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Frase de Paulo H Salah Ad din

A INDIFERENÇA TAMBÉM DEIXA MARCAS A chuva fazia aquele trabalho sujo de sempre: cair sobre todo mundo sem perguntar quem merecia. Eu estava no bar, diante da vidraça embaçada, com um copo que já tinha perdido a graça fazia algum tempo. O bar estava cheio. Gente falando alto, rindo de coisas que provavelmente não teriam graça no dia seguinte. Gente reclamando do preço da cerveja, do governo, do chefe, da vida, do casamento, do trânsito. A vida humana em seu estado mais sofisticado: reclamar de pequenas merdas enquanto outras pessoas desaparecem a poucos metros. Foi então que eu o vi. Caminhava devagar. Muito devagar. Como se cada passo precisasse ser negociado com o corpo. Um bastão em uma das mãos. Uma trouxa enorme pendurada nas costas. Aquele tipo de bagagem que não parece carregar roupas. Parece carregar anos. Ele levou a mão ao rosto. Não sei se chorava. Talvez estivesse apenas cansado. Talvez tivesse vergonha. Talvez estivesse protegendo os olhos da chuva. Ou talvez estivesse tentando esconder de si mesmo o espetáculo miserável de continuar vivo. E ninguém parou. Ninguém. Alguns passaram por ele com aquela pressa característica de quem tem compromissos importantes. Um homem esbarrou em seu ombro. Nem olhou para trás. Uma mulher desviou como se tivesse encontrado uma poça. Outro simplesmente continuou andando. A cidade possui uma técnica admirável para isso. Ela transforma pessoas em obstáculos. Depois transforma obstáculos em paisagem. E, finalmente, transforma paisagem em nada. Fiquei olhando. E comecei a me perguntar quando foi que aprendemos a não nos importar. Talvez tenha começado cedo. Quando descobrimos que sentir demais dói. Então construímos pequenas paredes. Depois paredes maiores. Depois uma casa inteira dentro da cabeça. Chamamos aquilo de maturidade. Chamamos de experiência. Chamamos de inteligência emocional. Na verdade, muitas vezes é apenas medo com uma boa roupa. A gente aprende a olhar sem ver. A ouvir sem escutar. A passar por alguém sofrendo e dizer: Não é problema meu. É uma frase eficiente. Curta. Prática. Quase elegante. Serve para tudo. Para o mendigo. Para o velho. Para o vizinho. Para a criança. Para o amigo. Para o planeta. Para a própria consciência. Não é problema meu. E assim vamos ficando especialistas em não pertencer a nada. A tragédia é que ninguém nos avisou que, quando você se separa suficientemente dos outros, começa também a se separar de si mesmo. Porque aquele homem ali não era somente aquele homem. Era uma possibilidade. Uma versão futura. Uma lembrança de alguma coisa que poderíamos ter sido. Ou simplesmente alguém que teve menos sorte. E essa é a parte que incomoda. Porque é fácil desprezar aquilo que acreditamos estar muito distante. Mas e se não estiver? E se a diferença entre aquele homem e o sujeito sentado aqui no bar for apenas uma sequência de acidentes? Uma doença. Um abandono. Uma dívida. Uma perda. Uma velhice que chegou sem pedir licença. Uma mão que ninguém segurou quando ainda havia tempo. É aí que a coisa fica desagradável. Porque começa a desaparecer a confortável fronteira entre eu e ele. Nós gostamos de acreditar que somos indivíduos separados. Eu tenho minha vida. Ele tem a dele. Eu tenho meus problemas. Ele tem os dele. Uma pequena matemática moral para justificar nossa covardia. Mas existe uma coisa incômoda chamada humanidade. E ela não respeita nossos muros. Ela passa por dentro deles. O homem continuava caminhando. A chuva continuava caindo. A motocicleta continuava estacionada. As pessoas continuavam indo para algum lugar. E eu continuava atrás do vidro. Isso também me incomodava. Porque observar o sofrimento não nos torna melhores. Às vezes apenas nos torna espectadores mais sofisticados. Você pode escrever sobre a fome e continuar jantando tranquilamente. Pode falar sobre compaixão e não oferecer um minuto a ninguém. Pode publicar frases bonitas sobre humanidade enquanto passa por uma pessoa caída na calçada olhando para o celular. A consciência é uma coisa estranha. Ela permite que você se sinta culpado sem precisar mudar absolutamente nada. Talvez essa seja uma das maiores fraudes que inventamos. Sentir não basta. Pensar não basta. Indignar-se não basta. A compaixão que não atravessa o corpo e chega às mãos é apenas uma emoção bem-comportada. E talvez seja disso que este homem esteja nos lembrando. Não com palavras. Não com discursos. Não com nenhuma bandeira. Apenas com aquele corpo cansado. Aquele bastão. Aquela trouxa. Aquela mão cobrindo o rosto. Ele não precisa saber que está nos ensinando alguma coisa. Talvez nem queira. Talvez só queira chegar a algum lugar. E existe uma brutalidade nisso. Ele está tentando chegar. Nós também. A diferença é que alguns carregam uma mochila. Outros carregam apartamentos, carros, diplomas, investimentos, fotografias de família, rancores, traumas, vaidades, fracassos e uma quantidade absurda de medo. Todos carregamos alguma coisa. A questão é o que fazemos quando percebemos que outra pessoa não consegue mais carregar a dela. Viramos o rosto? Aceleramos o passo? Ou paramos? Talvez seja esse o ensaio mais simples para recuperar alguma coisa que perdemos. Parar. Olhar. Reconhecer. Cuidar. Não porque somos santos. Não porque precisamos salvar o mundo. Mas porque, antes de todas essas teorias sobre sucesso, liberdade, mérito e individualidade, existe uma coisa muito mais antiga dentro de nós. A necessidade de cuidar. Ela está lá. Debaixo do cinismo. Debaixo do orgulho. Debaixo das cicatrizes. Debaixo dessa couraça ridícula que construímos para não sofrer. Você foi feito para cuidar. E eu sei que isso soa ingênuo. Num mundo que transforma gentileza em fraqueza, parece até uma piada. Mas talvez a verdadeira fraqueza seja justamente o contrário. Passar por alguém quebrado e precisar fingir que não viu. Porque para não sentir a dor dos outros você precisa amputar alguma coisa dentro de si. E amputações emocionais também deixam cicatrizes. O homem desapareceu na chuva. O bar continuou cheio. Pedi outra cerveja. Não porque tivesse esquecido o que vi. Mas porque ainda não sabia o que fazer com aquilo. Talvez começar seja exatamente isso: não esquecer. Não deixar que aquela imagem vire apenas mais uma fotografia entre milhares. Não permitir que a dor de alguém se torne paisagem. Talvez a mudança comece antes da ação. Comece no instante em que você se recusa a olhar para o outro como um estranho. Porque, no fim, somos todos passageiros da mesma coisa. E a cidade continuará esbarrando em nós. A chuva continuará caindo. Os bares continuarão cheios. As pessoas continuarão com pressa. E algum homem continuará caminhando devagar, carregando nas costas tudo aquilo que ninguém quis carregar com ele. A pergunta não é se podemos salvar aquele homem. Talvez não possamos. A pergunta é outra. O que ainda existe dentro de nós quando vemos alguém sofrendo e escolhemos não nos importar? Talvez seja aí que a humanidade comece. Ou termine. Depende do que você fizer depois de olhar.

Paulo H Salah Ad din

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Pensador.com

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Outras frases de Paulo H Salah Ad din

Chega de Margens Ainda estou me acostumando com ela em pleno 62/63— esta versão de mim que parece uma evolução silenciosa, metade caos, metade clareza e, de alguma forma, ainda intencional. Ela é nova, mas também… não é. Mais como um despertar. A próxima fase do por vir. Eu não…
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Chega de Margens Ainda estou me acostumando com ela em pleno 62/63— esta versão de mim que parece uma evolução silenciosa, metade caos, metade clareza e, de alguma forma, ainda intencional. Ela é nova, mas também… não é. Mais como um despertar. A próxima fase do por vir. Eu não percebi que escolher ser imperfeito eventualmente se tornaria parte do por vir. E agora que ela está aqui, ela não anda na ponta dos pés. Ela (idade/mente) não pergunta se é demais. Ela simplesmente chega — crua, firme, despreocupada — como se estivesse esperando que eu parasse de me moldar em formas que deixavam todos os outros confortáveis. E quando ela avança, ela não apenas sobe ao palco — ela o preenche, como se finalmente se lembrasse de que nunca deveria ter vivido à margem da própria vida. Ela permanece ali com essa certeza silenciosa, daquela que não precisa provar nada, daquela que faz você perceber que ela nunca foi o problema — o espaço é que era pequeno demais e me fazia me preocupar, me sentir pressionado. E talvez seja essa a parte que ainda estou aprendendo: que tenho permissão para viver uma vida que me encaixe. Que não preciso me retrair para ser compreendido. Que posso querer mais espaço sem sentir que estou pedindo demais. Não se trata de me tornar alguém novo — trata-se de finalmente me permitir ser quem eu sempre tentei proteger. E é isso que estou aprendendo agora: tenho permissão para crescer (ainda da tempo) além dos limites de quem eu costumava ser. Não preciso me retrair para ser compreendido e nem preciso que alguém me compreenda se esse alguém pretende caber na mesmice do cotidiano orientado por “influencer´s. Posso querer uma vida que me encaixe sem me desculpar por isso. Não se trata de me tornar alguém novo — trata-se de finalmente me permitir ser eu mesmo. E quanto mais me permito crescer, mais percebo o quanto eu me reprimia sem nem notar. Quantas vezes tentei me tornar mais fácil de carregar, mais fácil de entender, mais fácil de amar. Mas não farei mais isso. Nesta idade, a idade do pôr do sol da vida, estou aprendendo a me aceitar como sou — não como um projeto, não como um problema, mas como uma pessoa que merece o espaço que preciso conquistar. Há uma estabilidade nisso. Uma espécie de confiança tranquila que eu não sabia que podia ter. E é nisso que me apego agora — na compreensão de que não preciso me diminuir para me manter amistoso. Posso crescer – ainda que nesta idade o corpo encolha e se curve - sem me perder. Posso ocupar espaço sem sentir que estou tirando algo de alguém. Esta versão de mim não é uma partida; é um retorno – talvez seja isso, quando envelhecemos, retornamos para quem fomos um dia, quando crianças puras. Uma expansão. Uma acomodação na vida que venho construindo silenciosamente. Pela primeira vez, parece menos que estou me desvencilhando de quem eu era e mais que finalmente estou me tornando quem sempre fui.

*VOCÊ NÃO É A CASA* Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como s…
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*VOCÊ NÃO É A CASA* Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como se até ela soubesse que não valia a pena se esforçar demais. Eu estava olhando para a garrafa quando vi a fotografia. Uma mulher de vestido branco, descalça, subindo uma escadaria destruída. Fiquei algum tempo olhando aquilo. Não sei por quê. Talvez porque havia alguma coisa familiar naquela escada. Os tijolos estavam expostos. O reboco tinha caído em pedaços. Havia entulho nos degraus. A casa parecia ter sido abandonada depois de uma briga longa demais. Daquelas em que ninguém lembra mais quem começou e todos saem perdendo. Ela subia. De costas. Não dava para saber quem era. Nem precisava. O que importava era que ainda estava subindo. Pedi outra dose. O homem do meu lado olhou para a fotografia e disse: — Lugar perigoso. Eu disse que sim. Mas não era a escada que me preocupava. Era reconhecer a casa. A gente passa uma parte da vida construindo paredes. Trabalho. Família. Amigos. Algumas mulheres. Hábitos. Pequenas certezas. Vai colocando coisa dentro e chamando aquilo de vida. Depois começam as rachaduras. Primeiro ninguém percebe. Uma porta que já não fecha direito. Um joelho que reclama. Um nome que você esquece. Uma pessoa que antes ligava e agora não liga mais. Um amigo que morreu e deixou uma cadeira vazia que ninguém tem coragem de ocupar. Depois vem o resto. A casa começa a perder pedaços. Aos sessenta e poucos anos, eu já não tenho a mesma disposição para fingir que não vejo. O corpo diminui um pouco. A paciência também. A gente começa a carregar menos coisas porque percebe que carregar tudo nunca foi sinal de força. Às vezes era só medo de deixar alguma coisa para trás. Olhei novamente para a mulher. O vestido branco destoava daquela destruição toda. Aquilo me incomodou. Talvez porque eu tivesse passado tempo demais acreditando que era preciso estar inteiro para continuar. Não é. Você pode estar cansado e continuar. Pode ter perdido gente e continuar. Pode olhar para trás e descobrir que boa parte daquilo que chamava de futuro já virou entulho. E continuar. A escada estava quebrada, mas ainda era uma escada. Isso bastava. A mulher levantava um pouco o vestido para não tropeçar. Não havia heroísmo naquilo. Nenhuma grande lição. Ela simplesmente precisava subir. Foi quando entendi uma coisa que demorei décadas para entender. Eu não sou a casa. Passei muito tempo confundindo as duas coisas. Achei que cada perda arrancava um pedaço de mim. Que cada fracasso derrubava uma parede. Que cada despedida me deixava mais perto do fim. Talvez não. Talvez algumas coisas apenas precisem cair. Há construções que só continuam de pé porque ninguém teve coragem de abandoná-las. A música terminou. O dono do bar não colocou outra. Ficamos alguns segundos ouvindo o silêncio das garrafas, dos copos, da rua quase vazia. Paguei a conta e saí. Na calçada, o ar estava frio. Não me senti renovado. Não houve epifania. Minha vida continuava com os mesmos problemas e algumas contas novas. Mas, naquela noite, eu tinha uma pequena diferença. Eu sabia que a ruína não era necessariamente o fim. Às vezes era só o lugar onde a gente finalmente percebe que não precisa morar para sempre. E então sobe. Mesmo descalço. Mesmo tarde. Mesmo sem saber exatamente o que existe no andar de cima. Sobe porque ficar parado dentro dos próprios escombros também é uma escolha. E eu já tinha passado tempo demais escolhendo errado.

*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO* Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali. Isso acontece mais do que eu gostaria.
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*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO* Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali. Isso acontece mais do que eu gostaria. Às vezes saio da cozinha com alguma coisa na cabeça e, quando chego à varanda, a coisa desaparece. Fico parado com o copo na mão, olhando o jardim, como se a resposta pudesse ter ficado para trás no corredor. O jardim vai até o passeio público. Não há muro. Nunca coloquei. A árvore cresceu torta para um lado e ocupa quase toda a sombra da varanda. O gato gosta de ficar ali embaixo. Naquele dia estava deitado sobre a terra, com as patas recolhidas e os olhos fechados. Eu tinha um cigarro aceso. Não lembrava por que tinha ido fumar. Isso me pareceu mais importante do que deveria. Sentei. Na mesa havia uma caixa de fósforos vazia. Peguei, virei entre os dedos e tentei lembrar quando tinha sido usada pela última vez. Não consegui. Deixei de volta. O gato abriu um olho. — Também não sabe? Ele fechou o olho novamente. Talvez estivesse dormindo. Talvez apenas não tivesse interesse na conversa. Eu respeitei. Passei muito tempo acreditando que precisava entender algumas coisas antes que fosse tarde. Não sei exatamente quando comecei com isso. Talvez depois dos quarenta. Talvez antes. A memória tem esse defeito conveniente de reorganizar os fatos para que pareçam ter acontecido quando a gente estava pronto para entendê-los. Eu não estava. Ainda não estou. Lembrei de uma frase que escrevi muitos anos atrás. Não sei onde está o papel. Talvez tenha jogado fora. Talvez esteja dentro de algum livro. Eu costumava guardar essas coisas. Escrevi que era um rascunho de um plano que o tempo havia esquecido de executar. Na época, achei que tinha descoberto alguma coisa sobre mim. Hoje penso que talvez estivesse apenas cansado. Mas a frase ficou. Algumas frases fazem isso. A gente escreve para se livrar delas e acaba passando anos carregando-as. Levantei para buscar mais uísque. Na cozinha, fiquei alguns segundos diante do armário sem saber o que estava fazendo ali. Voltei para a varanda com a garrafa. O gato tinha mudado de posição. Só isso. Eu tinha envelhecido alguns anos desde aquela frase e o gato continuava mudando de posição. Talvez fosse esse o problema. Eu sempre quis que o tempo produzisse alguma conclusão. Ele não produziu. Produziu contas, fotografias, algumas cicatrizes, nomes que já não significam muita coisa e uma coleção de decisões que, vistas de longe, parecem ter sido tomadas por homens diferentes. Talvez tenham sido. Ou talvez eu só goste de pensar assim porque é mais fácil atribuir meus erros a versões anteriores de mim mesmo. Um homem de vinte anos. Um homem de trinta. Outro aos quarenta. Todos com o mesmo nome. Nenhum deles me pediu autorização. Uma mulher passou pelo passeio empurrando uma bicicleta. Olhou para o jardim. Eu tive a impressão de que olhou para mim. Ela continuou. Durante alguns segundos fiquei esperando que voltasse o rosto. Não voltou. Foi quando percebi uma coisa que deveria ter percebido muito antes: quase ninguém está olhando. Passei anos me comportando como se houvesse uma plateia. Como se cada escolha minha estivesse sendo registrada. Como se fosse necessário chegar a algum lugar com uma história coerente para apresentar no fim. Mas não havia plateia. Havia apenas o passeio, a árvore, a rua e uma mulher que provavelmente já tinha esquecido a varanda antes de chegar à esquina. O gato levantou. Caminhou até a borda do jardim. Parou. Olhou para o outro lado da rua. Eu fiquei esperando que ele fizesse alguma coisa. Ele não fez. Depois entrou em casa. Fiquei sozinho. Pensei novamente naquela frase antiga. Rascunho. Plano. Tempo. Eu tinha passado tantos anos tentando descobrir qual era a versão definitiva de mim que talvez não tivesse percebido o óbvio: eu continuava escrevendo rascunhos porque não queria assinar a versão final. Não sei se isso é covardia. Talvez seja. Também pode ser apenas hábito. Acendi outro cigarro. Fiquei olhando a fumaça desaparecer antes de chegar à árvore. Pensei nas coisas que deixei pela metade. Algumas por falta de coragem. Outras porque perderam o sentido. Outras simplesmente porque eu era jovem demais para perceber que certas portas fecham sem fazer barulho. Ainda havia uma parte de mim que insistia em voltar a essas portas. Não para entrar. Só para verificar se continuavam fechadas. Achei isso ridículo. Depois pensei que talvez fosse apenas humano. O céu começou a escurecer. A luz da varanda acendeu sozinha. A caixa de fósforos continuava sobre a mesa. Peguei-a novamente. Dessa vez não tentei lembrar de onde vinha. Coloquei no bolso. O cigarro terminou. Fiquei segurando o filtro entre os dedos por alguns segundos, como se esperasse alguma instrução. Não veio. Joguei no cinzeiro. Eu poderia ter ido para dentro. Não fui. Talvez ainda esperasse alguma coisa. Não sei o quê. Uma resposta. Uma lembrança. Uma vontade antiga. Uma prova de que todo aquele tempo tinha servido para alguma coisa. Nada aconteceu. E talvez tenha sido justamente isso que me fez ficar ali. Sem resolver. Sem concluir. Sem transformar a tarde em uma explicação. A rua continuou. A árvore continuou. Dentro da casa, ouvi o gato derrubar alguma coisa. Fui ver. Era apenas um copo vazio no chão. Peguei o copo. O gato já estava no corredor, indo embora. Fiquei olhando. Depois apaguei a luz da varanda. A casa ficou escura por alguns segundos antes que meus olhos se acostumassem. E eu percebi que ainda havia coisas em mim que não tinham terminado. Mas, pela primeira vez, não tive pressa de terminá-las.

*EU ME QUERO DE VOLTA* Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar. Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mo…
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*EU ME QUERO DE VOLTA* Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar. Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mochila pequena, pouca roupa, documentos, algum dinheiro e aquela sensação conhecida de que talvez, se eu ficasse longe o bastante, certas coisas dentro da cabeça perdessem o endereço. A estrada de serra estava quase vazia. Subi sem pressa. Curva depois de curva. Pinheiros, barrancos, casas isoladas, pequenas vendas onde ainda se podia tomar café sem alguém perguntar se você queria açúcar. Em alguns lugares, o mundo parecia ter esquecido de atualizar a paisagem. Eu gostava disso. Talvez porque passei boa parte da vida fazendo exatamente o contrário. Atualizando. Mudando de emprego. De cidade. De mulher. De opinião. De planos. Trocando certezas velhas por certezas novas, como quem troca uma camisa suja e acredita que ficou limpo. Quando somos jovens, ninguém nos explica direito o tamanho da brincadeira. Dizem para estudar. Trabalhar. Construir. Casar, talvez. Ter filhos. Comprar uma casa. Ser alguém. A gente acredita. Depois descobre que existe uma diferença enorme entre cumprir o figurino e caber dentro dele. Eu cumpri algumas partes. Outras fiz pela metade. E algumas fiz tão bem que quase consegui destruir a pessoa que deveria ter sido. Foi só muito depois que percebi isso. Na juventude, eu achava que as decepções eram acidentes de percurso. Uma mulher que não ficou. Um amigo que virou estranho. Um projeto que morreu antes de nascer. Uma porta que não abriu. Um sonho que parecia grande demais para o quarto onde eu dormia. A gente sofre. Depois chama aquilo de experiência. É uma maneira elegante de não admitir que não entendeu nada. Continuei subindo. Em determinado ponto, parei a moto num acostamento. Havia uma venda pequena, dessas que parecem ter sobrevivido por teimosia. Pedi café. O homem atrás do balcão devia ter mais ou menos a minha idade. Talvez um pouco mais. Ele não tinha pressa. Fiquei olhando enquanto ele limpava o balcão com um pano que provavelmente já tinha visto dias melhores. Pensei em quantas pessoas eu havia observado durante a vida. Homens cansados. Mulheres que desistiram de certas coisas sem anunciar. Gente que bebia todos os dias. Gente que trabalhava todos os dias. Gente que dizia estar feliz com a convicção de quem precisava convencer a si mesmo. Eu costumava olhar para essas pessoas de fora. Agora começo a reconhecê-las por dentro. Essa talvez seja uma das partes menos agradáveis de envelhecer. Você começa a encontrar nos outros os mesmos defeitos que passou anos condenando. O homem que você julgava acomodado. Você. A mulher que você achava que tinha desistido. Você. O sujeito que dizia não esperar mais nada da vida. Você. É uma espécie de justiça tardia. A vida não manda boleto. Manda espelho. Voltei para a estrada. Desci a serra em direção ao litoral. O ar mudou primeiro. Depois a paisagem. A estrada se abriu e o mar apareceu entre uma curva e outra. Parei. Fiquei olhando. Não senti nenhuma revelação. Ainda bem. Tenho desconfiança de revelações. Quase sempre elas duram até o próximo problema. O que senti foi uma coisa mais simples. Cansaço. Um cansaço antigo. Não do corpo. O corpo estava funcionando. Era outro. O cansaço de carregar perguntas que aprenderam a se reproduzir. Quando somos jovens, procuramos respostas. Depois de algum tempo, percebemos que algumas respostas apenas criam perguntas melhores. E algumas perguntas não querem resposta. Querem companhia. Segui pela estrada litorânea. Pequenos lugarejos apareciam e desapareciam. Uma igreja. Uma praça. Dois cachorros dormindo na sombra. Um bar aberto numa quarta-feira à tarde. Um velho sentado numa cadeira de plástico olhando para lugar nenhum. Talvez ele soubesse alguma coisa. Talvez não. Essa é outra mentira da idade. A gente imagina que quem chegou mais longe sabe mais. Nem sempre. Às vezes só chegou mais longe. Foi então que lembrei de algumas coisas que eu tinha deixado para trás. Não pessoas exatamente. Momentos. A adolescência. Aquele período estranho em que a vida ainda não tinha apresentado a conta. Eu sinto falta de coisas que, na época, pareciam insignificantes. Uma rua. Um quarto. Uma conversa idiota. Uma música tocando num rádio ruim. Uma tarde sem obrigação. A sensação de que ainda havia muito tempo. É curioso. Quando temos tempo, queremos futuro. Quando o futuro já está parcialmente ocupado pelo passado, começamos a querer de volta algumas tardes. Não quero voltar a ser adolescente. Isso seria uma estupidez. Quero apenas recuperar alguma coisa daquele sujeito que acreditava que a vida podia ser diferente. Não necessariamente melhor. Diferente. Talvez seja isso que eu tenha perdido. Não a juventude. A capacidade de acreditar antes de exigir garantias. Passei anos tentando viver de acordo com aquilo que parecia correto. E algumas coisas corretas fizeram estragos. Essa talvez seja uma das coisas que ainda não compreendi. Como alguém pode fazer tudo conforme o figurino e, mesmo assim, terminar diante de uma vida que não reconhece? Você trabalha. Paga contas. Cumpre compromissos. Evita escândalos. Engole algumas vontades. Adia outras. Diz “depois”. Diz “agora não”. Diz “é o melhor”. E, quando percebe, existe uma distância entre aquilo que você construiu e aquilo que você era. Não houve uma explosão. Não houve música triste. Ninguém percebeu. Foi acontecendo. Depois que sangra, seca. O problema é que a pele fica diferente. Talvez algumas coisas tenham morrido em mim em dias que eu achei que tinha apenas perdido. Uma relação. Uma amizade. Uma possibilidade. Uma versão de mim. Aquilo não me matou. Mas algo naquele dia morreu em mim. Demorei para entender. Ou talvez ainda não tenha entendido. A diferença entre amadurecer e se acostumar é uma das perguntas que continuam me perseguindo. Porque existe gente madura. E existe gente apenas cansada. Existe gente tranquila. E existe gente que desistiu de discutir com a própria vida. Existe gente que aprendeu a viver. E existe gente que aprendeu a não reclamar. Às vezes eu não sei em qual grupo estou. Talvez nos dois. Continuei rodando. O vento batia no capacete e levava embora qualquer possibilidade de pensamento organizado. Foi bom. Minha cabeça sempre foi um lugar pouco recomendável. Sou de carne, osso e uma confusão de pensamentos. Nunca fui exatamente uma pessoa simples. Durante muito tempo achei que isso fosse um defeito. Hoje já não sei. Talvez a simplicidade seja apenas uma forma eficiente de esconder aquilo que não conseguimos compreender. Eu sempre vou ser uma confusão. Não digo isso com orgulho. Também não digo com vergonha. É apenas um diagnóstico sem médico. No fim da tarde, parei perto de uma praia pequena. Não havia quase ninguém. Tirei o capacete e sentei num banco. O mar fazia aquele trabalho antigo de ir e voltar sem precisar justificar nada. Pensei que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando resolver a minha vida. Talvez a amnésia resolvesse o problema. Esquecer algumas coisas. Esquecer algumas pessoas. Esquecer certas versões de mim. Mas logo percebi que seria inútil. Porque não é o passado que continua nos perseguindo. Somos nós que continuamos voltando até ele. Voltei para a moto. Ainda não sabia para onde iria dormir. Também não sabia o que faria no dia seguinte. Pela primeira vez em muito tempo, isso não pareceu uma ameaça. Talvez porque eu tenha finalmente entendido que planejar tudo não me protegeu de nada. Tudo correu como eu não planejei. E, apesar disso, cheguei até aqui. Não é uma vitória. Também não é uma derrota. É apenas o lugar onde estou. A estrada continuava pela costa. Eu podia seguir. Podia parar. Podia voltar. Não havia placa dizendo qual das três opções seria a mais correta. Ainda bem. Passei anos demais obedecendo placas. Naquela noite, enquanto o céu escurecia sobre o mar, pensei numa frase que não parecia minha, embora viesse de dentro: eu me quero de volta. Não o homem que fui. Isso seria impossível. Quero de volta alguma coisa que existia antes de eu começar a negociar comigo mesmo. Antes de transformar desejo em obrigação. Antes de confundir responsabilidade com abandono. Antes de aprender a dizer “é assim mesmo”. Talvez viver seja justamente isso. Perder algumas versões de si. Encontrar outras. E, de vez em quando, reconhecer uma antiga no acostamento. Parar. Olhar. Não tentar trazê-la de volta. Apenas agradecer. Depois subir na moto e continuar. Porque existir é pouco. É preciso viver. Mesmo sem saber exatamente como. Mesmo carregando perguntas. Mesmo fazendo errado. Mesmo descobrindo tarde demais que algumas respostas não estavam na estrada, na cidade, nas pessoas ou nos lugares para onde fugimos. Estavam naquilo que a gente evitou olhar enquanto ainda tinha tempo. O motor pegou na primeira tentativa. Pus o capacete. Acelerei. Vamos, vida. Me surpreenda. Dessa vez eu não vou exigir que você faça sentido.