Pular para o conteúdo

Frase de JorgeLimaLoiola

Eu não sou feito de respostas. Sou feito de rachaduras. Por dentro, tudo em mim é barulho: pensamentos tropeçando, memórias se mordendo, desejos que não cabem no corpo. Eu existo em estado de urgência. Tenho dias em que me sinto infinito e outros em que mal caibo em mim. Tenho vontade de ser tudo e medo de não ser nada. Eu me desmonto com frequência. E não é metáfora. Eu me desmonto mesmo. Ideias, identidade, planos, certezas — tudo cai no chão. E eu junto os pedaços com mãos tremendo. Não sou estável. Sou vivo. Carrego perguntas como quem carrega feridas abertas: quem eu sou quando ninguém está olhando? quem eu seria se não tivesse aprendido a me esconder? quem eu posso ser se eu parar de pedir permissão? Às vezes eu me sinto grande demais para esse mundo pequeno. Às vezes pequeno demais para meus próprios sonhos. Eu sinto tudo no limite: o amor rasga, a perda ecoa, o desejo arde, o medo grita. Não sei sentir pouco. Se eu te disser que sou forte, é porque você não viu minhas noites. Se eu te disser que sou sábio, é porque você não viu quantas vezes eu me perdi. Eu sou feito de tentativas. E de fracassos belos. E de recomeços malfeitos. E de coragem improvisada. Não me peça equilíbrio. Eu sou terremoto aprendendo a andar. Mas deixa eu te contar algo: se você me ler e doer, é porque tem algo em você querendo sair. Porque todo mundo anda por aí se amputando emocionalmente para caber. E eu não quero caber. Eu quero existir. Eu quero que minhas contradições respirem. Que meus abismos tenham nome. Que minha bagunça seja honesta. Eu não sou exemplo. Sou espelho. Se você se vê em mim, não é coincidência — é humanidade. Você também sente demais. Você também finge menos do que parece. Você também tem um caos bonito aí dentro pedindo para ser reconhecido. Então não se organize. Se entenda. Não se controle. Se escute. Não se esconda. Se permita. Porque viver não é parecer inteiro — é continuar mesmo em pedaços. E se alguém te chamar de intenso, agradeça. Pior seria ser vazio.

JorgeLimaLoiola

No pensador.ai desde

Fonte e informações de autoria

Pensador.com

Abrir fonte original (abre em nova aba)

Outras frases de JorgeLimaLoiola

Na sociedade da performance, adoecer é crime. Quem cai é empurrado para fora.
Demorei para perceber que quase tudo, na vida, gira em torno da mesma obsessão: controle. Chamam de organização. De rotina.
Continuar lendo

Demorei para perceber que quase tudo, na vida, gira em torno da mesma obsessão: controle. Chamam de organização. De rotina. De responsabilidade. Mas é medo. Medo do que pensa sozinho. Medo do que cria fora do padrão. Medo do que não se deixa domesticar. Por isso contam horas, não ideias. Presenças, não sentidos. Corpos, não consciências. Aprendi cedo que existir era caber. No horário. Na planilha. Na expectativa. E, para caber, comecei a diminuir. Produzia mundos inteiros em silêncio, mas ninguém via. Porque não estavam interessados no que eu criava, e sim no quanto eu permanecia disponível. Não querem pássaros. Querem gaiolas cheias. Dentro delas, aprendemos a funcionar. Não a viver. Adoecer em segredo. Cansar em silêncio. Sorrir por obrigação. Seguir por medo. Quando o corpo falha, chamam de fraqueza. Quando a mente cansa, chamam de desculpa. Quando a alma sangra, chamam de drama. E descartam. Porque quem cai expõe a mentira coletiva de que todos estão bem. Aprendi a esconder fissuras. A maquiar exaustão. A negociar comigo mesmo. Caminhei entre leões. Aprendi a linguagem do poder, os códigos da conveniência, o teatro da força. Mesmo assim, nunca fui do grupo. Era tolerado. Nunca pertencente. Presença sem raiz. Voz sem território. E, para continuar ali, virei útil. Apoio. Escada. Ponte. Sustentava projetos, egos, fragilidades alheias. Enquanto ninguém sustentava a minha. Confiei. Acreditei. Projetei lealdade onde só havia interesse. A traição veio suave. Educada. Disfarçada de cuidado. E no amor, foi ainda mais evidente. Enquanto eu resolvia, eu existia. Enquanto carregava, eu era necessário. Enquanto servia, eu era querido. Quando parei, virei ruído. Foi aí que compreendi: muitos não se relacionam com pessoas. Se relacionam com funções. Nesse ponto, algo quebrou. Não foi romântico. Não foi pedagógico. Não foi bonito. Foi brutal. Percebi que eu tinha passado anos me transformando em estrada para quem nunca pretendeu caminhar comigo. Eu era passagem. Nunca destino. E isso não gerou iluminação. Gerou raiva. Lucidez. Desencanto. Passei a desconfiar dos aplausos. Dos convites. Dos afetos fáceis. Passei a ver o mundo como ele é: um mercado emocional, onde quase tudo é troca, quase nada é vínculo. Hoje eu não romantizo liberdade. Liberdade dói. Isola. Cobra. É andar sem garantias. Sem plateia. Sem proteção. É perceber que ser inteiro te torna inconveniente. Que pensar demais incomoda. Que sentir demais afasta. Que não se vender custa caro. Não virei herói. Não virei exemplo. Não virei cura. Virei consciente. E consciência não salva. Ela pesa. Você passa a enxergar as engrenagens, as farsas, as dependências, as manipulações. E já não consegue mais fingir. Hoje eu sei: Não sou gaiola. Não sou ponte. Não sou sombra. Não sou ferramenta. Mas também não sou refúgio. Sou território instável. Cheio de ruínas, ideias, cicatrizes e silêncio. Quem entrar, entra sabendo: não ofereço conforto. Ofereço verdade. E verdade não acolhe. Ela rasga.