Frase de Eleni Mariana de Menezes
Vladimir Herzog Olá Vlado! Estou buscando inspiração na tarde sonolenta de janeiro. Choveu o dia quase todo. Agora o sol tenta romper a neblina Que insiste em ficar na atmosfera Carregando-a de lágrimas. Não dei conta de suportar a nostalgia Que a impotência causou-me. Pensei em ti e chorei. Depois de tanto tempo? Como pude? Nem eu mesma soube explicar. Só sei que precisava desabafar O nó preso na garganta De um tempo negro demais Que não pode voltar A não ser nas lembranças Para rejeitarmos esses moldes E nunca mais vê-los novamente implantados Nos nossos portais humanos. Não vamos falar a versão deles Vlado. Sejamos diretos e simples tanto quanto o tamanho Do ardil vil E obscuro construído Nas salas do DOI-CODI. Covardemente mataram você. Como o fizeram com muitos. Alguns ficaram vivos, Mas saíram “mortos” de medo. Pela dor causada por torturas físicas e psicológicas. Ainda hoje são devorados nas entranhas Por tais monstros. Como voltar atrás e não atender ao chamado do algoz? Melhor fugir para o exílio e voltar Quando as amarras caírem E a perversidade for extirpada do ventre da nossa Pátria. Tão Soberana! Que mergulha por querer numa dolorosa Repressão aos contrários do militarismo. A palavra liberdade Parecia estar em desuso, Principalmente nas frias salas de interrogatórios, Onde se lavavam com sangue As memórias daqueles que ficaram Enjaulados E acuados diante de tanto horror. Talvez porque o alto comissariado Não compreendesse o mais profundo significado Da dignidade humana E que ele não se estampa naquilo Que a pessoa faz ou diz, Mas simplesmente no fato De ser pessoa humana, devendo, Por direito, ser tratada como tal. Instrumentalizaram as pessoas Em vista dos seus sórdidos interesses. Feriram-nas. Torturaram-nas até mais não suportarem A agonia de ser gente. E renitentes assenhorearam-se das idéias E ideais de liberdade, Igualdade, Fraternidade Que tão bem a velha França gritou. Espernearam aqui os seguidores deste lema. Defenderam com suor E muita luta o Brasil das garras Dos poderosos parasitas podres, Que infestavam as esferas governamentais De um país mergulhado no choro. Choramos lá E agora ao recordar só queremos suplicar Plagiando Dom Paulo. Brasil: Nunca Mais. Sei Vlado que ficaste como divisor De águas do hediondo tempo ditatorial. Após tua partida, Intelectuais e meios de comunicação Denunciaram anunciando o fim do terror. Levantaram-se as bandeiras Dos filhos destemidos Da Grande Mãe Pátria para todos. E calados locupletaram a Catedral da Sé Num ato heroico de repúdio ao regime ditatorial. E de lá para cá Temos colocado no poder A nossa alma carregada de esperança. Elegemos nossos governantes De acordo com a vontade popular. Oxalá que acertemos um dia O melhor caminho para a glória de toda a nação. Estamos carentes de um Grande Estadista. Alguém capaz de dirimir as exclusões Que o perverso sistema capitalista cria Que plante visando as futuras gerações. Políticas públicas robusta que recriem A humanidade que tanto sonhaste. E contigo tantos se não mortos, Torturados pela ditadura. Queremos a democracia de fato. Direito sagrado nosso. Está lá, na nossa Carta Magna Por que continuam nos negando? Até quando? Fingiremos que tudo está bem?
No pensador.ai desde