentavam a si mesmas como se estivessem concorrendo a uma vaga. Outras apresentavam uma lista. Não fumante. Não bebe. Não aceita determinada posição política. Não quer alguém com filhos. Não quer alguém sem filhos. Altura mínima. Renda mínima. Distância máxima. Personalidade compatível. Signo compatível. Vida resolvida. Passado aceitável. Pouco passado, de preferência. Comecei a achar aquilo curioso. Não exatamente engraçado. Curioso. As pessoas pareciam estar procurando alguém depois de verificar cuidadosamente se ninguém entraria. Era uma espécie de alfândega sentimental. Documentos em ordem. Bagagem declarada. Nenhuma mercadoria proibida. Continuei olhando. A lista era maior que algumas biografias. E talvez fosse justamente esse o problema. Ninguém mais precisava conhecer alguém. Bastava verificar se a pessoa atendia aos requisitos. Como se estivesse comprando um carro usado. Quilometragem emocional. Opcionais. Defeitos ocultos. Manual de instruções. Garantia. Pedi outro bourbon. O garçom deixou o copo diante de mim. Fiquei olhando o líquido por alguns segundos. O bourbon tem essa qualidade. Não resolve nada. Mas melhora a aparência dos problemas. Voltei ao celular. A tecnologia prometeu aproximar as pessoas. Entregou um catálogo. Milhões de rostos ao alcance do dedo e uma quantidade cada vez maior de razões para não tocar em nenhum deles. Passei para outro perfil. Não gostei da fotografia. Passei. Outro. Não gostei da descrição. Passei. Outro. Alguma coisa me incomodou. Passei. Parei. Voltei. Não sei por quê. Continuei. Foi aí que percebi que eu também estava fazendo aquilo. Essa foi a parte desagradável. É fácil observar a estupidez dos outros quando você não precisa olhar para as próprias mãos. Eu também tinha critérios. Só não os chamava de critérios. Chamava de experiência. Depois de certa idade, a gente aprende a dar nomes respeitáveis às próprias defesas. Não quero drama. Pode significar: já fui ferido. Não quero alguém complicado. Pode significar: não tenho mais paciência para descobrir outra pessoa. Quero alguém maduro. Pode significar: quero alguém que não me obrigue a mudar. Quero alguém resolvido. Essa era uma das melhores. Como se eu mesmo estivesse resolvido. Como se tivesse passado décadas acumulando erros apenas para chegar a algum ponto em que pudesse preencher um formulário dizendo: pronto. Agora estou funcionando corretamente. Bebi. Olhei para o bar. Duas pessoas conversavam numa mesa próxima. Não pareciam interessantes. Depois pensei que talvez eu não tivesse dado a elas tempo suficiente para serem. Esse pensamento me incomodou. Eu queria conhecer pessoas ou apenas encontrar versões antecipadas delas? Talvez fosse a segunda opção. Uma pessoa antecipada é muito mais confortável. Você sabe o que ela pensa. Sabe o que ela gosta. Sabe o que ela não tolera. Sabe o que procura. Sabe o que rejeita. Tudo antes de ela abrir a boca. Uma pessoa real é outra coisa. Chega atrasada. Tem mau humor. Fala demais. Fala pouco. Ri na hora errada. Tem uma opinião absurda. Muda de opinião. Fuma quando você odeia cigarro. Bebe quando você prometeu que não queria mais bêbados por perto. Vota no sujeito que você considera um idiota. Escuta a música que você não suporta. Tem cicatrizes que não aparecem na fotografia. E, às vezes, é gentil. Isso complica tudo. É fácil rejeitar uma categoria. Mais difícil rejeitar alguém que está sentado diante de você. Principalmente quando essa pessoa não corresponde àquilo que você imaginou. Fiquei olhando para o meu copo. Talvez fosse por isso que as listas existissem. Elas davam a sensação de controle. Se eu estabelecer critérios suficientes, pensei, posso impedir que alguém errado entre. O problema é que ninguém consegue estabelecer critérios suficientes. Sempre existe alguma coisa que ficou de fora. Um hábito. Uma lembrança. Uma maneira de falar. Uma família. Uma história anterior à sua. Alguma coisa que não estava na fotografia. E então você descobre que não estava escolhendo apenas quem poderia entrar. Estava tentando decidir antecipadamente o que teria permissão para acontecer depois que alguém entrasse. Essa parte eu não gostei. Porque já não era mais sobre os aplicativos. Era sobre mim. Passei anos aprendendo a viver sozinho. Isso tem vantagens. Você sabe onde estão as coisas. Sabe o que comprar. Sabe a hora em que prefere ficar quieto. Não precisa explicar por que chegou tarde. Não precisa negociar o volume da televisão. Não precisa perguntar se alguém se importa com a música. A casa vai adquirindo o formato de quem mora nela. E, depois de algum tempo, qualquer outra pessoa parece uma mudança de móveis. Talvez fosse exagero. Talvez não. Eu já tinha me acostumado demais com o meu próprio espaço. A ideia de alguém ocupando uma parte dele parecia boa enquanto permanecia abstrata. Quando se aproximava da realidade, começava a parecer trabalho. Voltei ao aplicativo. Outro rosto. Outro. Outro. O dedo continuava trabalhando. Era quase um reflexo. A cabeça justificava. O dedo decidia. E eu nem sabia exatamente o que estava procurando. Talvez nada. Talvez alguém. Talvez apenas a sensação de que ainda poderia encontrar alguém. Existe uma diferença. A esperança pode ser mantida durante anos quando não precisa enfrentar a realidade. A pessoa real, não. A pessoa real exige presença. E presença é uma coisa inconveniente. Ela não pode ser filtrada. Não pode ser editada. Não pode ser devolvida depois de sete dias. Uma pessoa real traz uma vida inteira que começou antes de você. Traz antigos amores. Família. Medos. Hábitos. Erros. Desejos. Contradições. Algumas coisas que você vai gostar. Outras que vai detestar. E algumas que, para seu azar, vão obrigá-lo a reconsiderar aquilo que você jurou nunca aceitar. Pode ser alguém que vota diferente. Pode fumar. Pode beber. Pode acreditar em alguma coisa que você considera absurda. Pode ter uma história que não combina com a sua. Pode rir de coisas que você não acha engraçadas. Pode ser exatamente o tipo de pessoa que você teria eliminado no segundo movimento do dedo. E ainda assim pode acontecer alguma coisa. Esse é o problema. Pode acontecer alguma coisa. O algoritmo prefere outra coisa. Prefere que você continue procurando. A próxima pode ser melhor. Mais bonita. Mais inteligente. Mais compatível. Mais interessante. Mais próxima. Mais perfeita. A próxima está sempre disponível. A esperança fica um perfil adiante. Mais um movimento. Mais uma noite. Mais um bourbon. Mais uma promessa silenciosa de que amanhã talvez seja diferente. Amanhã chega. A lista continua. Enquanto isso, as pessoas envelhecem. As rugas chegam sem pedir licença. Os bares fecham. Os amigos desaparecem. Alguns morrem. Os discos riscam. As fotografias ficam antigas. O bourbon acaba. E nós continuamos escolhendo. Eu também. Talvez essa fosse a parte que mais me incomodava. Eu podia rir das listas dos outros porque elas pareciam absurdas. Mas tinha uma lista minha. Talvez não estivesse escrita em lugar nenhum. Era pior assim. Estava na cabeça. Altura. Hábitos. Jeito de falar. Passado. Problemas. Opiniões. Tudo aquilo que eu dizia não querer. Tudo aquilo que eu achava que já tinha idade suficiente para não precisar suportar. Como se envelhecer desse ao homem algum direito especial de exigir uma vida sem inconvenientes. Não dá. Só dá mais experiência em reconhecer alguns deles. Terminei o bourbon. Fiquei olhando o copo vazio. Pensei que talvez o problema nunca tivesse sido encontrar alguém. Talvez fosse aceitar que alguém real sempre traria alguma coisa que eu não tinha pedido. Uma opinião. Uma lembrança. Um medo. Uma diferença. Um defeito. Uma necessidade. Uma história anterior à minha. Conhecer alguém significava entrar numa história que começou sem você. Não havia como editar os capítulos anteriores. Não havia como selecionar apenas as partes convenientes. Não havia botão para remover aquilo que incomodasse. Uma pessoa real não vinha com manual. Nem certificado de compatibilidade. Nem garantia contra abandono. Era justamente isso que tornava tudo tão difícil. Pedi a conta. O garçom trouxe. Guardei o celular no bolso. Não porque tivesse aprendido alguma grande lição. Não aprendi. Apenas fiquei cansado de transformar desconhecidos em candidatos. E depois reclamar que ninguém me conhecia. O bar estava quase vazio. Fiquei sentado mais alguns segundos. Pensei nas pessoas que eu tinha descartado naquela tela. Depois pensei nas que talvez tivessem me descartado. A ideia não era agradável. Talvez algumas tivessem razão. Talvez outras não. Nunca saberia. Essa é uma das coisas que a gente perde quando decide cedo demais. A possibilidade de descobrir. Levantei. Saí do bar. O celular continuava no bolso. Não o abri. Não porque tivesse desistido de encontrar alguém. Nem porque tivesse finalmente compreendido o amor. Não tinha compreendido nada disso. Apenas comecei a desconfiar de uma coisa. Talvez eu não estivesse procurando alguém que coubesse na minha vida. Talvez estivesse procurando alguém que não mexesse nela. E isso era diferente. Continuei andando. Passei anos organizando a casa. Escolhendo os móveis. Definindo as regras. Decidindo quem poderia entrar. No fim, a casa estava impecável. E vazia. Parei por um instante. Pensei que talvez fosse melhor assim. Depois pensei que essa frase também parecia uma defesa. Sorri sozinho. Era um progresso pequeno. Ou apenas outro truque da minha cabeça. Não importava. Continuei andando. O bar ficou para trás. O celular permaneceu no bolso. Eu ainda não sabia se queria encontrar alguém. Também não sabia se queria continuar sozinho. Pela primeira vez, porém, percebi que talvez tivesse passado tempo demais tentando resolver essa dúvida antes que qualquer pessoa tivesse a oportunidade de aparecer. E talvez fosse esse o problema. Eu queria saber quem entraria antes de abrir a porta. Isso me pareceu uma exigência razoável durante muito tempo. Naquela noite, já não pareceu tanto. Não porque eu tivesse descoberto alguma resposta. Só porque, pela primeira vez, a possibilidade de não saber não me pareceu uma ameaça. Continuei andando. O resto podia esperar.

Paulo H Salah Ad din

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Pensador.com

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Outras frases de Paulo H Salah Ad din

Chega de Margens Ainda estou me acostumando com ela em pleno 62/63— esta versão de mim que parece uma evolução silenciosa, metade caos, metade clareza e, de alguma forma, ainda intencional. Ela é nova, mas também… não é. Mais como um despertar. A próxima fase do por vir. Eu não…
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Chega de Margens Ainda estou me acostumando com ela em pleno 62/63— esta versão de mim que parece uma evolução silenciosa, metade caos, metade clareza e, de alguma forma, ainda intencional. Ela é nova, mas também… não é. Mais como um despertar. A próxima fase do por vir. Eu não percebi que escolher ser imperfeito eventualmente se tornaria parte do por vir. E agora que ela está aqui, ela não anda na ponta dos pés. Ela (idade/mente) não pergunta se é demais. Ela simplesmente chega — crua, firme, despreocupada — como se estivesse esperando que eu parasse de me moldar em formas que deixavam todos os outros confortáveis. E quando ela avança, ela não apenas sobe ao palco — ela o preenche, como se finalmente se lembrasse de que nunca deveria ter vivido à margem da própria vida. Ela permanece ali com essa certeza silenciosa, daquela que não precisa provar nada, daquela que faz você perceber que ela nunca foi o problema — o espaço é que era pequeno demais e me fazia me preocupar, me sentir pressionado. E talvez seja essa a parte que ainda estou aprendendo: que tenho permissão para viver uma vida que me encaixe. Que não preciso me retrair para ser compreendido. Que posso querer mais espaço sem sentir que estou pedindo demais. Não se trata de me tornar alguém novo — trata-se de finalmente me permitir ser quem eu sempre tentei proteger. E é isso que estou aprendendo agora: tenho permissão para crescer (ainda da tempo) além dos limites de quem eu costumava ser. Não preciso me retrair para ser compreendido e nem preciso que alguém me compreenda se esse alguém pretende caber na mesmice do cotidiano orientado por “influencer´s. Posso querer uma vida que me encaixe sem me desculpar por isso. Não se trata de me tornar alguém novo — trata-se de finalmente me permitir ser eu mesmo. E quanto mais me permito crescer, mais percebo o quanto eu me reprimia sem nem notar. Quantas vezes tentei me tornar mais fácil de carregar, mais fácil de entender, mais fácil de amar. Mas não farei mais isso. Nesta idade, a idade do pôr do sol da vida, estou aprendendo a me aceitar como sou — não como um projeto, não como um problema, mas como uma pessoa que merece o espaço que preciso conquistar. Há uma estabilidade nisso. Uma espécie de confiança tranquila que eu não sabia que podia ter. E é nisso que me apego agora — na compreensão de que não preciso me diminuir para me manter amistoso. Posso crescer – ainda que nesta idade o corpo encolha e se curve - sem me perder. Posso ocupar espaço sem sentir que estou tirando algo de alguém. Esta versão de mim não é uma partida; é um retorno – talvez seja isso, quando envelhecemos, retornamos para quem fomos um dia, quando crianças puras. Uma expansão. Uma acomodação na vida que venho construindo silenciosamente. Pela primeira vez, parece menos que estou me desvencilhando de quem eu era e mais que finalmente estou me tornando quem sempre fui.

*VOCÊ NÃO É A CASA* Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como s…
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*VOCÊ NÃO É A CASA* Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como se até ela soubesse que não valia a pena se esforçar demais. Eu estava olhando para a garrafa quando vi a fotografia. Uma mulher de vestido branco, descalça, subindo uma escadaria destruída. Fiquei algum tempo olhando aquilo. Não sei por quê. Talvez porque havia alguma coisa familiar naquela escada. Os tijolos estavam expostos. O reboco tinha caído em pedaços. Havia entulho nos degraus. A casa parecia ter sido abandonada depois de uma briga longa demais. Daquelas em que ninguém lembra mais quem começou e todos saem perdendo. Ela subia. De costas. Não dava para saber quem era. Nem precisava. O que importava era que ainda estava subindo. Pedi outra dose. O homem do meu lado olhou para a fotografia e disse: — Lugar perigoso. Eu disse que sim. Mas não era a escada que me preocupava. Era reconhecer a casa. A gente passa uma parte da vida construindo paredes. Trabalho. Família. Amigos. Algumas mulheres. Hábitos. Pequenas certezas. Vai colocando coisa dentro e chamando aquilo de vida. Depois começam as rachaduras. Primeiro ninguém percebe. Uma porta que já não fecha direito. Um joelho que reclama. Um nome que você esquece. Uma pessoa que antes ligava e agora não liga mais. Um amigo que morreu e deixou uma cadeira vazia que ninguém tem coragem de ocupar. Depois vem o resto. A casa começa a perder pedaços. Aos sessenta e poucos anos, eu já não tenho a mesma disposição para fingir que não vejo. O corpo diminui um pouco. A paciência também. A gente começa a carregar menos coisas porque percebe que carregar tudo nunca foi sinal de força. Às vezes era só medo de deixar alguma coisa para trás. Olhei novamente para a mulher. O vestido branco destoava daquela destruição toda. Aquilo me incomodou. Talvez porque eu tivesse passado tempo demais acreditando que era preciso estar inteiro para continuar. Não é. Você pode estar cansado e continuar. Pode ter perdido gente e continuar. Pode olhar para trás e descobrir que boa parte daquilo que chamava de futuro já virou entulho. E continuar. A escada estava quebrada, mas ainda era uma escada. Isso bastava. A mulher levantava um pouco o vestido para não tropeçar. Não havia heroísmo naquilo. Nenhuma grande lição. Ela simplesmente precisava subir. Foi quando entendi uma coisa que demorei décadas para entender. Eu não sou a casa. Passei muito tempo confundindo as duas coisas. Achei que cada perda arrancava um pedaço de mim. Que cada fracasso derrubava uma parede. Que cada despedida me deixava mais perto do fim. Talvez não. Talvez algumas coisas apenas precisem cair. Há construções que só continuam de pé porque ninguém teve coragem de abandoná-las. A música terminou. O dono do bar não colocou outra. Ficamos alguns segundos ouvindo o silêncio das garrafas, dos copos, da rua quase vazia. Paguei a conta e saí. Na calçada, o ar estava frio. Não me senti renovado. Não houve epifania. Minha vida continuava com os mesmos problemas e algumas contas novas. Mas, naquela noite, eu tinha uma pequena diferença. Eu sabia que a ruína não era necessariamente o fim. Às vezes era só o lugar onde a gente finalmente percebe que não precisa morar para sempre. E então sobe. Mesmo descalço. Mesmo tarde. Mesmo sem saber exatamente o que existe no andar de cima. Sobe porque ficar parado dentro dos próprios escombros também é uma escolha. E eu já tinha passado tempo demais escolhendo errado.

*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO* Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali. Isso acontece mais do que eu gostaria.
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*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO* Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali. Isso acontece mais do que eu gostaria. Às vezes saio da cozinha com alguma coisa na cabeça e, quando chego à varanda, a coisa desaparece. Fico parado com o copo na mão, olhando o jardim, como se a resposta pudesse ter ficado para trás no corredor. O jardim vai até o passeio público. Não há muro. Nunca coloquei. A árvore cresceu torta para um lado e ocupa quase toda a sombra da varanda. O gato gosta de ficar ali embaixo. Naquele dia estava deitado sobre a terra, com as patas recolhidas e os olhos fechados. Eu tinha um cigarro aceso. Não lembrava por que tinha ido fumar. Isso me pareceu mais importante do que deveria. Sentei. Na mesa havia uma caixa de fósforos vazia. Peguei, virei entre os dedos e tentei lembrar quando tinha sido usada pela última vez. Não consegui. Deixei de volta. O gato abriu um olho. — Também não sabe? Ele fechou o olho novamente. Talvez estivesse dormindo. Talvez apenas não tivesse interesse na conversa. Eu respeitei. Passei muito tempo acreditando que precisava entender algumas coisas antes que fosse tarde. Não sei exatamente quando comecei com isso. Talvez depois dos quarenta. Talvez antes. A memória tem esse defeito conveniente de reorganizar os fatos para que pareçam ter acontecido quando a gente estava pronto para entendê-los. Eu não estava. Ainda não estou. Lembrei de uma frase que escrevi muitos anos atrás. Não sei onde está o papel. Talvez tenha jogado fora. Talvez esteja dentro de algum livro. Eu costumava guardar essas coisas. Escrevi que era um rascunho de um plano que o tempo havia esquecido de executar. Na época, achei que tinha descoberto alguma coisa sobre mim. Hoje penso que talvez estivesse apenas cansado. Mas a frase ficou. Algumas frases fazem isso. A gente escreve para se livrar delas e acaba passando anos carregando-as. Levantei para buscar mais uísque. Na cozinha, fiquei alguns segundos diante do armário sem saber o que estava fazendo ali. Voltei para a varanda com a garrafa. O gato tinha mudado de posição. Só isso. Eu tinha envelhecido alguns anos desde aquela frase e o gato continuava mudando de posição. Talvez fosse esse o problema. Eu sempre quis que o tempo produzisse alguma conclusão. Ele não produziu. Produziu contas, fotografias, algumas cicatrizes, nomes que já não significam muita coisa e uma coleção de decisões que, vistas de longe, parecem ter sido tomadas por homens diferentes. Talvez tenham sido. Ou talvez eu só goste de pensar assim porque é mais fácil atribuir meus erros a versões anteriores de mim mesmo. Um homem de vinte anos. Um homem de trinta. Outro aos quarenta. Todos com o mesmo nome. Nenhum deles me pediu autorização. Uma mulher passou pelo passeio empurrando uma bicicleta. Olhou para o jardim. Eu tive a impressão de que olhou para mim. Ela continuou. Durante alguns segundos fiquei esperando que voltasse o rosto. Não voltou. Foi quando percebi uma coisa que deveria ter percebido muito antes: quase ninguém está olhando. Passei anos me comportando como se houvesse uma plateia. Como se cada escolha minha estivesse sendo registrada. Como se fosse necessário chegar a algum lugar com uma história coerente para apresentar no fim. Mas não havia plateia. Havia apenas o passeio, a árvore, a rua e uma mulher que provavelmente já tinha esquecido a varanda antes de chegar à esquina. O gato levantou. Caminhou até a borda do jardim. Parou. Olhou para o outro lado da rua. Eu fiquei esperando que ele fizesse alguma coisa. Ele não fez. Depois entrou em casa. Fiquei sozinho. Pensei novamente naquela frase antiga. Rascunho. Plano. Tempo. Eu tinha passado tantos anos tentando descobrir qual era a versão definitiva de mim que talvez não tivesse percebido o óbvio: eu continuava escrevendo rascunhos porque não queria assinar a versão final. Não sei se isso é covardia. Talvez seja. Também pode ser apenas hábito. Acendi outro cigarro. Fiquei olhando a fumaça desaparecer antes de chegar à árvore. Pensei nas coisas que deixei pela metade. Algumas por falta de coragem. Outras porque perderam o sentido. Outras simplesmente porque eu era jovem demais para perceber que certas portas fecham sem fazer barulho. Ainda havia uma parte de mim que insistia em voltar a essas portas. Não para entrar. Só para verificar se continuavam fechadas. Achei isso ridículo. Depois pensei que talvez fosse apenas humano. O céu começou a escurecer. A luz da varanda acendeu sozinha. A caixa de fósforos continuava sobre a mesa. Peguei-a novamente. Dessa vez não tentei lembrar de onde vinha. Coloquei no bolso. O cigarro terminou. Fiquei segurando o filtro entre os dedos por alguns segundos, como se esperasse alguma instrução. Não veio. Joguei no cinzeiro. Eu poderia ter ido para dentro. Não fui. Talvez ainda esperasse alguma coisa. Não sei o quê. Uma resposta. Uma lembrança. Uma vontade antiga. Uma prova de que todo aquele tempo tinha servido para alguma coisa. Nada aconteceu. E talvez tenha sido justamente isso que me fez ficar ali. Sem resolver. Sem concluir. Sem transformar a tarde em uma explicação. A rua continuou. A árvore continuou. Dentro da casa, ouvi o gato derrubar alguma coisa. Fui ver. Era apenas um copo vazio no chão. Peguei o copo. O gato já estava no corredor, indo embora. Fiquei olhando. Depois apaguei a luz da varanda. A casa ficou escura por alguns segundos antes que meus olhos se acostumassem. E eu percebi que ainda havia coisas em mim que não tinham terminado. Mas, pela primeira vez, não tive pressa de terminá-las.

*EU ME QUERO DE VOLTA* Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar. Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mo…
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*EU ME QUERO DE VOLTA* Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar. Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mochila pequena, pouca roupa, documentos, algum dinheiro e aquela sensação conhecida de que talvez, se eu ficasse longe o bastante, certas coisas dentro da cabeça perdessem o endereço. A estrada de serra estava quase vazia. Subi sem pressa. Curva depois de curva. Pinheiros, barrancos, casas isoladas, pequenas vendas onde ainda se podia tomar café sem alguém perguntar se você queria açúcar. Em alguns lugares, o mundo parecia ter esquecido de atualizar a paisagem. Eu gostava disso. Talvez porque passei boa parte da vida fazendo exatamente o contrário. Atualizando. Mudando de emprego. De cidade. De mulher. De opinião. De planos. Trocando certezas velhas por certezas novas, como quem troca uma camisa suja e acredita que ficou limpo. Quando somos jovens, ninguém nos explica direito o tamanho da brincadeira. Dizem para estudar. Trabalhar. Construir. Casar, talvez. Ter filhos. Comprar uma casa. Ser alguém. A gente acredita. Depois descobre que existe uma diferença enorme entre cumprir o figurino e caber dentro dele. Eu cumpri algumas partes. Outras fiz pela metade. E algumas fiz tão bem que quase consegui destruir a pessoa que deveria ter sido. Foi só muito depois que percebi isso. Na juventude, eu achava que as decepções eram acidentes de percurso. Uma mulher que não ficou. Um amigo que virou estranho. Um projeto que morreu antes de nascer. Uma porta que não abriu. Um sonho que parecia grande demais para o quarto onde eu dormia. A gente sofre. Depois chama aquilo de experiência. É uma maneira elegante de não admitir que não entendeu nada. Continuei subindo. Em determinado ponto, parei a moto num acostamento. Havia uma venda pequena, dessas que parecem ter sobrevivido por teimosia. Pedi café. O homem atrás do balcão devia ter mais ou menos a minha idade. Talvez um pouco mais. Ele não tinha pressa. Fiquei olhando enquanto ele limpava o balcão com um pano que provavelmente já tinha visto dias melhores. Pensei em quantas pessoas eu havia observado durante a vida. Homens cansados. Mulheres que desistiram de certas coisas sem anunciar. Gente que bebia todos os dias. Gente que trabalhava todos os dias. Gente que dizia estar feliz com a convicção de quem precisava convencer a si mesmo. Eu costumava olhar para essas pessoas de fora. Agora começo a reconhecê-las por dentro. Essa talvez seja uma das partes menos agradáveis de envelhecer. Você começa a encontrar nos outros os mesmos defeitos que passou anos condenando. O homem que você julgava acomodado. Você. A mulher que você achava que tinha desistido. Você. O sujeito que dizia não esperar mais nada da vida. Você. É uma espécie de justiça tardia. A vida não manda boleto. Manda espelho. Voltei para a estrada. Desci a serra em direção ao litoral. O ar mudou primeiro. Depois a paisagem. A estrada se abriu e o mar apareceu entre uma curva e outra. Parei. Fiquei olhando. Não senti nenhuma revelação. Ainda bem. Tenho desconfiança de revelações. Quase sempre elas duram até o próximo problema. O que senti foi uma coisa mais simples. Cansaço. Um cansaço antigo. Não do corpo. O corpo estava funcionando. Era outro. O cansaço de carregar perguntas que aprenderam a se reproduzir. Quando somos jovens, procuramos respostas. Depois de algum tempo, percebemos que algumas respostas apenas criam perguntas melhores. E algumas perguntas não querem resposta. Querem companhia. Segui pela estrada litorânea. Pequenos lugarejos apareciam e desapareciam. Uma igreja. Uma praça. Dois cachorros dormindo na sombra. Um bar aberto numa quarta-feira à tarde. Um velho sentado numa cadeira de plástico olhando para lugar nenhum. Talvez ele soubesse alguma coisa. Talvez não. Essa é outra mentira da idade. A gente imagina que quem chegou mais longe sabe mais. Nem sempre. Às vezes só chegou mais longe. Foi então que lembrei de algumas coisas que eu tinha deixado para trás. Não pessoas exatamente. Momentos. A adolescência. Aquele período estranho em que a vida ainda não tinha apresentado a conta. Eu sinto falta de coisas que, na época, pareciam insignificantes. Uma rua. Um quarto. Uma conversa idiota. Uma música tocando num rádio ruim. Uma tarde sem obrigação. A sensação de que ainda havia muito tempo. É curioso. Quando temos tempo, queremos futuro. Quando o futuro já está parcialmente ocupado pelo passado, começamos a querer de volta algumas tardes. Não quero voltar a ser adolescente. Isso seria uma estupidez. Quero apenas recuperar alguma coisa daquele sujeito que acreditava que a vida podia ser diferente. Não necessariamente melhor. Diferente. Talvez seja isso que eu tenha perdido. Não a juventude. A capacidade de acreditar antes de exigir garantias. Passei anos tentando viver de acordo com aquilo que parecia correto. E algumas coisas corretas fizeram estragos. Essa talvez seja uma das coisas que ainda não compreendi. Como alguém pode fazer tudo conforme o figurino e, mesmo assim, terminar diante de uma vida que não reconhece? Você trabalha. Paga contas. Cumpre compromissos. Evita escândalos. Engole algumas vontades. Adia outras. Diz “depois”. Diz “agora não”. Diz “é o melhor”. E, quando percebe, existe uma distância entre aquilo que você construiu e aquilo que você era. Não houve uma explosão. Não houve música triste. Ninguém percebeu. Foi acontecendo. Depois que sangra, seca. O problema é que a pele fica diferente. Talvez algumas coisas tenham morrido em mim em dias que eu achei que tinha apenas perdido. Uma relação. Uma amizade. Uma possibilidade. Uma versão de mim. Aquilo não me matou. Mas algo naquele dia morreu em mim. Demorei para entender. Ou talvez ainda não tenha entendido. A diferença entre amadurecer e se acostumar é uma das perguntas que continuam me perseguindo. Porque existe gente madura. E existe gente apenas cansada. Existe gente tranquila. E existe gente que desistiu de discutir com a própria vida. Existe gente que aprendeu a viver. E existe gente que aprendeu a não reclamar. Às vezes eu não sei em qual grupo estou. Talvez nos dois. Continuei rodando. O vento batia no capacete e levava embora qualquer possibilidade de pensamento organizado. Foi bom. Minha cabeça sempre foi um lugar pouco recomendável. Sou de carne, osso e uma confusão de pensamentos. Nunca fui exatamente uma pessoa simples. Durante muito tempo achei que isso fosse um defeito. Hoje já não sei. Talvez a simplicidade seja apenas uma forma eficiente de esconder aquilo que não conseguimos compreender. Eu sempre vou ser uma confusão. Não digo isso com orgulho. Também não digo com vergonha. É apenas um diagnóstico sem médico. No fim da tarde, parei perto de uma praia pequena. Não havia quase ninguém. Tirei o capacete e sentei num banco. O mar fazia aquele trabalho antigo de ir e voltar sem precisar justificar nada. Pensei que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando resolver a minha vida. Talvez a amnésia resolvesse o problema. Esquecer algumas coisas. Esquecer algumas pessoas. Esquecer certas versões de mim. Mas logo percebi que seria inútil. Porque não é o passado que continua nos perseguindo. Somos nós que continuamos voltando até ele. Voltei para a moto. Ainda não sabia para onde iria dormir. Também não sabia o que faria no dia seguinte. Pela primeira vez em muito tempo, isso não pareceu uma ameaça. Talvez porque eu tenha finalmente entendido que planejar tudo não me protegeu de nada. Tudo correu como eu não planejei. E, apesar disso, cheguei até aqui. Não é uma vitória. Também não é uma derrota. É apenas o lugar onde estou. A estrada continuava pela costa. Eu podia seguir. Podia parar. Podia voltar. Não havia placa dizendo qual das três opções seria a mais correta. Ainda bem. Passei anos demais obedecendo placas. Naquela noite, enquanto o céu escurecia sobre o mar, pensei numa frase que não parecia minha, embora viesse de dentro: eu me quero de volta. Não o homem que fui. Isso seria impossível. Quero de volta alguma coisa que existia antes de eu começar a negociar comigo mesmo. Antes de transformar desejo em obrigação. Antes de confundir responsabilidade com abandono. Antes de aprender a dizer “é assim mesmo”. Talvez viver seja justamente isso. Perder algumas versões de si. Encontrar outras. E, de vez em quando, reconhecer uma antiga no acostamento. Parar. Olhar. Não tentar trazê-la de volta. Apenas agradecer. Depois subir na moto e continuar. Porque existir é pouco. É preciso viver. Mesmo sem saber exatamente como. Mesmo carregando perguntas. Mesmo fazendo errado. Mesmo descobrindo tarde demais que algumas respostas não estavam na estrada, na cidade, nas pessoas ou nos lugares para onde fugimos. Estavam naquilo que a gente evitou olhar enquanto ainda tinha tempo. O motor pegou na primeira tentativa. Pus o capacete. Acelerei. Vamos, vida. Me surpreenda. Dessa vez eu não vou exigir que você faça sentido.