Frase de Carlos Alberto Silva
O POEMA ERRADO Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Drummond Vou ao reino das palavras com a tranquilidade de quem trouxe de lá uma ou duas páginas valorosas. São minha permissão. Entro quando quero, extraio as palavras de onde repousam em estado de dicionário, e as acomodo para viagem na forma de poemas perfeitos. Todos se corrompem na passagem, alguns irremediavelmente. É por esse motivo que tantas linhas imprecisas são escritas. Tenho impulsos de retornar ao reino das palavras e vasculhar incansavelmente pelo poema certo. Ele ainda está lá. Mas desse já não tenho a chave, e ninguém mais a poderá ter. Perdeu-se. Olho para o poema embaralhado que possuo, sentenciado à inexistência, e me compadeço do seu destino. Sorrio. A inexistência é uma condenação impossível. O poema errado Com a vida diante dos olhos Escrevi minha história Manchei os campos com meus passos Maculei a água com minha sede Julguei merecer que me sorrissem Um sorriso puro e ingênuo Que já não sorri sem tristeza Fui amado com um amor perfeito Que hoje tem a marca da minha estupidez Quisera ter entendido o que é ser humano O que é ser imperfeito Quisera ter entendido o propósito de todas as coisas Segundo o qual nada existe em vão Não se vive sem culpa Mas não se existe sem razão Se em tudo eu tivesse errado Não choraria por não ter tocado A flor que deixei morrer no jardim A flor não temia a morte A vida era o seu fim
No pensador.ai desde