Frase de Filipa Leal
Eu não sabia que dançar era por dentro. Eu não sabia que dançar era até o fim. A vida, meu amor, é sem intervalo.
No pensador.ai desde
Eu não sabia que dançar era por dentro. Eu não sabia que dançar era até o fim. A vida, meu amor, é sem intervalo.
No pensador.ai desde
Demoro-me neste país indeciso que ainda procura o amor no fundo dos relógios,
Demoro-me neste país indeciso que ainda procura o amor no fundo dos relógios, que se abre como se abrisse os poros solitários para que neles caiam ossos, vidros, pão. Demoro-me no ventre desta cidade que nenhum navio abandonou porque lhe faltou a água para a partida, como por vezes desaparece a estrada que nos conduz aos lugares e ali temos que ficar.
Não temos uma arma apontada à cabeça, dizias-me. Mas era impossível que não visses, impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
Não temos uma arma apontada à cabeça, dizias-me. Mas era impossível que não visses, impossível. Eu ao teu lado com aquela dor no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio na minha testa, a vida a estoirar-me a qualquer momento. Era impossível que não visses o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito aquele lado, era por me dar mais jeito não morrer quando nos víamos, era para dormir contigo só mais esta vez, sempre só mais esta vez, sempre com o meu amor a virar-se de costas, sempre com o teu amor apontado à cabeça.
A cidade movia-se como um barco. Não. Talvez o chão se abrisse em algum lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água. Como sobreviver a uma cidade líquida?
A cidade movia-se como um barco. Não. Talvez o chão se abrisse em algum lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água. Como sobreviver a uma cidade líquida? (Eu tentava sustentar-me como um barco.)
Nos dias tristes não se fala de aves. Liga-se aos amigos e eles não estão e depois pede-se lume na rua
Nos dias tristes não se fala de aves. Liga-se aos amigos e eles não estão e depois pede-se lume na rua como quem pede um coração novinho em folha. Nos dias tristes é Inverno e anda-se ao frio de cigarro na mão a queimar o vento e diz-se - bom dia! às pessoas que passam depois de já terem passado e de não termos reparado nisso. Nos dias tristes fala-se sozinho e há sempre uma ave que pousa no cimo das coisas em vez de nos pousar no coração e não fala connosco.