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â A falta de gentileza Ă© como um cĂ©u nublado que vai cobrindo o sol aos poucos, sem pressa, atĂ© que vocĂȘ percebe que o calor se foi. Ela chega silenciosa, como se fosse nada, mas Ă© um nada que pesa, um vazio que ecoa. Ă como andar descalço por um caminho de flores e, de repente, sentir o espinho que vocĂȘ nem viu crescer.
Seria tĂŁo simples, nĂŁo? Oferecer uma palavra doce, um sorriso que ilumina, como quem abre a janela e deixa o sol entrar. Mas, quando nĂŁo se faz, o dia esfria, as cores desbotam, e a alma parece encolher. A falta de gentileza Ă© essa ausĂȘncia que raspa de leve, um vento que vai secando as folhas de dentro, atĂ© que, sem perceber, estamos ĂĄridos.
E o mais curioso Ă© que ela corta em dois tempos, como uma dança mal ensaiada. O primeiro golpe Ă© no outro â aquele que esperava uma ponte e recebeu um muro. O segundo, mais sutil, vem de volta, atinge quem a nega, porque negar gentileza Ă© como negar ĂĄgua a si mesmo enquanto atravessa o deserto.
No fundo, Ă© assim: a vida vai se tecendo entre gestos pequenos. E cada ato de gentileza Ă© como uma linha de seda que segura o tecido firme, evitando que ele se rasgue. Quando falta essa linha, o tecido da convivĂȘncia vai se desfazendo, ponto a ponto, atĂ© que o vento leva tudo.
@poeticainterstelar