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Frase de Demétrio Sena - Magé-RJ.

SALOMÃO NO SÉCULO XXI Demétrio Sena, Magé - RJ. O rei Salomão se recompunha em seu trono, enquanto batia um papo ao celular, com a presidente Dilma, do Brasil. Dilma ensinava a Salomão, algumas espertezas políticas bem mais eficazes do que a sabedoria milenar do grande rei ressurreto. De repente, adentram seu palácio duas mulheres. Ambas indignadas, levavam consigo uma criança recém-nascida. Uma das mulheres a segurava pela cabeça, e outra, pelas pernas. A confusão era porque ambas diziam ser a mãe verdadeira da criança que restou de uma tragédia na qual morrera outra criança, também filha de uma delas. Logo atrás, quatro soldados tentavam conter os ânimos exaltados e ninguém entendia nada por causa do grande volume de palavras proferidas aceleradamente pelas supostas mães. "Já vi esse filme"; pensou o rei, enquanto se recompunha para que ninguém visse as suas partes íntimas sob o roupão de majestade. Salomão ficou calado, mão no queixo, como convém a um grande sábio, e de repente, pareceu também se lembrar do desfecho da história ou do "filme" parecido. Só não recordou que os tempos são outros. Estamos no século XXI. - Soldado! Traga uma espada! Já sei exatamente como resolverei essa questão! Temeroso, ciente das intenções do monarca, e com a certeza de que aquilo não tinha como dar certo, o soldado, mais sábio do que Salomão, tentou adverti-lo da mancada que estava dando, mas não teve sucesso. - Responda uma coisa, soldado! Quem é Salomão aqui? Eu ou você? - O senhor... - Pois então faça o que lhe mando! Corte a criança em duas e divida entre as mulheres! Se ambas dizem que são mães da mesma criança, que se dê um pedaço a cada uma! O soldado levantou a espada. Como não viu nenhuma reação das mulheres, o rei fez sinal para que aguardasse. Olhou profundamente nos olhos de ambas e perguntou, primeiro a uma, depois a outra: - A senhora não diz nada? A primeira não se fez de rogada. Ou melhor; se fez. Também encarou o rei, como se fosse uma rainha, e respondeu solenemente: - O senhor é meu Rei. Seja feita sua vontade. Já um tanto aliviado, e julgando adivinhar o que ouviria da outra mulher, Salomão não pressionou. Esperou com paciência, o quanto pôde, até que a perdeu e disse, asperamente: - Qualé, mulher? Vai ou não vai dizer? Depois de fazer um muxoxo, a segunda se recompôs. Estava meio distraída, mas voltou a si, pareceu se consultar com os seus botões, e disparou: - Olhe, majestade... acho que um pedaço é melhor que nada. Não acreditando no que ouvira, Salomão se "redescompôs": espumou, andou de um lado para outro e fez mil caretas, enquanto o soldado já se cansava de segurar a espada, em posição de carrasco. E foi o soldado quem acabou cobrando uma atitude do rei: - Pô, majestade! O que faço com essa espada! Vai ou não vai dar a ordem? Já estou com câimbra! Um brilho diferente, de satisfação e vingança chegou aos olhos do rei. Ele sorriu em silêncio, deu uma cusparada e reuniu a coragem necessária para mudar o fim do "filme" que já vira: - Certo, soldado! Vá em frente! Corte as duas vacas em quatro!

Demétrio Sena - Magé-RJ.

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SHOW DA FÉ Demétrio Sena, Magé - RJ. A fé que se tem num "Deus", num santo de argila, numa vaca ou numa casca de coco desperta no ser humano a capacidade fantástica de se recompor; se redimir; alcançar graças e às vezes banir doenças. Deus, o santo, a vaca e a casca não podem nada; o mérito é mesmo da fé ou de quem a possui. No entanto, quem a possui não pode se conscientizar disso, pois a fé não vive sem esses ícones reais ou imaginários; imateriais ou concretos. Quem tem fé, tem que tê-la em alguém ou algo, pois ela só se constrói sobre uma base; uma planta; um fundamento. Ter fé não combina com racionalidade à toda prova; com profundo aculturamento e vasta filosofia. Quanto maior a ingenuidade ou a escassês de conhecimento filosófico, intelectual; quanto menor a bagagem cultural ou a sapiência, maior é a chance de uma pessoa obter o que chamamos milagre. Se não creio na menagem central da bíblia, creio nas máximas periféricas como as que tratam das bem aventuranças, no que tange os puros e simples de coração. Eles são bem aventurados, porque têm essa fé que os capacita com a força e a coragem que não vejo nos doutos; nos letrados. Muito menos nos estudiosos e proclamadores da fé. Justamente os que se dedicam por vocação e solidariedade ou por interesses escusos; exploração do próximo. Estes podem suscitar ou promover a fé dos outros, mas não a têm... Pelos menos aquela que "remove montanhas", por ser imensa; do tamanho de um grão de mostarda. Não é na cabeça que a fé habita. Ela mora no coração, e como foi dito, no coração puro. Naquele que sabe crer com todas as forças da sua ingenuidade, até mesmo no desempenho dos falsos "representantes do reino dos céus". Representantes que arrotam como suas, as graças eventualmente alcançadas pelos bem aventurados, por obra e mérito deles próprios... Da sua fé... Não do simples desempenho de quem apenas realiza shows e arrecada cachês da boa, velha e generosa fé pública. Tenho saudades de ter fé. Daquele tempo em que fui sábio, porque não era sabedor. Hoje lamento, embora veladamente, por não ter tido equilíbrio para não deixar que o saber corroesse a sabedoria. Que a cabeça embotasse o coração. Queria pelo menos poder juntar as extremidades, para não ser escravo da crendice nem do ceticismo. Não ser dominado pela ingenuidade cega dos fiéis a todo o custo nem pela intransigência da erudição que também cega. No fundo, creio que fugi de um fanatismo para cair em outro, por ser incapaz de achar o meio termo. Acho que preciso de um "Deus", um santo de argila, uma vaca ou uma casca de coco.