Frase de Tiago Augusto de Figueiredo
LAMENTO, CRIANÇA Trancado neste sótão há um mês inteiro, apenas algumas borboletas celebram o reflexo do sol por aqui. Haja gritarias vindas da minha única janela, a qual só cabe meus olhares, que não posso tirar fotos. Disseram-me que uma tal de guerra começaria, pelo menos eu tenho alguém que olha por mim neste lugar. Acho que vou crescer carregando estas correntes, com pão e água vindos todos os dias pelo buraquinho da porta. Sinto-me um cachorro com dentes espumados, louco para explodir todas coisas que surgem diante de mim. Há muito tempo não ouço a voz dos homens. Há muitos dias minha boca convive com a incerteza da alimentação. Barulho de ferros e mapas jogados, perfazem o cenário e tudo que vejo deste chão. Há muito tempo quero sair daqui e brincar com meus carrinhos, mas os soldados não queriam que eu saísse. Me protegeram, mas estou mais preso que um assassino. E o fim de tudo isso como será, ninguém me disse. Há muito tempo eu choro com os ratos, e nem a lua resolveu surgir pela madrugada. Mas vou esperar o soldado voltar para me libertar daqui, e dizer que toda esta batalha será sanada. Um novo dia e mais um pão será oferecido a mim, mas que estranho, a porta finalmente foi aberta. Um soldado carregando um chocolate. Minha esperança cresceu como uma criança pequena e esperta. Perguntei a ele se tudo havia terminado, finalmente os homens pararam com discussões e batalhas inúteis. Até que enfim conseguiram vencer o respeito, e viverem de maneira a fazer coisas realmente úteis. O soldado abaixou a cabeça e começou a chorar. Deu-me o chocolate, pediu perdão e desfalecido ficou. Olhei para ele e percebi que a guerra realmente teve seu fim, apenas deu tempo de ouvir algo que ele me falou: Lamento, criança, ninguém voltará. Lamento, criança, seu futuro, a humanidade a Deus dará.
No pensador.ai desde