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Frase de Ruth Manus

QUEM DEIXOU MEUS PAIS ENVELHECEREM? Meus pais não são velhos. Quer dizer, velho é um conceito relativo. Aos olhos da minha avó são muito moços. Aos olhos dos amigos deles, são normais. Aos olhos das minhas sobrinhas, são muito velhos. Aos meus olhos, estão envelhecendo. Não sei se lentamente, se rápido demais ou se no tempo certo. Mas sempre me causando alguma estranheza. Lembro-me de quando minha mãe completou 60 anos. Aquele número me assustou. Os 59 não pareciam muito, mas os 60 pareciam um rolo compressor que se aproximava. Daqui uns anos ela fará seus 70 e eu espero não tomar um susto tão grande dessa vez. Afinal, são apenas números. Parece-me que a maior dificuldade é aprendermos a conciliar nosso espírito de filho adulto com o progressivo envelhecimento deles. Estávamos habituados à falsa ideia que reina no peito de toda criança de que eles eram invencíveis. As gripes deles não eram nada, as dores deles não eram nada. As nossas é que eram graves, importantes e urgentes. E de repente o quadro se inverte. Começamos a nos preocupar- frequentemente de forma exagerada- com tudo o que diz respeito a eles. A simples tosse deles já nos parece um estranho sintoma de uma doença grave e não uma mera reação à poeira. Alguns passos mais lentos dados por eles já não nos parecem calma, mas sim uma incômoda limitação física. Uma conta não paga no dia do vencimento nos parece fruto de esquecimento e desorganização e não um simples atraso como tantos dos nossos. Num dado momento já não sabemos se são eles que estão de fato vivendo as sequelas da velhice que se aproxima ou se somos nós que estamos excessivamente tensos, por começarmos a sentir o indescritível medo da hipótese de perdê-los- mesmo que isso ainda possa levar 30 anos. Frequentemente nos irritamos com nossos pais, como se eles não estivessem tendo o comportamento adequado ou como se não se esforçassem o bastante para manterem-se jovens, vigorosos e ativos, como gostaríamos que eles fossem eternamente. De vez em quando esbravejamos e damos broncas neles como se estivéssemos dentro de um espelho invertido da nossa infância. Na verdade, imagino eu, nossa fúria não é contra eles. É contra o tempo. O mesmo tempo que cura, ensina e resolve é o tempo que avança como ameaça implacável. A nossa vontade é gritar “Chega, tempo! Já basta! 60 já está bom! 65 no máximo! 70, não mais do que isso! Não avance, não avance mais!”. E, erroneamente, canalizamos nos nossos pais esse inconformismo. O fato é que às vezes a lentidão, o esquecimento e as limitações são, de fato, frutos da idade. Outras vezes são apenas frutos da rotina, tão naturais quanto os nossos equívocos. Seja qual for a circunstância, eles nunca merecem ter que lidar com a nossa angústia. Eles já lidaram com os nossos medos todos- de monstros, de palhaços, de abelhas, de escuro, de provas de matemática- ao longo da vida. Eles nos treinaram, nos fortaleceram, nos tornaram adultos. E não é justo que logo agora eles tenham que lidar com as nossas frustrações. Eles merecem que sejamos mais generosos agora. Mais paciência e menos irritação. Menos preocupação e mais apoio. Mais companheirismo e menos acusações. Menos neurose e mais realismo. Mais afeto e menos cobranças. Eles só estão envelhecendo. E sabe do que mais? Nós também. E é melhor fazermos isso juntos, da melhor forma.

Ruth Manus

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

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Outras frases de Ruth Manus

Às vezes me flagro imaginando um homem hipotético que descreva assim a mulher dos seus sonhos: “Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá. Ela deve s…
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Às vezes me flagro imaginando um homem hipotético que descreva assim a mulher dos seus sonhos: “Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá. Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda. Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar. Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.” Pois é. Ainda não ouvi esse discurso de nenhum homem. Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta. O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens, homens e velhos homens. O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós? Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos. Não tivemos aula de corte e costura. Não aprendemos a rechear um lagarto. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho. Não nos explicaram a diferença entre alvejante e água sanitária. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração. Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração. Mas, escuta, alguém lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão? Aí, a gente, com nossa camisa social que amassou no fim do dia, nossa bolsa pesada, celular apitando os 26 novos e-mails, amigas nos esperando para jantar, carro sem lavar, 4 reuniões marcadas para amanhã, se pergunta “que raio de cara vai me querer?”. “Talvez se eu fosse mais delicada… Não falasse palavrão. Não tivesse subordinados. Não dirigisse sozinha à noite sem medo. Talvez se eu aparentasse fragilidade. Talvez se dissesse que não me importo em lavar cuecas. Talvez…” Mas não. Essas não somos nós. Nós queremos um companheiro, lado a lado, de igual pra igual. Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto. Mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia. Mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina. O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência? E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família. No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta.

Namore alguém que... te diga para ir Houve tempos em que achava que uma bela prova de amor era o tal do “please don’t go” e todos os seus derivados. Fique. Não me deixe. Não vá embora. Não vou aguentar ficar sem você. Os choros nas despedidas e os dramas nas distâncias, mesmo qu…
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Namore alguém que... te diga para ir Houve tempos em que achava que uma bela prova de amor era o tal do “please don’t go” e todos os seus derivados. Fique. Não me deixe. Não vá embora. Não vou aguentar ficar sem você. Os choros nas despedidas e os dramas nas distâncias, mesmo que curtas, mesmo que breves. Esse tempo passou. Hoje entendo que amor não mora nas restrições, mas na generosidade. Namore alguém que te diga “vai”. Alguém que, quando você perguntar “você acha que eu devo ir?”, diga “sim, vai”. E “ir” pode ser físico ou não. Pode ser uma viagem, um projeto, uma mudança, um trabalho novo, um desafio qualquer. Alguém que segure sua mão e diga “pode voar bem alto que eu estarei ao seu lado”. Namore alguém que fique feliz com os seus voos, as suas conquistas, os seus projetos. Alguém que esteja mais preocupado com a sua realização do que com a sua ausência. Alguém que entenda que, entre adultos, vale o combinado. É essa relação que queremos? É. A ideia é vivermos juntos, como casal, da forma que der? É. Pronto, isso basta. O resto é circunstância. As intenções são o que conta, não as turbulências naturais do caminho. Namore alguém que te olhe sem medo e que vibre com as suas vitórias. Fuja de quem se sente ameaçado com elas – sobretudo se você for mulher. Não se engane com sabotadores travestidos de cuidadosos. Não se perca nas mãos de inseguros disfarçados de ciumentos. Não deixe que sua vida se confunda com a de outra pessoa, nem que essa pessoa se aposse da sua vida como se fosse dela. Namore alguém que te diga “se for importante para você, vá”. Alguém que, sempre que possível, se habilite a ir junto. Alguém que se interesse pelos seus projetos, que ouça suas dúvidas e angústias, que opine, que incentive e que saiba que a decisão final é sempre sua. Namore alguém que entenda e aceite. Li em algum lugar, há muito tempo, que o amor é como o mercúrio: um metal líquido à temperatura ambiente. A única forma de manter o mercúrio em nossas mãos é deixá-las abertas. Se você tentar fechá-las, o mercúrio vai escapar pelo meio dos dedos. O amor é assim: quanto mais livre estiver, mais tende a querer permanecer. Namore alguém que sinta uma felicidade genuína pelas suas conquistas. Alguém que celebre tanto quanto você quando as coisas dão certo. E que, quando elas não derem certo, te diga “vamos lá, vamos tentar outra vez”. Alguém que sorria nas despedidas e que diga “vai passar rapidinho”, mesmo quando a gente sabe que não vai. Apaixone-se pela capacidade de deixar ir. E também a descubra em si mesma. Saber ficar longe é tão importante quanto saber conviver todo dia. Aprenda a encontrar a felicidade na mão que se despede e não na mão que agarra e restringe. Prender é fácil. Deixar ir é imenso. Namore alguém que sinta a sua ausência, mas não faça disso uma amarra. Alguém que tenha mais medo das suas frustrações por perder chances do que das dificuldades que os movimentos da vida trazem. Namore alguém generoso. E seja generoso de volta. É esse tipo de amor que tende a durar uma vida inteira.

me casei com você porque gosto muito do fato de ser o seu rosto a última coisa que eu vejo antes de adormecer e a primeira coisa que vejo quando acordo. Porque dentro da nossa casa eu posso ser o que verdadeiramente sou – sem sapatos especiais, discursos inteligentes e falsas dos…
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me casei com você porque gosto muito do fato de ser o seu rosto a última coisa que eu vejo antes de adormecer e a primeira coisa que vejo quando acordo. Porque dentro da nossa casa eu posso ser o que verdadeiramente sou – sem sapatos especiais, discursos inteligentes e falsas doses de autoconfiança – e ali, sei que sou suficiente. E que você acha que eu bastaria para o mundo sendo assim todo dia, embora eu nunca me convença disso.