Frase de Nivea Almeida
MALDITA SEJA! Depois de um dia cansativo, eu já estava deitada. Senti a presença dela, meus olhos estatelados. Ela, não sei como, conseguiu as chaves das minhas portas. Eu já não aguentava mais trocar os cadeados e os segredos. Andou visguenta e ardilosa até a beira da minha cama… Eu não podia acreditar naquela visita, já madrugada. Sentou-se na beirada, esticou sua mão e tocou meu corpo. Estremeci, sentindo o seu toque aveludado e perturbador. Ela fazia a minha cabeça girar, abarrotada de pensamentos. Virei para o outro lado tentando ignorá-la. Ela, não se dando por vencida, aproximou-se ainda mais. Deitou-se ao meu lado e abraçou-me com toda força. Quase sufocou-me com os seus longos braços e pernas. Imobilizada, mal conseguia raciocinar; sentia o hálito quente. Rememorei os remédios que tomei para livrar-me dela. Com todo o esforço, consegui me mexer: tudo doía. De um lado, para outro, e ela ali, feito parasita. Alcancei o controle e liguei o televisor. Ela queria atenção e começou a pular na frente da tela. Levantei-me atordoada e circulei pelos espaços. Ela ao meu lado, matreira, imitava os meus passos… Abri a geladeira, peguei algo branco para beber. E ela ali, sorrisinho sarcástico, não queria ir embora. Decidi fazer funcionar o chuveiro na água morna. Despi a minha roupa e senti aquela líquida carícia.. Ela avizinhou-se na porta de vidro e espreitou-me. Então, trajei uma roupa bem mais confortável… Toquei os lençóis do leito para ver se ela postulava. Acendi um incenso forte para ver se ela enjoava. Peguei o celular e ela, egoísta, o derrubou no chão. O meu corpo pequeno e moído, eu não consegui mais lutar. Asfixiada, abri todas as janelas para entrar o ar… Mas ela sacudia as cortinas, sem parar, sem parar… Abri um livro grosso, história fastienta, letras bem miúdas. E ela se acomodou pegajosa no meu colo para ler junto. Já era tão tarde, e eu tão cansada, madrugada adentro… Eu não poderia ceder aos seus desencantos. Tentei concentrar-me nos sons das ruas… Ela sibilava. Liguei uma música baixinho, e ela tamborilou forte os dedos. Eu quis morrer só um pouquinho naquele momento… Juntei as forças que eu tinha e a joguei contra a parede! Mas ela se levantou imperiosa como se nada tivesse acontecido. Olhei para a janela e o sol, mansinho, já dizia “bom dia”. E ela foi-se arrastando, de volta às profundezas das trevas… Chorei, debatendo-me, abraçada aos travesseiros. Gritei com todos os meus pulmões: MALDITA SEJA! – Vá embora da minha vida, maldita INSÔNIA!
No pensador.ai desde