Frase de Diomede Bertino J.Lampião
África Não Se Morre Em África, não se morre. Não porque os corpos não tombem. Não porque os cemitérios estejam vazios. Mas porque nunca aceitamos a morte como um fim natural — aceitamos apenas como erro, injustiça ou conspiração. Entre nós, ninguém morre simplesmente. Se a doença vence, houve feitiço. Se o acidente acontece, houve inveja. Se a idade chega, houve abandono. Se o coração para durante o sono, houve mistério. Em África, a morte nunca é destino — é sempre julgamento. Recusamo-nos a aceitar que a vida tem prazo. Precisamos de culpados porque admitir o destino seria reconhecer a nossa impotência diante do inevitável. Preferimos acusar o vizinho, o médico, o parente, o sistema, o invisível… qualquer coisa, menos o facto de que nascer já é começar a morrer. Mas e se a morte não for tragédia? E se for apenas cumprimento? Acredito que cada existência já carrega consigo o seu ponto final. O dia, a hora, o lugar — traçados num mapa invisível. Pode-se fugir de um país, mudar de continente, esconder-se na tecnologia ou na medicina mais avançada. Se o destino escreveu Moçambique, será Moçambique. Se escreveu doença, será doença. Se escreveu silêncio durante o sono, será silêncio. A morte não consulta opinião. Ela não debate cultura. Ela não negocia crenças. Talvez o verdadeiro drama não seja morrer, mas aceitar que não temos controlo absoluto sobre o fim. E essa é a ferida do ser humano: queremos ser eternos num corpo que nasceu com data de validade. Chamamos de feitiço o que não compreendemos. Chamamos de injustiça o que não controlamos. Chamamos de culpa aquilo que é condição humana. Em África, não se morre — porque não permitimos que a morte seja apenas morte. Transformamo-la em tribunal, em mistério, em acusação. Mas a verdade permanece nua: nascemos e morreremos. E talvez a sabedoria não esteja em procurar culpados, mas em viver com consciência de que cada respiração é provisória. A morte é um ladrão, sim — mas não porque rouba. É porque nos lembra que nunca fomos donos de nada.
No pensador.ai desde