Frase de Fernando Scheuermann
O Véu de Lete Antes do alvorecer, fui tudo. Rei e réptil, mãe e mártir, ferro e flor. Fui punhal e promessa, fui incêndio e oração. Mas ao nascer, bebi do rio. E esqueci. O nome da lâmina que me cortou. O rosto da alma que me amou. Os juramentos murmurados entre dentes na última noite de outra vida. Tudo se perdeu. Como areia entre os dedos do tempo. E no silêncio do não saber, floresceu o saber maior. Não o saber das lembranças, mas o saber do instinto, da escolha que pulsa sem porquê, do medo que avisa, da paixão que chama, do erro que retorna como mestre. Esquecer foi meu pacto. Minha chance de ser novo sem me ferir do antigo. Pois se eu lembrasse… ah, se eu lembrasse! Perdoar seria impossível. E amar, um risco repetido. Cada gesto se tornaria prisão. Cada encontro, um julgamento. Mas neste esquecimento sagrado, a alma dança. Livre de correntes de glória ou culpa, ela ousa errar de novo. E ao errar, aprende — não com a mente, mas com a essência. No final, quando o corpo dormir e o véu se erguer, voltarei à margem do rio. E saberei. Mas por ora, bendito seja o esquecimento. Ele é o ventre onde renasço. É o chão fértil do esquecimento que guarda a semente da eterna sabedoria.
No pensador.ai desde