Frase de Marcelo Caetano Monteiro
O BEM E O MAL - SEGUNDO O LIVRO DOS ESPÍRITOS. A LEI DIVINA COMO GUIA DA CONSCIÊNCIA HUMANA ( 621 L.E. ) Marcelo Caetano Monteiro. No estudo da moral espírita, Allan Kardec dedica especial atenção à compreensão do bem e do mal. As questões 629 a 646 de O Livro dos Espíritos apresentam uma profunda análise filosófica e espiritual sobre a origem das escolhas humanas, a responsabilidade do Espírito e o papel da inteligência no discernimento moral. Para o Espiritismo, o bem e o mal não são forças independentes ou princípios eternos em oposição. Existe uma única soberania: Deus, princípio supremo de justiça, amor e sabedoria. O mal surge como consequência do afastamento voluntário do Espírito em relação às leis divinas. A MORAL COMO REGRA DE CONDUTA. Na questão 629, Kardec pergunta: “Que definição se pode dar da moral?” Os Espíritos respondem: “A moral é a regra para bem se conduzir, isto é, a distinção entre o bem e o mal.” A moral, portanto, não é uma simples convenção humana ou um conjunto de costumes passageiros. Ela está fundamentada na lei de Deus, inscrita na consciência do Espírito. O homem age moralmente quando compreende que sua existência não está isolada, mas ligada ao bem coletivo. Fazer o bem significa harmonizar-se com a ordem divina. COMO DISTINGUIR O BEM DO MAL. Na questão 630, encontramos uma definição essencial: “O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus, o mal tudo o que dela se afasta.” A distinção entre bem e mal não depende apenas das opiniões humanas, pois a criatura pode equivocar-se segundo seus interesses, paixões ou limitações intelectuais. Deus concedeu ao Espírito a inteligência justamente para que ele desenvolva o discernimento. Conforme esclarece a questão 631, o homem possui os meios de distinguir o bem do mal quando busca compreender a vontade divina. A consciência é o instrumento interior dessa orientação. A REGRA DE JESUS: A RECIPROCIDADE. Na questão 632, Kardec questiona como evitar o erro na avaliação do bem e do mal. A resposta dos Espíritos recorda o ensinamento de Jesus: “Vede o que quereríeis que vos fizessem ou não vos fizessem: eis tudo.” Essa é a lei da reciprocidade, fundamento da convivência moral. O homem compreende o bem quando consegue colocar-se no lugar do semelhante. A pergunta essencial para nossas atitudes deve ser: Eu aceitaria receber do outro aquilo que estou oferecendo? O LIMITE DAS NECESSIDADES HUMANAS. A questão 633 apresenta um ensinamento de grande profundidade: “A lei natural traça para o homem o limite de suas necessidades; quando ele o ultrapassa, é punido pelo sofrimento.” O sofrimento, muitas vezes, não representa uma punição arbitrária de Deus, mas a consequência natural do desequilíbrio criado pelo próprio Espírito. O excesso, seja material, emocional ou moral, produz desarmonia. A lei divina estabelece limites porque conhece aquilo que conduz verdadeiramente à felicidade. POR QUE DEUS PERMITE O MAL? A questão 634 trata de uma das maiores indagações humanas: Por que Deus não criou a humanidade em condições perfeitas? A resposta espírita afirma que os Espíritos são criados simples e ignorantes, destinados ao progresso através das experiências e escolhas. A perfeição adquirida pelo próprio esforço possui valor superior à perfeição recebida sem participação. O Espírito aprende a valorizar o bem porque desenvolve, gradualmente, sua consciência. A RESPONSABILIDADE É PROPORCIONAL AO CONHECIMENTO. Na questão 637, Kardec pergunta sobre a responsabilidade daquele que pratica o mal sem compreender plenamente seus atos. Os Espíritos esclarecem: “O homem é mais culpável à medida que sabe melhor o que faz.” O Espiritismo ensina que a responsabilidade moral acompanha o desenvolvimento intelectual e espiritual. Quanto maior a compreensão, maior o dever. Um erro cometido pela ignorância não possui a mesma gravidade de uma falta praticada conscientemente contra aquilo que já se conhece como correto. O MAL E O LIVRE-ARBÍTRIO. Um dos pontos centrais do capítulo está na afirmação de que o homem possui liberdade de escolha. Deus não criou seres destinados obrigatoriamente ao bem, pois isso eliminaria o mérito da conquista moral. A evolução espiritual ocorre justamente porque o Espírito aprende a escolher o bem por vontade própria. O livre-arbítrio é uma das maiores dádivas concedidas ao ser humano, mas também traz consigo a responsabilidade pelas consequências das escolhas realizadas. NÃO BASTA EVITAR O MAL. Na questão 642, Kardec pergunta: “Basta não fazer o mal para ser agradável a Deus?” A resposta é clara: “Não, é preciso fazer o bem no limite de suas forças.” A moral espírita não é apenas negativa — não prejudicar, não ferir, não cometer erros. Ela é essencialmente ativa: auxiliar; compreender; servir; amparar; contribuir para o progresso do semelhante. O bem que deixamos de realizar quando temos condições de fazê-lo também representa uma responsabilidade. TODO SER HUMANO PODE FAZER O BEM. Na questão 643, os Espíritos afirmam: “Não há ninguém que não possa fazer o bem.” O bem não depende exclusivamente de grandes realizações. Ele está nas pequenas atitudes diárias: uma palavra consoladora; uma atitude de paciência; um gesto de fraternidade; uma ajuda silenciosa. A oportunidade de praticar o bem acompanha todos os caminhos da existência. CONCLUSÃO. As questões 629 a 646 de O Livro dos Espíritos apresentam uma visão elevada da moral humana. O bem é a harmonia com a lei divina. O mal é o afastamento dessa lei pelo uso equivocado do livre-arbítrio. Deus não criou o mal; criou Espíritos capazes de aprender, escolher e evoluir. A caminhada espiritual é justamente a transformação gradual da ignorância em sabedoria, do egoísmo em amor e das imperfeições em virtudes. Como ensina a Doutrina Espírita, o destino do Espírito é o progresso. E esse progresso acontece quando a criatura, iluminada pela consciência, escolhe conscientemente o caminho do bem. Referência principal: KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira — Das Leis Morais. Capítulo I — Da Lei Divina ou Natural. Questões 629 a 646. Paris, 1857.
Publicada em
Fonte e informações de autoria
Pensador.com
Abrir fonte original (abre em nova aba)