Frase de O Bruxo de Curitiba
Eis que o vento sopra em meu rosto, em meu corpo. Vindo de frente, refresca minha fronte, massageia meus cabelos. E eis que me fragmento num sem-número de sementes de dente-de-leão, sopradas pelo vento. De minha essência nada resta, pois me espalho por onde ando, por onde as sementes voam. Quisera ser flora para te encantar, e o fora, fora um dente-de-leão. Leão manso, de altivo passo, retumbante rugido e suave respiração. Meus cabelos, ora juba, ora inflorescência, balançam ao vento e espalham sementes de dente-de-leão pelos campos ondeantes onde ando. Outrora rugi, outrora rosnei, outrora agarrei, mas não aguentei. Outrora, eu era. Agora, deixo de ser. Nada detém o vento, que num redemoinho me envolve, meus fragmentos revolve, num rodamoinho me dissolve. Sou capítulo soprado. Me fragmento num sem-número de sementes, que voam pelo vento. E na terra, em minhas pegadas de leão, nascem dentes-de-leão. (Epitáfio anemocórico, no livro O Bruxo de Curitiba)
No pensador.ai desde