Frase de Fusco Abaré
O Tempo Frio da Vida Embora o temamos, esse tempo chega para todos. E creio que chegou para mim. O tempo de sentir o frio de tudo e de andar de cabeça baixa com o olhar vazio e cego. Um tempo cruel e insensível que nos trata como cães brigando por um osso. O tempo onde o que se diz já não importa a ninguém. Vagamos por aí inutilmente, tal qual o elefante de Drummont, a procura de algo que nem sabemos o que é. Seja carinho, seja atenção ou alguém que nos bata forte, não sem querer, não por distração, mais por nos odiar mesmo, isso não faz o menor sentido, mas pode ser o que nesse maldito tempo queremos. Mas é o tempo de guardar a dor, de sofrer sem deixar que ninguém perceba, de gritar para dentro de si aos coisas que só você mesmo pode compreender. Chegou o tempo triste de ser árvore sem frutos, de buscar em olhos raivosos um pingo de boa vontade e compaixão. Nesse tempo os dentes viram pedras e sorrir machuca quem sorri e espanta aquele para quem o sorriso foi dado. Ficamos feio sem termos mudado em nada. Um tempo amargo que te fere a cada segundo sem motivo justo e que te enterra dentro de si próprio. Não adianta. Andamos pelas ruas mortos em nós e ninguém se importa, nem o tempo matador. Ah, esse tempo assombroso de terríveis presságios! O que carregamos de tão normal nos olhos nesse tempo para passarmos despercebidos por toda a gente? Que crime se comete? Que doença se pega no tempo em que já não temos importância? O elefante de Drummont voltava para casa, sozinho e cansado, mas no dia seguinte, esperançosos, ele recomeçava. Será que temos essa mesma dignidade durante esse tempo impiedoso de cores desbotando? A verdade é queremos abraçar o mundo e dizer como ele é belo, mas nós somos a parte suja, feita de lama e lixo. Nesse tempo você pergunta e ninguém responde, você sorri e te cospem, você beija e te espancam, você grita e te desprezam e por fim, você ama, o que isso importa, não é mesmo? Nesse tempo sombrio ninguém sabe como chegou ou se vai sair dele, mas uma coisa é certa: acham que já não cabemos em nada que faz parte do outro lado. E nós que amávamos a vida e o mundo, nós que já fomos lindos e bravos guerreiros, nós que tínhamos tudo que não temos hoje: quem nos ouça com vontade, quem queira estar perto sem ter medo de se tornar um de nós, que cuide das nossas feridas em vez de provocá-las, que com um simples carinho nos faça rei da Inglaterra, quem só com um doce olhar abra sua alma como um livro agradável de ler. Esse tempo triste, frio e bruto já está nos devorando pedaço por pedaço, meus amigos, mas apesar de tudo eu, que nunca fui de me conformar, não me conformo e planto o que sobrou num jardim sem flor e sem nada. Mas ali ainda há sonhos, há vontade de viver, de ser o mesmo que fui para todos, há a parte de mim que nada afeta, que é minha humildade, há o meu jeito bobo e besta de ser eu mesmo ainda que aos pedaços. Enfim, pode haver alguma coisa nisso tudo que tenha algum valor e, talvez quem sabe, faça brotar um novo EU fora do tempo doente e sujo e de repente, esse novo Eu seja uma linda flor que ainda guarde de mim a minha essência para todos.
No pensador.ai desde