Frase de Solange Maia
Sou de barro Não ache que você consegue me entender com meia hora de prosa. Sou tal qual moringa d’água. Simples à primeira vista, como uma boa cerâmica, mas quem me vê assim, só querendo matar a sede, só de passagem, não faz idéia da trajetória do meu barro, nem das tantas vezes que desejei mudar o meu destino. Sou a contra-história, o anti-herói, estou além da superfície. Sou as mãos que me moldaram, as infindas voltas no torno em busca da forma ideal, a descoberta de que não existe forma ideal, sou os fragmentos indesejáveis que foram ficando pelo caminho, os que ainda carrego comigo, sou o que seca devagar, no tempo, o que desidrata, encolhe, retrai, sou o que finalmente amadurece, o menos quebrável, menos frágil. Sou a antítese, o que estatela, o que fragmenta, o contrário, o que acolhe, o que reserva... Sou o som seco, o estampido, a percussão. Sou a música do Uirapuru, sou a orquestra de barro. Sou exposta ao tempo, sou o ar que contenho, a água que conservo, o fogo que me endurece, a terra de onde vim... Não ache que olhos que só têm sede vão me ganhar. Sou de quem me decifra. E não sou uma só. Sou tantas....
No pensador.ai desde