Frase de Abraham Cezar
A rua da memória sempre me recebe do mesmo jeito: um beco torto, desses que fingem não conhecer ninguém. As minhas pegadas — educadas como sempre apontam discretamente para mim, como quem indica o culpado que já nasceu pronto. O alvo mudou, claro. Mas a corda bamba continua ali, com aquela generosidade silenciosa que oferece tropeços como lembranças grátis. E eu, que já fui pele exposta querendo posar de metal, ainda caio no truque. Dizem por aí que esforço salva, silêncio ilumina, amor acerta. Engraçado. A verdade vem com farpas e ainda querem que a gente sorria ao morder. Aprendi a trancar a língua antes que ela fale demais. E a coragem… bem, essa eu mantenho no bolso, dobrada. Troco trevas por tropeços, puxo o prumo para o fundo, faço aquela coreografia conhecida: nada firma, nada fixa. Até meu rosto erra o próprio caminho quando eu digo “tanto fez”, sabendo que foi exatamente o contrário. Cada um costura seu casulo com o fio que sobrou. Depois finge que observa de longe o afogamento alheio, testando a água como quem não está com a respiração pela metade. E ainda distribui sentença, sermão, palpite tudo embrulhado na convicção de que a verdade cabe numa mão fechada. Mas a verdade… ah, essa prefere escorregar. Não cabe em palma nenhuma. E morde. Principalmente quem jura que não sente.
No pensador.ai desde