Frase de heron silva domingues
POEMA AO MEU PAI Eu não lembro da minha infância inteira. Ela correu. Passou por mim como vento, como pipa que sobe e some, como carretel que rola ladeira abaixo e não volta mais. Um morro virou campo, o campo virou casas, e eu virei homem sem perceber o instante. Um dia apareci no seu trabalho, e o senhor me levou ao restaurante do português. A sopa era ruim, mas com você tudo tinha sabor. O refrigerante era grande, a mesa simples, a vida imensa por causa da tua presença. Depois te contei do amor que encontrei. Você ouviu, aconselhou, e me ajudou por uma vida inteira. Me trouxe para uma terra que eu não imaginava viver, onde meus filhos nasceram, onde o pão chegava com o seu chamado de manhã. Hoje sou eu quem leva o pão, e a lembrança do seu grito ainda abre a porta dentro de mim. Cuidei do senhor como quem segura o próprio passado pela mão. Troquei carros, troquei rotinas, troquei o que fosse preciso para te levar onde precisava. E ainda assim, quando você partiu, eu estava longe — longe do instante do adeus, mas perto da dor que nunca se afasta. Daquele dia em diante, eu tive que dizer ao mundo: “Agora eu sou homem.” Sem pai, sem chão, mas com a herança do que você me ensinou a ser. Hoje faço o que não gosto, caminho onde não queria, mas sigo firme porque carrego o teu nome, tua memória, tua voz que, aos poucos, volta a me encontrar. Amo minha mãe, amo minha esposa, amo meus filhos — porque você me ensinou a amar assim: com força, com verdade, com sacrifício. Pai, obrigado. Obrigado por tudo o que fui contigo e pelo que virei depois de você. Prometo ir mais longe do que você um dia sonhou para mim. Prometo viver, ainda que doa, porque viver é a última forma que me resta de te honrar. Um beijo. Um abraço. E um eco teu que nunca morre, mesmo quando o resto do mundo fica silencioso.
No pensador.ai desde