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Frase de Alvaro Giesta

Perdi os poemas ébrios de ritmo feitos ao sol da manhã Esse tantã longínquo que me acordava manhã cedinho antes de subir na minha bicicleta reduzida ao mínimo para pedalar até ao liceu, acordava-me como uma loa, cântico virginal puro… ou como um ritmo escondido no regaço da mais linda mulata da sanzala Um poema ébrio de ritmo órfico em dionisíaca celebração um cântico mestiço místico pagão negro soneto espúrio de um povo híbrido de muitos deuses e de mais irmãos ainda… Hoje o meu poema já não é ébrio de ritmo nem o som do tantã tem o sol puro erguido pela manhã cedinho O meu poema é de sangue e dor lavrado pelo frenesim dos tiros O tantã que me acordava manhã cedinho e trazia no som o ritmo dos beijos, hoje já não me acorda deste sono que não durmo sobressaltado O tantã traz agora na sua voz longínqua o som próximo da metralha In “Há o Silêncio em Volta” (poética de guerra), edições Vieira da Silva do poeta Alvaro Giesta

Alvaro Giesta

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Pensador.com

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Outras frases de Alvaro Giesta

do âmago do nada existente entre a penumbra e a luz,
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do âmago do nada existente entre a penumbra e a luz, evola-se um halo cálido que afugenta o medo. exala-se um sopro no gesto do ser, um sulco de luz transforma o nada em verbo. acende-se subitamente por dentro do corpo, a vida. in O Retorno ao Princípio

inclina-se o decadente tempo para o ir das frias águas onde misteriosa
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inclina-se o decadente tempo para o ir das frias águas onde misteriosa e incógnita é a sorte. nessas fontes enigmáticas a luz, antes intensa, deixa de o ser e cai no esvaziamento. é o tempo do inverno! ali, nesse tempo, a matéria se nomeia MORTE. nessa permanência intemporal permanecemos esquecidos mas, em essência, somos. * desse tempo etéreo pulsando um halo se evola, quando a lucidez em indizível ciência estremecida traz da essência o ímpeto que ressumbra desse húmus, até aí ignorado. ilumina-se a uma luz intensa essa penumbra crepuscular; como na árvore, que do cálamo em sono mergulhado se acendem em flor os gomos essenciais à VIDA. in "O Retorno ao Princípio", Editora Calçada das Letras, 2014

(...) Enquanto poeta Alvaro Giesta, a liberdade da palavra, no uso poético que lhe é dada, permite-lhe, em O Retorno ao Princípio, filosofar acerca da morte. A morte, que é a garantia da ordem no mundo dos homens, que é o que concede o diálogo, pois, no mundo humano adquire-se a…
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(...) Enquanto poeta Alvaro Giesta, a liberdade da palavra, no uso poético que lhe é dada, permite-lhe, em O Retorno ao Princípio, filosofar acerca da morte. A morte, que é a garantia da ordem no mundo dos homens, que é o que concede o diálogo, pois, no mundo humano adquire-se a vida através da morte. Só, assim, a vida tem sentido. A linguagem poética, neste caso na enfatização da morte pela palavra, não procura uma finalidade, uma explicação, não procura atingir algo, atingir um fim - isto, é para as religiões e seitas. Na linguagem poética a palavra não morre. A palavra, se morre, é para dar vida à palavra nova porque "a palavra é a vida dessa morte", como nos diz o filósofo Maurice Blanchot e o poeta Alvaro Giesta, num dos poemas iniciais de O Retorno ao Princípio. A linguagem poética, neste caso na enfatização da morte pela palavra, não procura uma finalidade, uma explicação, não procura atingir algo, atingir um fim - isto, é para as religiões e seitas. Na linguagem poética a palavra não morre. A palavra, se morre, é para dar vida à palavra nova porque "a palavra é a vida dessa morte", como nos diz o filósofo Maurice Blanchot e o poeta Alvaro Giesta, num dos poemas iniciais de O Retorno ao Princípio. (...)" do posfácio ao livro O Retorno ao Princípio, de Alvaro Giesta

in memoriam quando esquivas avenidas e te embrenhas em becos escuros
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in memoriam quando esquivas avenidas e te embrenhas em becos escuros e sórdidos, o teu olhar tem planos inclinados e ruídos nas pedras gastas da calçada que pisas escorregadias. uma a uma marcas os passos fugidios e as sombras em que te apagas têm o quente oblíquo da desgraça. miras os andrajos que te cobrem nos olhos-espelhos baços das vitrinas e ocultas as chagas do teu corpo na fome que te apoquenta implacável. acomodas-te no banco abandonado no sossego inquietante do candeeiro apagado que guarda o recanto escondido do jardim onde te acolhes insignificante sob um céu de estrelas despovoado... de todos e de ninguém perdido. habitam os teus olhos dentro, apagados os braços de percursos inventados no gélido tamanho do teu mundo onde fictícias personagens habitam o teu corpo esquecido. és louco... um louco que desaprende o que sabe na incongruência do tempo que te habita nesta claridade cega. perdes as asas e mergulhas no esquecimento e na desgraça. nada és na tua pele e a errática nudez que te assombra o cérebro, derrama a carne incendiada por nostálgicas ruínas do tempo. perdes os sinais e os dias e o sentido da existência... os deuses esquecem-se de ti que te devoras no vírus da loucura. numa inquietação lúcida de lucidez entras em convulsão incendiária à espera que te ilumine um resíduo de sorrisos. és um templo fechado na noite sibilante e florestal. habita-te o sonho o vento e a solidão a erva orvalhada e as pedras da calçada onde pousas os passos esquecidos e ignorado. pensas pássaros errantes nas sombras abstractas da noite, enleias-te em catarses fugidias do instante que te foge sob os pés. fundes-te nos abismos do tempo e de abismo em abismo te esqueces de quem és. © Alvaro Giesta, in "Muralha Inquieta"