Frase de Raimundo Santana
A sombra do meu pecado me trai — um vulto que conhece meus passos antes de eu os dar. Atrai-me para o submundo onde a escuridão tem voz e os nomes se desfazem, um convite sem luz, uma promessa que cheira a ferro e a lama. Somos dois náufragos: eu e essa sombra que me habita, invisíveis aos olhos que ainda acreditam em salvação. Envolvidos como raízes emaranhadas, presos no pântano do desejo, onde o tempo apodrece e as horas se tornam moscas. Caímos sem alarde, amordaçados pela própria culpa, a boca cheia de terra, o grito reduzido a um eco de ossos. A decomposição não é só do corpo — é do nome que eu dava às coisas, do mapa que traçava para me encontrar, agora rasgado e úmido. Há um frio que não passa, uma sede que não se sacia; cada passo afunda mais, cada lembrança vira lodo. E, no entanto, há uma clareira de silêncio dentro desse breu, um lugar onde a traição aprende a dizer o seu próprio nome. Não peço perdão — não ainda — porque o perdão exige luz que não trago. Quero apenas ver, por um instante, a sombra desvelada: que se revele inteira, sem disfarces, para que eu saiba com quem divido o corpo. Se a escuridão é casa, que seja ao menos honesta; se o pântano é prisão, que me mostre a porta que não consigo ver. E se a decomposição é destino, que me ensine a colher do próprio fim a semente que, talvez, um dia, resista e floresça na lama.
No pensador.ai desde