Frase de JMRM.
A minha história dr A luz da manhã entrava pela fresta da cortina,da sua casa, mas para Heitor, o sol parecia um intruso. Era muito cedo ainda. No fim da tarde ele foi para a festa junina que tinha na escola onde ele estudava, colégio Rocha Marmo Ele de repente, saiu da festa, ainda ia ter a quadrilha, festa junina. Ele sai e vai a direção de sua casa, mecanicamente. E de repente na calçada , próximo da sua casa, uma menina veio rodopiando, e trombou com ele, os dois ficaram caído no chão, ele com cabelo cheio com topete, com um olhar, olha para ela... Vou o tempo voou, e chagamos nessa história. *Minha história doutor* O delegado acendeu um cigarro, a fumaça subindo lenta como a névoa daquela tarde de 1980. Diante dele, o homem de mãos trêmulas começou a desenhar o passado no ar. — Tudo começou com um rodopio, doutor. Eu era jovem, a música do Elvis e Beatles ecoava em cada esquina, e eu vinha do meu colégio e ela veio girando pela calçada Foi quando ela trombou em mim e eu nela. Maria. O olhar dela me paralisou, foi um relâmpago em céu aberto. Mas o destino é um roteirista cruel. O tempo passou e ela se casou com outro. Um homem que a comprava com joias, caixas de bombons finos e promessas de seda. Eu virei apenas uma lembrança de calçada. Anos depois, o reencontro. O rosto dela estava marcado pelo tempo, os cabelos, antes longos e castanhos, agora curtos e grisalhos. Ela me olhou com medo e perguntou: "Você ainda me ama? Não sou mais aquela menina." Eu respondi com a alma: "Maria, eu te amaria sem braços, sem pernas. Eu te amo de qualquer jeito, em qualquer carcaça que a vida te der." Nós nos demos uma chance. Mas o drama, doutor, gosta de se esconder nos detalhes. Uma amiga dela pediu um presente... um desses brinquedos, um "coelhinho" para prazer solitário. Eu aceitei, achei que era apenas curiosidade feminina. Mas a amiga começou a cercar, a enviar mensagens, a simular uma intimidade que me dava calafrios. Eu avisei Maria. Ela ria, dizia que eu era louco: "Eu gosto de homem, meu amor. Não gosto de mulher. Nunca tive um homem que me satisfizesse como você, seu corpo é o meu porto." Eu acreditei. Eu a amava com a força de um furacão. Até que o silêncio da casa se tornou pesado. Eu descobri a verdade, doutor. Ela cedeu. Deitou-se com a amiga. Trocaram beijos de línguas, segredos que eram só meus. Ali, meu orgulho de homem ruiu. Se fosse um outro homem, eu entenderia... o coração é terra de ninguém. Mas ser trocado por uma mulher? Ser traído por quem dizia que eu era o único? O perdão morreu ali. O amor, que era construção, virou demolição. Essa é a minha história,dr delegado. Eu a amei tanto que não sobrou nada de mim. Por isso eu matei a Maria. Matei o único amor da minha vida porque não suportei ver que o nosso "pra sempre" tinha sido entregue a mãos que eu nunca imaginei. O homem baixou a cabeça, o silêncio na delegacia era agora o único som que restava de um filme que terminou em tragédia. Segundo ato. O silêncio na sala de visitas da prisão era cortante, interrompido apenas pelo som do ferrolho da porta. O homem, agora apenas uma sombra do jovem que foi rodopiando ,nos anos 60, olhou para o nada e começou seu último monólogo, como se as paredes fossem o júri que ele nunca teve. Sabe, doutor... o que dói não é a grade. É o eco daquele rodopio na calçada que não para de tocar na minha cabeça. Eu disse a ela que a amaria de qualquer jeito. E era verdade. Eu amei as rugas que o tempo desenhou nela, amei o cansaço nos olhos dela. Eu teria sido o cajado dela até o fim. Mas o amor tem uma face sombria. Ele te dá uma visão perfeita de tudo o que você está perdendo. Quando vi o brilho daquele "presente" entre ela e a amiga, eu vi o meu lugar sendo apagado. Aquelas mensagens não eram brincadeira, eram o roteiro da minha substituição. Ela me dizia que meu corpo era o único, que o prazer comigo era insuperável... e depois limpava o batom de outra boca antes de me beijar. Se fosse um homem, eu lutaria. Mas contra o que elas tinham, eu não tinha armas. Era um mundo onde eu não podia entrar. O golpe não foi na minha carne, foi na minha alma de homem, de provedor de afetos. Eu não matei a Maria por ódio. Matei porque o amor que eu sentia era um gigante que não cabia mais dentro de um peito traído. No momento em que apertei o gatilho, eu só queria que o tempo voltasse para 1961 Queria que aquele esbarrão na calçada nunca tivesse terminado. Agora, Maria está livre de mim. E eu? Eu estou preso para sempre naquele instante em que ela me olhou e sorriu, antes de o mundo ficar sujo. É um fim de filme ruim, eu sei. Mas em tragédias, doutor, ninguém sai sorrindo quando as luzes se apagam. Ato três o julgamento O juiz ajustou os óculos, o peso da sentença pendurado no ar espesso do tribunal. O som do martelo batendo na madeira ecoou como o tiro que encerrou a vida de Maria. Réu confesso proclamou o juiz. Condenado pela lei, mas sentenciado pela própria memória. As luzes do tribunal começaram a apagar, e a cena cortou para a cela fria. O homem estava sentado no canto, os olhos fixos em um feixe de luz que entrava pela grade. A Imagem Final: A câmera foca no rosto dele, envelhecido e sem brilho. Lentamente, o som ambiente da prisão desaparece, sendo substituído por uma música suave de rádio dos anos 60. O preto e branco da cela começa a ganhar uma cor vibrante, granulada, como um filme antigo de 16mm. Vemos a calçada de 1961 novamente. A jovem, cheio de vida, vem rodopiando. Ela esbarra em mim. Ela ri, ajeita o vestido e o olha com aquela promessa de eternidade nos olhos. Eles dão as mãos e caminham em direção ao sol poente, desaparecendo na luz. A imagem volta para o presente: o homem na cela fecha os olhos, tentando segurar aquela visão. Uma lágrima solitária escorre. A tela escurece totalmente. FIM Autor desconhecido.
No pensador.ai desde