Frase de Poeta Perdido
O Peso do Tijolo A fumaça do café barato subia em linha reta, ignorando a bagunça de papéis sobre a mesa. Do outro lado do bar, a voz de Arthur ecoava, terna e flutuante, recitando versos sobre o "inefável vazio do ser". Os jovens ao redor estalavam os dedos em aprovação. Arthur era o poeta oficial do bairro, um caçador de relâmpagos. Benício, no entanto, olhava para as próprias mãos sujas de tinta preta. Ele não caçava relâmpagos. Ele carregava pedras. — Você devia subir lá, Benício — disse a garçonete, deixando a conta. — Deixar um pouco de poesia sair desse peito ranzinza. — Não sou poeta, Clarice — respondeu Benício, sem tirar os olhos do caderno. — Sou escritor. — E qual a diferença? — ela sorriu, limpando o balcão. — O poeta voa, Clarice. Eu preciso caminhar. O poeta resume o mundo em um suspiro. Eu preciso de trezentas páginas para entender por que um homem chora ao ver um sapato velho na calçada. Ela deu de ombros e se afastou. Benício voltou ao trabalho. Ele estava há três semanas preso no terceiro capítulo de seu romance. Não buscava a palavra perfeita que rimasse com a dor; buscava o motivo exato pelo qual seu protagonista, um velho relojoeiro chamado Vicente, havia parado de falar com o filho. Arthur, o poeta, aproximou-se da mesa, exalando o perfume do aplauso recente. — Benício, meu caro! Sempre enterrado na lama da realidade. Por que não liberta sua escrita dessas amarras? A vida é efêmera, meu amigo! Um sopro! Benício ajeitou os óculos e olhou para o amigo. — A vida pode ser um sopro para quem olha de longe, Arthur. Para quem vive, ela tem o peso de um tijolo por dia. Seu poema é lindo, mas ele não explica como o Vicente vai pagar o aluguel amanhã de manhã. Arthur riu, uma risada leve, e deu um tapinha no ombro de Benício antes de sair pelos fundos com seu séquito. Benício ficou sozinho. A luz do bar começou a piscar. Ele pegou a caneta. Esqueceu as rimas, a métrica e as metáforas abstratas. Em vez disso, escreveu sobre o cheiro de graxa nas mãos de Vicente. Escreveu sobre o barulho mecânico dos relógios de parede preenchendo a solidão da casa. Escreveu o diálogo seco, doído, que o pai nunca teve coragem de dizer ao filho.
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Pensador.com
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