Frase de Rosangela Montano
A Oficina dos Dias Somos retalhos de vivências alinhavados pelo tempo, sem pressa. Cada um carrega no avesso do pano o mapa de uma guerra, o sal de uma promessa. Não nascemos inteiros. Fomos feitos na oficina de perdas e achados. Um pedaço veio do primeiro tombo; outro, do beijo que ficou calado. Buscamos sinais no passado como arqueólogos de nós mesmos. Escavamos a argila da memória para entender o molde do que tememos. E o que achamos? Um baú sem chave, onde o riso dorme ao lado do pranto; onde o nome que não dissemos ainda ecoa num quarto. Reciclamos paixões, sim. Somos mestres em alquimia tardia. Pegamos a cinza de um amor que não vingou e fazemos dela nova poesia. Tiramos do mar do esquecimento náufragos que julgávamos mortos: uma carta, um cheiro, uma música antiga, e o peito vira cais, vira porto. Nos deleitamos com as lembranças não por fraqueza de quem não anda, mas porque toda raiz precisa da água escura que a expande. Guardadas na alma, elas fermentam: são vinho velho em pipa de osso. Quando a vida aperta a garganta, um gole de ontem desfaz o nó grosso. Injetamos vida no que foi com a agulha da insistência. Ressuscitamos instantes banais e os coroamos de transcendência. Porque viver não é linha reta: é espiral que volta e avança. O menino que fomos nos olha e cobra do homem a mesma esperança. Somos feitos de fins que viraram meio, de adeuses que aprenderam a voltar. Cada cicatriz é uma costura onde a luz resolveu morar. E se alguém perguntar do tecido que veste a nossa humanidade, responde: é colcha de mil histórias, remendada com dor, com fé, com saudade. No fim, quando o corpo cansar e a linha da vida se romper, que nos enterrem com essa colcha: pois fomos tudo o que deu para ser.
No pensador.ai desde