Frase de Clarice Lispector
A mágoa Os telhados sujos a sobrevoar Arrastas no vôo a asa partida Acima da igreja as ondas do sino Te rejeitam ofegante na areia O abraço não podes mais suportar Amor estreita asa doente Sais gritando pelos ares em horror Sangue escoa pelos chaminés. Foge foge para o espanto da solidão Pousa na rocha Estende o ser ferido que em teu corpo se aninhou, Tua asa mais inocente foi atingida Mas a Cidade te fascina. Insiste lúgubre em brancura Carregando o que se tornou mais precioso. Voas sobre os tetos em ronda de urubu Asa pesa pálida na noite descida Em pálido pavor Sobrevoas persistente a Cidade Fortificada escurecida Capela ponte cemitério loja fechada Parque morto floresta adormecida, Folha de jornal voa em rua esquecida. Que silêncio na torre quadrada. Espreitas a fortaleza inalcançada. Não desças Não finjas que não dói mais Inútil negar asa partida. Arcanjo abatido, não tens onde pousar. Foge, assombro, inda é tempo, Desdobra em esforço a sua medida Mergulha tua asa no ar.
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Fonte e informações de autoria
Pensador.com | Fonte: Diário de São Paulo, 5 jan. 1947. In: Moser, Benjamin. A Newly Discovered Poem By Clarice Lispector. Revista de Literatura Brasileira, n. 36, p. 37-46, ano 20, 2007. | Nota de autoria: Nota: Esse é um dos dois únicos poemas que foram publicados em vida por Clarice Lispector. Esse poema também tem uma versão em prosa publicado em “A descoberta do mundo” com o título A mágoa mortal. O outro poema publicado em vida pela autora é Descobri o meu país.
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