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Frase de Marcelo Caetano Monteiro

⁠Livro: NÃO HÁ ARCO-IRIS NO MEU PORÃO. Capítulo X RÉQUIEM AO SOL, PROMESSA À NOITE. Vultos dançam nas bordas das sombras, evocando os espectros de reminiscências sepultadas sob o lodo da ausência. São murmúrios de passos nunca dados — rastros de uma presença que, mesmo morta, ainda transborda ruína no porão da consciência. Eis que o sol, alquebrado em seu estertor, entoa um réquiem à lua — Não com voz, mas com luz exangue, como se os próprios astros sepultassem o dia em silêncio. Talvez seja nos delírios oníricos que a existência se insinua, ou, quem sabe, nos pesadelos que anunciam dilúvios e ruínas. O vazio que habita estas paredes não é silêncio, é gestação de mundos que jamais nascerão. E mesmo assim, o oco permanece grávido. As sementes são escassas, mas algumas ainda dormitam sob o limo do esquecimento. Foi então que a aparição retornou — Camille Monfort. Não atravessou o espaço como os vivos o fazem. Não caminhava. Movia-se com a gravidade de uma lembrança que nunca soube morrer. Deslizava como as brumas que sangram das frestas de um túmulo mal selado. A atmosfera, diante dela, contraía-se em silêncio espectral. Era presença e lamento. Era epitáfio em forma de mulher. Ela se postou diante do espelho esquecido — aquele onde os reflexos recusam habitar. Ali, não havia imagem, apenas a insinuação de uma ausência. O espelho a temia. E a noite, também. — Chamaste-me do subterrâneo da memória? A interrogação ecoou como um sussurro no interior de uma cripta. Não foi voz — foi sintoma. Tentou-se responder, mas as palavras, apodrecidas no palato, desmancharam-se antes de nascer. Falar diante dela era transgredir o sagrado do silêncio. Camille aproximou-se da madeira corrompida que geme sob os pés dos esquecidos. — O receio ainda te habita?, murmurou ela, como quem não pergunta, mas sentencia. Negar foi instintivo. Mas naquele instante, não se sabia o que era instinto ou delírio. — Talvez a noite seja apenas o útero de realidades não encarnadas, continuou. — E o pranto, uma liturgia mal compreendida pelos vivos. Mas há aqueles que compreendem… os que redigem livros com a pena embebida em saudade e treva. Ela então se inclinou sobre a alma que não ousava respirar e, com voz de sopro ancestral, murmurou: "Os vivos sonham. Mas as sombras se lembram." Um toque — e a razão sucumbiu. Desconhece-se o que sucedeu. Se foi sono ou êxtase. Morte breve ou vida suspensa. Apenas silêncio… e a certeza de que algo se foi, ou veio para ficar. Sobre o assoalho enegrecido, repousava uma rosa — não vermelha, não branca — mas negra como a ausência de retorno. Ao lado, uma página molhada pela umidade de um mundo interior que nunca secou. Em tinta densa, o nome que jamais deveria ser esquecido: Camille Monfort.

Marcelo Caetano Monteiro

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Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Outras frases de Marcelo Caetano Monteiro

" Quem faz e erra aprende mais rápido do que quem apenas observa e aponta falhas. "