Frase de Raimundo grossi
28- Cronica , Ética nesse país tupiniquim? Num país onde o ano começa depois do Carnaval, às vezes a campanha começa antes da eleição e ninguém percebe direito quando uma coisa vira a outra. Estamos em ano eleitoral. E o presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, será candidato à reeleição. Até aí, nada fora da regra do jogo democrático. A Constituição permite, o eleitor decide, a urna confirma ou rejeita. Mas eis que surge a avenida. Holofotes, bateria, samba-enredo, emoção. Uma escola decide homenagear o presidente justamente no ano em que ele busca continuar no cargo. E há recursos públicos envolvidos no espetáculo cultural. É ético? A democracia garante liberdade artística. O Carnaval sempre foi palco de crítica, de exaltação, de memória histórica. Proibir uma homenagem seria censura e censura não combina com democracia. Arte não deve pedir autorização ideológica. Mas a ética pública não vive só daquilo que é permitido. Vive também daquilo que é apropriado. Quando o homenageado é também candidato, quando há dinheiro público circulando e quando milhões assistem pela televisão, a pergunta muda de tom. Não é mais apenas sobre cultura. É sobre equilíbrio. Sobre a linha fina que separa celebração cultural de promoção indireta. Talvez a questão não seja se é legal , pode até ser. A questão é se é prudente. A democracia não se enfraquece por causa de um samba. Ela se enfraquece quando a confiança se desgasta. E confiança pública exige não apenas cumprir a lei, mas evitar qualquer sombra de privilégio. No fim, quem decide é o eleitor. Mas a ética, essa não espera a apuração dos votos. Ela se revela nas escolhas feitas antes mesmo da bateria começar a tocar.  R.Grossi
No pensador.ai desde