Frase de Nerisírley Barreira do Nascimento
Minha gafe com o fedorento. Eu fui à minha médica fazer aquela bateria de exames. Do tipo que se você puder, todo ano, deixa para o dia 29 de fevereiro. *** Chego em casa e a secretária dela me liga para avisar que eu tinha que passar lá novamente, pois minha querida médica havia errado um pedido. *** _ Ahhh! Como é bom ir ao médico! Na minha cidade então... nem se fala. O que não falta em Goiânia é sombra e estacionamento. *** Lá vou eu. Cruzo a cidade. Acho uma vaga. Estaciono com uns 36 graus Celsius do Cerrado, com a umidade relativa, agradável, de 10% e ando até a clínica. *** Adentrando-a, me deparo com vários pacientes de cara de “jurubeba na conserva”. *** _ É! Quem fica de bom humor indo ao médico? Tudo bem! _ Pensei comigo mesma. *** Avistei o balcão da recepção. Todas as atendentes digitando com uma “cara amarrada” e um moço todo vestido de branco, do lado de fora, escrevendo algo num papel sobre o granito. Mas, de repente, ao me aproximar... eu que tenho um enorme desvio de septo e nunca quis operar... por isso, quase não sinto cheiros. Senti um imenso odor! Uma mistura de ácido com enxofre, carne em putrefação e mais, algo indescritível, que ardeu no meu nariz. *** _ O que é isso meninas? Vocês despejaram o quê para limpar esta clínica? Eu sou arquiteta hospitalar. Mas nunca vi um produto feder mais que o formol! _ Foi no automático. Não deu para pensar. E falei no mais e preciso, tom de voz: Alto! *** Aí o moço do balcão olhou pra mim. Sorriu e respondeu tranquilamente: _ Sou eu! *** Eu olhei para aquele rapaz que parecia um galã de novela. Todo doce. Com um amável sorriso nos lábios. De cima abaixo: *** _ Que é isso garoto! Ninguém fede assim! _ E isso eu falei tampando o nariz. E ele calmamente: _ Eu fedo sim. _ Como? _ Eu sou químico de um curtume. O cheiro fica em mim. _ Ahhh! _ Isso explicava o indescritível. *** Nisso os pacientes abriram os semblantes. As secretárias tiveram coragem de abrir as janelas. Porque ar-condicionado não faz milagres. E aquele, era um caso de milagre! Outros pacientes começaram a rir quando uma criança falou: _ Eu não disse mamãe? Que ele fedia! *** Todos começaram a ser honestos com a situação. E eu com o nariz tampado com o indicador. Vi a aliança no dedo anular esquerdo dele: _ Mas e a sua esposa? Ela também trabalha lá? _ Não ela é a farmacêutica de uma indústria de cosméticos, principalmente perfumes. _ Ah. Que bom! Então equilibra. _Não sei o porquê, mas continuava num tom alto. Acho que o “cheirinho” já tinha afetado o meu cérebro. _ Mais ou menos. Ela só me deixa entrar pelo elevador de serviço e tenho que tomar um banho no banheiro de empregada antes de entrar em casa. _ Bom. Pense pelo lado bom. Pelo menos você pode dizer a ela, que ganhou um marido limpinho! _ Nada. Ela me faz experimentar um perfume novo quase toda a semana. _ É. Cada profissão tem seus “ossos”. Que bom que vocês dão um jeitinho nesse “probleminha”. _ É. Você tem razão. _ Sorriu e despediu-se. Louvado seja o Senhor, não esticou a mão para me cumprimentar. Que alívio! Vai que “aquilo” pega. *** Foi só ele sair e todas as balconistas riram. E falaram mal, dele é lógico, de mim, por delicadeza devem ter deixado para depois. *** Quando eu cheguei em casa... notei o tamanho da minha gafe. Mas o que mais me impressionou foi a espontaneidade que eu e ele conduzimos a conversa. E o quanto todos naquele ambiente estavam incomodados, mas não tiveram se quer a coragem de abrir uma janela. É impressionante o quanto o ser humano é inseguro... ou hipócrita. Ou os dois! Vai que um leva ao outro? Será?
Nerisírley Barreira do Nascimento
No pensador.ai desde