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Frase de IvoMattos

O meu eu de 1975 Tenho vários “eus” dentro de mim. Gosto de todos eles. Cada um viveu seu tempo, enfrentou suas dificuldades, teve seus sonhos, seus medos e suas escolhas. Mas existe um que é especial. Ele nasceu em 1975. Foi assim. Eu trabalhava como vendedor externo em uma empresa de materiais elétricos. Visitava empresas de grande porte na região de Guarulhos e, naquela manhã, estava na antessala do comprador da Philco, aguardando para ser atendido. Havia outros vendedores esperando também. Por curiosidade, comecei a mexer em um rádio que estava fixado em um painel de demonstração dos produtos Philco. Não estava exatamente olhando para ele. Estava tentando ligá-lo. E não conseguia. Foi quando um dos vendedores que estavam ali se aproximou, apertou alguma coisa e o rádio funcionou. Ele olhou para mim e disse: — Demorei para aprender. Outro dia fiquei um tempão tentando ligar. Fui mexendo nele até ele funcionar. Rimos. Como o comprador estava demorando para nos atender, começamos a conversar. Foi uma conversa simples, dessas que normalmente começam e terminam ali mesmo. Mas aquela conversa mudou a minha vida. Ele trabalhava em uma empresa de Belo Horizonte, uma multinacional do setor energético, dividida em vários segmentos de produtos elétricos. Em um deles, estavam procurando uma pessoa para uma determinada função. Ele perguntou se eu não gostaria de tentar. Eu era jovem e solteiro, dois requisitos importantes para o trabalho, principalmente porque seria necessário viajar muito. Ele não poderia assumir a função porque era casado. Fiquei interessado naquele “projeto”, mesmo sem saber exatamente do que se tratava. Ele pediu que eu passasse no dia seguinte pela filial de São Paulo, onde me explicaria melhor. Marcamos. Foi então que descobri que aquela multinacional fabricava ferramentas especiais para trabalhos em redes elétricas de alta tensão. Eram ferramentas fabricadas em fibra de vidro que permitiam ao eletricista trabalhar com a rede energizada, sem precisar desligar o sistema. Para explicar melhor, ele fez uma comparação: — É como se você estivesse tomando banho e precisasse trocar a resistência do chuveiro sem desligar a energia da casa. Achei aquilo meio loucura. Mas minha vontade era maior do que minhas dúvidas. Talvez eu já fosse assim naquela época. Tem pessoas que nascem como postes: ficam sempre no mesmo lugar. Outras nascem como vento. Eu nasci vento. Não paro. Nunca. Na semana seguinte, eu estava em Belo Horizonte para uma reunião com o presidente e o vice-presidente da empresa. A entrevista foi objetiva. Fiz o psicotécnico, acertamos a parte financeira e, quinze dias depois, lá estava eu mudando para Belo Horizonte. Comecei estudando o material técnico. Pela manhã, lia e estudava. À tarde, tinha contato direto com as ferramentas. Eram inúmeras. A técnica de trabalho em linha viva, ou linha energizada, ainda estava começando no Brasil. Nos Estados Unidos e no Canadá também era uma tecnologia relativamente recente. A empresa possuía um campo de treinamento onde os trabalhos eram simulados. Ali eu treinava todos os dias. Montava as ferramentas. Desmontava. Subia nos postes. Descia. Montava novamente. E começava tudo outra vez. Durante aproximadamente noventa dias fiquei naquele ritual. Até que chegou o momento de sair do treinamento e enfrentar a realidade. A empresa possuía um técnico que havia sido treinado pelos americanos. Ele seria responsável pela entrega das primeiras ferramentas vendidas no Brasil e também ministraria o treinamento aos eletricistas. Agora seria de verdade. Era junho de 1975. A primeira operação aconteceu na Celpe — Centrais Elétricas de Pernambuco. As ferramentas haviam sido adquiridas para trabalhos em uma linha de 69.000 volts. Durante aproximadamente um mês, quase todos os dias, subíamos e descíamos das estruturas, trabalhando com a rede energizada. Depois fomos para Curitiba, para a Copel. Agora a tensão era de 230.000 volts. Mais um mês de treinamento. Na sequência, fomos para Paulo Afonso. Ali o desafio era ainda maior. A tensão da rede chegava a 500.000 volts. Nessa operação, a empresa americana enviou um técnico para ministrar um treinamento chamado bare hand — trabalho com contato direto do eletricista com a rede energizada. Quanto maior a tensão, maiores são as distâncias necessárias entre os componentes que isolam os cabos da torre. Chega um momento em que o eletricista precisa ser conectado ao próprio potencial da rede, no ponto energizado, para realizar determinados serviços. Para isso, utilizava-se uma roupa especial, extremamente condutiva, além de uma plataforma isolante que permitia levar o eletricista até o ponto de trabalho. Era uma tecnologia que, para mim, parecia quase inacreditável. Hoje, trabalhos desse tipo também podem ser realizados com o auxílio de helicópteros. Depois de todo aquele período de treinamento, começamos a ministrar cursos para outras empresas. Passei a atender São Paulo, trabalhando principalmente com a Cesp, a Eletropaulo e a CPFL. Meu amigo ficou responsável pelo Norte e Nordeste. Como aquela tecnologia era uma novidade no Brasil, algumas escolas de engenharia nos convidavam para fazer apresentações aos alunos e explicar aquela nova maneira de trabalhar com redes energizadas. Aquela atividade acabou se tornando muito mais do que um emprego. Era uma profissão. Era uma especialidade. E, de certa maneira, era uma parte da minha identidade. Depois de alguns anos, meu instrutor abriu sua própria empresa e eu passei a atender também os clientes do Norte e Nordeste. Foi quando comecei a perceber que estava sobrecarregado. Eu já era casado. E quase não parava em casa. Vivia dentro de aviões. Às vezes ficava quinze, vinte dias fora. Até que surgiu um convite irrecusável. Uma empresa de São Paulo havia se associado a uma empresa americana, concorrente daquela onde eu trabalhava, e me fez uma proposta. O salário e a possibilidade de voltar a morar em São Paulo pesaram muito na minha decisão. Aceitei. Não foi fácil deixar a empresa que havia mudado a minha vida. Foi ali que eu havia aprendido uma profissão que jamais imaginara existir. Foi ali que conheci a linha viva e descobri um caminho profissional que me levaria a lugares que eu nunca tinha imaginado. Mas não havia outro jeito. Fui admitido na nova empresa. Comecei fazendo aquilo que sabia fazer: divulgando a tecnologia, visitando clientes e trabalhando com as empresas que já conhecia. Parecia que começava uma nova etapa. Mas seis meses depois aconteceu algo que eu não esperava. A empresa americana que era sócia da empresa onde eu havia acabado de ingressar comprou a parte brasileira. Mais uma vez, minha vida profissional mudou de direção. Pedi demissão. E recomecei. Hoje, quando olho para trás, percebo que aquele rapaz que, numa manhã qualquer, estava tentando ligar um rádio na antessala de um comprador da Philco não fazia ideia do que aquela conversa iria provocar. Ele só estava esperando ser atendido. E, enquanto esperava, a vida apareceu. Foi assim que nasceu o meu eu de 1975.

IvoMattos

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Pensador.com

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A velha árvore Tombou a velha árvore. A Mãe Natureza preparou a grama macia para recebê-la.
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A velha árvore Tombou a velha árvore. A Mãe Natureza preparou a grama macia para recebê-la. O tempo não ceifou seus galhos. Deixou que tombasse com seu orgulho de nascença. Tombou a velha árvore na madrugada. Silenciosa. Não fez barulho algum. Comportou-se orgulhosa, com todas as suas lembranças, e foi deslizando devagar. Levou consigo as memórias de suas sementes, que agora levarão seu cerne para sempre. Tombou a velha árvore. Mas suas sementes ficaram.

O Grito Era uma fazenda basicamente de gado. Muito gado. Vez ou outra, era necessário mudar aqueles animais de pasto. À medida que o capim ia escasseando, chegava a hora da mudança, o que exigia toda uma preparação: homens, cavalos, cachorros etc. A labuta começava cedo, nas pr…
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O Grito Era uma fazenda basicamente de gado. Muito gado. Vez ou outra, era necessário mudar aqueles animais de pasto. À medida que o capim ia escasseando, chegava a hora da mudança, o que exigia toda uma preparação: homens, cavalos, cachorros etc. A labuta começava cedo, nas primeiras horas da manhã, e demandava, às vezes, o dia todo e parte da noite. Em quase todas elas, lá estava eu: eu, meu cavalo e meu cachorro, de nome Gigante. Numa dessas mudanças de pasto, aconteceu um incidente meio misterioso. Eu sempre era convocado para ficar na frente da boiada, e eu até gostava; sentia-me importante. Meu serviço, basicamente, se resumia a ir abrindo as porteiras dos pastos. Naquele dia, o trabalho para reunir o gado demorou mais do que o normal. Quando conseguimos colocar a boiada na estrada, já estava escurecendo, e ainda havia um bom pedaço de caminho até o outro pasto. Abri a primeira porteira e o gado foi me seguindo. Depois de uma hora, mais ou menos, de estrada, umas cinco ou seis porteiras abertas, já com a noite fechada, ouvi o primeiro grito. Um grito de arrepiar, estridente. Achei que fosse meu cunhado com suas brincadeiras, mas não era. Fui olhando para trás: não dava para ver quase nada, apenas as cabeças dos animais. E, para piorar, estava chovendo, com direito a trovões e quedas de raios. Depois de um silêncio, ouvindo apenas o barulho das pisadas dos animais, veio outro grito, esse mais próximo. Quando me virei, vi, no meio dos animais, um vulto. Parecia um homem a cavalo. Chamei pelo meu cunhado. Silêncio. Apenas uma risada debochada. Depois que chegamos ao pasto onde os animais ficariam, fiquei aguardando as brincadeiras de todos. Seria normal. Mas nada. Ninguém falou coisa alguma. Eu nunca contei essa passagem para o meu cunhado.

A Melhor Mentira Ainda É a Verdade Nas festividades do início dos anos setenta, acho que em 1972, eu e meu sobrinho estávamos regressando para São Paulo, depois de termos passado as festas em Santa Mariana, quando aconteceu esta história. Naquela época, a rodovia até Avaré era…
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A Melhor Mentira Ainda É a Verdade Nas festividades do início dos anos setenta, acho que em 1972, eu e meu sobrinho estávamos regressando para São Paulo, depois de termos passado as festas em Santa Mariana, quando aconteceu esta história. Naquela época, a rodovia até Avaré era de pista simples. Depois começava a Castelo Branco. Era comum a gente parar no último posto antes da CB para abastecer e fazer um lanche. Naquele dia, ao nosso lado, parou outro Fusca. Dentro dele havia quatro meninas, jovens e muito bonitas. Começamos a jogar conversa fora e, depois de abastecer os carros, paramos num estacionamento ali mesmo no posto e fomos nos apresentando. Um detalhe: no vidro traseiro do Fusca delas, atrás do banco do motorista, havia um papel colado com os nomes das quatro e uma mensagem desejando um feliz Ano-Novo. Quando chegou a minha vez de me apresentar, disse que era estudante de engenharia. Meu sobrinho, estudante de medicina. Elas também foram se apresentando e contando quais cursos faziam, exceto uma delas. Então perguntei: — E você, como se chama? Ela se aproximou do carro e apontou para o papel colado no vidro. — Este é o meu apelido. O problema era que, em vez de um nome, havia um desenho. Uma desgraça de desenho que acabou com a nossa viagem. Era um bicho estranho, completamente desconhecido para nós. Depois de olharmos para o céu, chutarmos umas pedrinhas e fingirmos naturalidade diante daquele constrangimento, fomos nos afastando do carro delas. Antes, porém, tivemos que ouvir as quatro rachando de rir. Pegamos a estrada sem sequer olhar para trás e fomos o resto da viagem tentando descobrir que criatura era aquela. — Será que o apelido dela é Ripinha? — Balaústra? E lá vinham mais alguns palpites absurdos. Passados alguns dias, finalmente descobrimos que aquele desenho nada mais era do que o símbolo do Pi (π). Traduzindo: aquele era o apelido dela. Acho que ela devia se chamar Jupira e não gostava muito do nome. Eu poderia ter contado esta história antes, mas precisava da anuência do Newton Roberto Gobis, meu sobrinho, um sujeito de bem com a vida e de quem gosto muito. Claro que aquelas mentiras — eu estudante de engenharia e ele de medicina — foram apenas uma brincadeira de momento. Mas, diante da situação constrangedora que se criou, nem tivemos tempo de corrigir a burrice. E, para falar a verdade, não teria adiantado nada. Nós simplesmente não sabíamos o significado daquele "bicho". E, talvez, se insistíssemos, a situação ficasse ainda pior.

A Mulher da Mão Grande No segundo ano primário, em 1955, eu estava muito mal na escola. Tinha muitas dificuldades com letras e números. Só notas baixas. Naquela época — não sei se ainda é assim hoje — os alunos tinham que levar o boletim para casa, mostrar para os pais, recolhe…
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A Mulher da Mão Grande No segundo ano primário, em 1955, eu estava muito mal na escola. Tinha muitas dificuldades com letras e números. Só notas baixas. Naquela época — não sei se ainda é assim hoje — os alunos tinham que levar o boletim para casa, mostrar para os pais, recolher a assinatura e devolvê-lo para a professora. Era assim que os pais acompanhavam a vida escolar dos filhos. No meu caso específico, quem cuidava dessa parte era minha irmã. Era ela quem assinava o boletim. Para piorar a situação, trabalhava no Grupo Escolar Carmela Dutra e me controlava no dia a dia também. Num determinado mês, a coisa, que já estava ruim para o meu lado, ficou pior. Meu boletim vermelhou de vez. Aí tive uma ideia brilhante. Transformei tudo que era três em oito. Bem fácil. E os quatro viraram nove. Fácil também. Só que as notas continuaram vermelhas, infelizmente. Esperei minha irmã ficar ocupada com os afazeres da casa e, no momento certo, pedi para ela assinar o boletim. Ela nem percebeu a besteira que eu tinha feito. No dia seguinte, cheguei à classe e coloquei o boletim sobre a mesa da professora. Depois de um tempo, ela me olhou, pegou o boletim e saiu da sala. Voltou acompanhada da diretora e da minha irmã. Fui guinchado, literalmente, pelas orelhas. A diretora de um lado e minha querida irmã do outro. Levaram-me até a sala da diretora. Depois de confessado o crime, veio o veredito. A diretora, uma mulher com a mão maior que a minha cabeça, parecendo um pão caseiro, desferiu um tapa na minha cara com tanta força que, mesmo passados todos esses anos, ainda sinto o impacto da bofetada. As lágrimas molharam o piso da sala. Depois do castigo físico, veio o psicológico: tive que ficar grudado na parede, exposto para que as outras crianças me vissem. Mas existe a lei do retorno. Ou pelo menos eu gosto de acreditar que existe. Meu pai, um homem abrutalhado e pouco dado a conversas com os filhos, vez ou outra contava algumas histórias. A maioria delas era de fantasmas. Naquele momento de sofrimento físico e psicológico, lembrei-me de uma delas. Ele falava de uma "reza brava" que conhecia. Era tão perigosa que não podia ser rezada diante de um espelho. Podia dar um revertério e virar contra quem a rezasse. Segundo ele, aquela oração espantava todos os tipos de assombração: mula-sem-cabeça, Saci-Pererê, Boitatá. Também matava cobra venenosa, curava cachorro louco, amansava cavalo xucro e mais um monte de coisas. Naquele instante, tudo o que eu desejava era saber aquela reza. Queria fulminar aquela mulher da mão grande e, de lambuja, a minha irmã também. Mas o que fazer? Eu não sabia a oração. Meu pai nunca a ensinou aos filhos. Então tentei outras rezas domésticas, improvisadas mesmo, implorando às entidades que castigassem aquela mulher. Nada. Ela entrava e saía da sala, olhava para mim, ria da minha situação e comentava o caso com as outras professoras. E elas riam também. Algumas até diziam que o castigo deveria ter sido maior. O tempo passou. Repeti de ano. E eis que a lei do retorno resolveu trabalhar. Aconteceu uma tragédia na cidade. Os sinos da igreja ficaram mudos. O padre desapareceu. E eu nunca mais vi a mulher da mão grande. A mulher da mão de pão caseiro.