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Frase de Demétrio Sena - Magé-RJ.

A PRAGA DO RANÇO JORNALÍSTICO Demétrio Sena, Magé - RJ. Sem nenhuma reserva, recebo em minha quase cabana, lá no meio do mato, alguns formandos em jornalismo. Vieram conhecer e realizar trabalho escolar com um autor da baixada fluminense de vez em quando citado por um dos professores. O início da conversa foi bem aconchegante: armei no quintal uma rede para cada um, depois fiz um cuscuz de milharina e um café bem forte, para que os momentos fluíssem com informalidade. Infelizmente, logo depois comecei a me aborrecer, embora não demonstrasse, pois não queria frustrá-los. Eles foram, sim, muito simpáticos e agradecidos, me respeitaram como pessoa, mas o que me contrariou foi perceber que aqueles meninos estão se formando com os mesmos clichês de quase todos os jornalistas, relacionados aos escritores e artistas de periferias, baixadas e, em menos escala, das comunidades em torno das capitais. Ao invés de sabatinar o escritor em sua essência como tal, falar de seus escritos, contextos, significados e a carreira, mesmo que nos limites da região, eles começaram a descambar, insistentemente, para que a matéria soasse pejorativa. Não por malícia, sei bem que não, mas por herança dos professores, todos eles eivados de preconceitos. Alguns respeitosos dentro do possível, simpáticos, mas preconceituosos. Considero matéria pejorativa, quando entrevistadores forçam a barra para que, por exemplo, um escritor de regiões menos favorecidas teça profundos e doloridos lamentos de poetinha injustiçado e sofredor. Querem fazer matérias folclóricas, com fotos de rostos distorcidos, e levam o entrevistado a cometer desempenhos que nada somam ao seu trabalho, sua carreira, nem mesmo ao ego, a vaidade comum. São reportagens que geram dó. Solidariedade. Parecem destinadas à família e aos amigos. Transformam o entrevistado em uma figura simplória, que pede "pelo amor de Deus" uma oportunidade, mesmo sem o pedido específico verbal. Algo totalmente diverso das entrevistas realizadas com cidadãos das letras ou das artes nos cadernos especializados e com ampla circulação. É um grande desafio para qualquer jornalista fazer matérias com artistas ou autores de regiões não consideradas nobres, sem que essas matérias pareçam serviços sociais, caridades de mídia, matérias menos importantes com pessoas que não são, só se julgam talentosas e alguém resolveu doar para elas um espaço na mídia. Acho que para tanto, esse profissional teria que enfrentar seu editor chefe, dar a si próprio uma autonomia como profissional de imprensa e provar, tanto para o chefe quanto para o dono do jornal, que aquele talento é realmente um talento, mesmo sendo de uma região secularmente alvo de preconceito. Tudo isso não quer dizer que eu não tenha gostado dos meninos. Gostei, sim. São interessados, gentis, amigos, mas lamento profundamente que estejam às vésperas de se formar com esse ranço. Não vi arrojo profissional. Personalidade jornalística. Desejo de fazer um novo jornalismo, menos separatista ou preconceituoso. Formam-se com as acomodações que são garantia do emprego fácil, porque o fazem para levar às redações a eterna louvação dos que já arrombaram as portas comerciais das oportunidades, sejam eles fantásticos ou medíocres, e a eterna pejoração dos talentos que ainda não fizeram isso, sejam eles medíocres ou fantásticos. Que o trabalho dos meninos - que ninguém saberá quem são - seja bem recebido, com boa nota, mas não circule além dos muros da universidade, como foi combinado. No mais, os braços deste fazedor de textos, as redes, o cuscuz e o café sempre os receberão de bom grado. Com ou sem pagamento em mídia.

Demétrio Sena - Magé-RJ.

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SHOW DA FÉ Demétrio Sena, Magé - RJ. A fé que se tem num "Deus", num santo de argila, numa vaca ou numa casca de coco desperta no ser humano a capacidade fantástica de se recompor; se redimir; alcançar graças e às vezes banir doenças. Deus, o santo, a vaca e a casca não podem nada; o mérito é mesmo da fé ou de quem a possui. No entanto, quem a possui não pode se conscientizar disso, pois a fé não vive sem esses ícones reais ou imaginários; imateriais ou concretos. Quem tem fé, tem que tê-la em alguém ou algo, pois ela só se constrói sobre uma base; uma planta; um fundamento. Ter fé não combina com racionalidade à toda prova; com profundo aculturamento e vasta filosofia. Quanto maior a ingenuidade ou a escassês de conhecimento filosófico, intelectual; quanto menor a bagagem cultural ou a sapiência, maior é a chance de uma pessoa obter o que chamamos milagre. Se não creio na menagem central da bíblia, creio nas máximas periféricas como as que tratam das bem aventuranças, no que tange os puros e simples de coração. Eles são bem aventurados, porque têm essa fé que os capacita com a força e a coragem que não vejo nos doutos; nos letrados. Muito menos nos estudiosos e proclamadores da fé. Justamente os que se dedicam por vocação e solidariedade ou por interesses escusos; exploração do próximo. Estes podem suscitar ou promover a fé dos outros, mas não a têm... Pelos menos aquela que "remove montanhas", por ser imensa; do tamanho de um grão de mostarda. Não é na cabeça que a fé habita. Ela mora no coração, e como foi dito, no coração puro. Naquele que sabe crer com todas as forças da sua ingenuidade, até mesmo no desempenho dos falsos "representantes do reino dos céus". Representantes que arrotam como suas, as graças eventualmente alcançadas pelos bem aventurados, por obra e mérito deles próprios... Da sua fé... Não do simples desempenho de quem apenas realiza shows e arrecada cachês da boa, velha e generosa fé pública. Tenho saudades de ter fé. Daquele tempo em que fui sábio, porque não era sabedor. Hoje lamento, embora veladamente, por não ter tido equilíbrio para não deixar que o saber corroesse a sabedoria. Que a cabeça embotasse o coração. Queria pelo menos poder juntar as extremidades, para não ser escravo da crendice nem do ceticismo. Não ser dominado pela ingenuidade cega dos fiéis a todo o custo nem pela intransigência da erudição que também cega. No fundo, creio que fugi de um fanatismo para cair em outro, por ser incapaz de achar o meio termo. Acho que preciso de um "Deus", um santo de argila, uma vaca ou uma casca de coco.