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Frase de Paulo H Salah Ad din

*O HOMEM QUE NÃO QUERIA SER PRESO* Era final de tarde de domingo e minhas alegres visitas tinham partido. A casa ficou com aquela aparência de lugar onde alguma coisa aconteceu, mas ninguém teve a educação de limpar depois. Havia copos sobre a mesa, brinquedos espalhados, migalhas no sofá e um cheiro de comida que já começava a perder a batalha para o cheiro de casa fechada. Não me incomodei. Algumas bagunças são provas de que a vida esteve ali. O Sol decidiu Acompanhar as crianças e a chuva veio para o expediente. O gato ficou. Estava deitado na janela, olhando para a rua com a seriedade de quem aguardava uma decisão importante. As crianças tinham ido embora fazia pouco tempo e, aparentemente, aquilo tinha sido uma experiência marcante para ele. Talvez tivesse descoberto que humanos pequenos são mais divertidos do que os grandes. Ou talvez estivesse esperando que voltassem para continuar o serviço. Eu sabia que não voltariam naquele dia. Ele não. Ficou olhando. Quanto a mim, era apenas o outro morador da casa. Aquele que compra comida, abre a porta, limpa a caixa de areia e paga as contas. Ele fazia um trabalho muito mais nobre. Companhia. Achei injusto. Fui até a padaria. Era uma dessas padarias de bairro que colocam algumas mesas na calçada e fingem que aquilo é uma extensão da sala de estar. Sentei do lado de fora. Dali dava para ver o parque, as árvores e os últimos pedaços de sol tentando atravessar os galhos. O trânsito de domingo fazia pouco barulho. Alguns carros passavam sem pressa. Pessoas caminhavam pelas calçadas. Um casal empurrava um carrinho de bebê. Um homem levava um cachorro que parecia mais interessado em qualquer coisa do que nele. Era um bairro residencial. Não havia grandes lojas, vitrines iluminadas ou aquela necessidade permanente de convencer alguém a comprar alguma coisa de que não precisava. O parque estava cansado. Talvez eu também. As árvores continuavam ali, mas tinham aquela aparência de coisa que sobrevive mais por hábito do que por vontade. A natureza é muito mais honesta quando ninguém tenta fotografá-la. Pedi um café. Na mesa atrás da minha havia três mulheres. Falavam alto o suficiente para dispensar qualquer esforço de escuta. Conversavam sobre homens. Pretendentes. Ex-namorados. Homens que sumiram. Homens que apareceram demais. Homens que não ligavam. Homens que ligavam demais. Uma delas dizia que precisava dar um jeito de prender um homem. Falou aquilo com a naturalidade de quem estava discutindo uma receita. As outras riram. Depois começaram a trocar métodos. Demonstrar menos interesse. Depois demonstrar mais. Fazer ciúmes. Desaparecer por dois dias. Voltar como se nada tivesse acontecido. Não responder imediatamente. Responder quando ele estivesse começando a desistir. Fazer com que sentisse falta. A velha engenharia do afeto. Pensei que talvez o amor moderno fosse isso. Um jogo de caça com aplicativos. Uma espécie de pesca esportiva onde ninguém quer admitir que está segurando a vara. Uma delas falou que homem gosta de quantidade. Outra discordou. Disse que o problema era encontrar um que prestasse. Elas riram novamente. Eu fiquei olhando para o café. Já ouvi aquela história antes. Em bares. Quartos. Mesas de restaurantes. Às vezes falando de mim. Às vezes falando de homens que eu conhecia. Às vezes falando de homens que eu não conhecia e provavelmente não queria conhecer. Ja houvi que sou um homem de muitas mulheres. Talvez seja. Ou talvez eu apenas tenha vivido tempo suficiente para descobrir que os rostos mudam muito mais rápido do que as cicatrizes. As pessoas chegam. Fazem barulho. Deixam alguma coisa sobre a mesa. Depois vão embora. Algumas deixam perfume. Outras deixam contas. Quase todas deixam alguma história que você prefere não contar inteira. Nunca fui muito bom em explicar isso. A verdade é menos interessante do que parece. Nunca procurei quantidade. Só não sabia muito bem como procurar outra coisa. Durante algum tempo, confundi desejo com companhia. Depois confundi companhia com amor. Mais tarde descobri que nenhuma das duas coisas servia para preencher uma casa vazia. Eu queria abrigo. Só isso. Um lugar onde não precisasse estar em guarda o tempo inteiro. E abrigo é uma coisa rara. Principalmente entre pessoas que passaram a vida aprendendo a partir antes de aprender a ficar. Talvez eu também tenha feito isso. Talvez tenha chamado de liberdade aquilo que, em algumas ocasiões, era apenas medo de descobrir o que aconteceria se eu permanecesse. As mulheres continuavam falando. Uma delas dizia que o problema era deixar o homem confortável demais. Eu quase ri. Conforto virou ameaça. Imagine isso. Duas pessoas passam anos procurando alguém com quem possam descansar e, quando encontram, começam a desconfiar porque o outro parece confortável. Talvez tenhamos aprendido a confundir paz com desinteresse. Talvez o barulho seja mais fácil de reconhecer como paixão. Eu já confundi. Muitas vezes. Conquistar alguém é fácil. No começo tudo ajuda. A novidade ajuda. O desejo ajuda. A mentira ajuda. Até o silêncio parece interessante quando ainda existe mistério. Depois chegam as contas. As manias. Os dias ruins. O mau humor. As doenças. Os parentes. As mensagens não respondidas. A roupa jogada no lugar errado. A mesma história contada pela terceira vez. O silêncio que não tem nada de sexy. É aí que começa o trabalho. E é aí que muita gente vai embora. Não porque deixou de amar. Às vezes porque descobriu que amar dá trabalho. A mulher da mesa atrás falou que ninguém deve deixar um homem completamente livre. Pensei no gato. Ele tinha liberdade para sair pela janela. Não saía. Tinha comida. Tinha água. Tinha um lugar quente para dormir. E ainda assim ninguém havia colocado uma tela naquela janela. Talvez fosse esse o segredo que os humanos complicaram. Não quero possuir ninguém. Posse é medo fantasiado de amor. Se alguém ficar ao meu lado, quero que fique porque poderia ir embora. Quero que a porta esteja aberta. Quero saber que existe uma rua do outro lado. Quero que a pessoa possa caminhar para qualquer lugar e, mesmo assim, em algum momento, decida voltar. Isso é muito diferente de prender alguém. Prender é fácil. Até animais sabem fazer isso. O difícil é ser escolhido quando ninguém é obrigado a escolher você. Fiquei olhando para o parque. O sol já tinha descido mais um pouco e a chuva escurecia as ruas. As sombras das árvores, sob relâmpagos atravessavam a calçada. Um homem passou empurrando uma bicicleta. Uma senhora caminhava rapido com duas sacolas de mercado. Do outro lado da rua, um menino corria atrás de uma bola enquanto alguém gritava seu nome. A cidade fazia o que sempre faz no domingo. Tentava parecer tranquila. Mas havia qualquer coisa de cansado em tudo aquilo. Talvez porque domingo seja o dia em que as pessoas percebem que segunda-feira existe. Pedi outro café. A mesa atrás de mim tinha ficado mais silenciosa. Por alguns segundos. Depois uma delas disse que o problema era encontrar alguém que soubesse ficar. Dessa vez ninguém riu. Achei curioso. Talvez aquela fosse a única coisa verdadeira que tinham dito naquela tarde. Ficar. É uma palavra pequena. Mas custa caro. Eu não me apaixono pela perfeição. Nunca me interessou. A perfeição é uma mentira bem vestida. Gosto de quem sangra. De quem tropeça. De quem já perdeu uma guerra e ainda aparece no dia seguinte com a cara amassada para tentar outra vez. Talvez porque eu conheça esse tipo de gente. Talvez porque eu seja esse tipo de gente. Carrego ferrugem na alma. Algumas rachaduras. Há coisas que o tempo não consertou. Apenas ensinou a esconder melhor. Também erro. Muito. E talvez tenha demorado mais do que deveria para entender que continuar presente na vida de alguém pode ser mais difícil do que conquistá-la. No começo, quase todo mundo sabe ficar. Depois é que começam os problemas. Quando o encanto diminui. Quando o outro deixa de parecer uma descoberta e passa a parecer uma pessoa. Com seus defeitos. Suas manias. Seus medos. Sua história. Seu mau humor. É nesse momento que você descobre se estava apaixonado pela pessoa ou pela versão que inventou dela. Eu já tive versões. Algumas bastante convincentes. Nenhuma durou muito. A maturidade talvez seja justamente isso. Parar de procurar alguém que nos faça sentir completos e começar a procurar alguém diante de quem não precisamos fingir que estamos. Não ofereço salvação. Não tenho. Não ofereço uma vida sem problemas. Seria propaganda enganosa. Ofereço café. Silêncio. Alguma honestidade. E a possibilidade de continuar aqui quando a novidade acabar. A conta chegou. Paguei. Fiquei alguns minutos olhando o parque antes de levantar. As mulheres ainda estavam ali. Agora falavam de outra coisa. Talvez de homens. Talvez de outra maneira de prendê-los. Não importava. Peguei o caminho de casa. Quando cheguei, a bagunça continuava exatamente onde eu havia deixado. Os copos. Os brinquedos. As migalhas. As marcas da visita. O cheiro de comida. O gato continuava na janela. Olhou para mim como quem verifica se o funcionário responsável finalmente voltou ao posto. Depois voltou a olhar para a rua. As crianças ainda não tinham voltado. Talvez estivesse decepcionado. Talvez apenas gostasse de esperar. Fiquei pensando nisso. Esperar também é uma forma de liberdade. Você não espera alguém porque foi obrigado. Espera porque quer. Talvez seja por isso que a maturidade muda a maneira como enxergamos o amor. Quando somos jovens, queremos ser desejados. Depois queremos ser escolhidos. Mais tarde, talvez, queremos apenas encontrar alguém que conheça nossas partes ruins e ainda consiga sentar ao nosso lado sem precisar fingir que elas não existem. Alguém que poderia ir embora. E sabe disso. Mas fica. Não porque foi convencido. Não porque foi preso. Não porque tem medo da rua. Fica porque, entre todos os lugares possíveis, escolheu aquela mesa. E talvez seja isso que eu tenha procurado o tempo todo sem saber dar um nome. Não muitas mulheres. Não muitas histórias. Não muitas conquistas. Só algum lugar onde dois sobreviventes pudessem parar por alguns minutos. Olhar um para o outro. Sem algemas. Sem promessas grandiosas. Sem precisar provar nada. A porta continua aberta. A rua continua ali. Cada um poderia ir. Mas ninguém vai. E, depois de tudo o que já aconteceu, depois de todas as pessoas que passaram, todas as que partiram e todas as que juraram ficar, existe uma frase que ainda vale alguma coisa. Não precisa ser dita. Basta que os dois saibam. Ainda estou aqui.

Paulo H Salah Ad din

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Pensador.com

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Outras frases de Paulo H Salah Ad din

Chega de Margens Ainda estou me acostumando com ela em pleno 62/63— esta versão de mim que parece uma evolução silenciosa, metade caos, metade clareza e, de alguma forma, ainda intencional. Ela é nova, mas também… não é. Mais como um despertar. A próxima fase do por vir. Eu não…
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Chega de Margens Ainda estou me acostumando com ela em pleno 62/63— esta versão de mim que parece uma evolução silenciosa, metade caos, metade clareza e, de alguma forma, ainda intencional. Ela é nova, mas também… não é. Mais como um despertar. A próxima fase do por vir. Eu não percebi que escolher ser imperfeito eventualmente se tornaria parte do por vir. E agora que ela está aqui, ela não anda na ponta dos pés. Ela (idade/mente) não pergunta se é demais. Ela simplesmente chega — crua, firme, despreocupada — como se estivesse esperando que eu parasse de me moldar em formas que deixavam todos os outros confortáveis. E quando ela avança, ela não apenas sobe ao palco — ela o preenche, como se finalmente se lembrasse de que nunca deveria ter vivido à margem da própria vida. Ela permanece ali com essa certeza silenciosa, daquela que não precisa provar nada, daquela que faz você perceber que ela nunca foi o problema — o espaço é que era pequeno demais e me fazia me preocupar, me sentir pressionado. E talvez seja essa a parte que ainda estou aprendendo: que tenho permissão para viver uma vida que me encaixe. Que não preciso me retrair para ser compreendido. Que posso querer mais espaço sem sentir que estou pedindo demais. Não se trata de me tornar alguém novo — trata-se de finalmente me permitir ser quem eu sempre tentei proteger. E é isso que estou aprendendo agora: tenho permissão para crescer (ainda da tempo) além dos limites de quem eu costumava ser. Não preciso me retrair para ser compreendido e nem preciso que alguém me compreenda se esse alguém pretende caber na mesmice do cotidiano orientado por “influencer´s. Posso querer uma vida que me encaixe sem me desculpar por isso. Não se trata de me tornar alguém novo — trata-se de finalmente me permitir ser eu mesmo. E quanto mais me permito crescer, mais percebo o quanto eu me reprimia sem nem notar. Quantas vezes tentei me tornar mais fácil de carregar, mais fácil de entender, mais fácil de amar. Mas não farei mais isso. Nesta idade, a idade do pôr do sol da vida, estou aprendendo a me aceitar como sou — não como um projeto, não como um problema, mas como uma pessoa que merece o espaço que preciso conquistar. Há uma estabilidade nisso. Uma espécie de confiança tranquila que eu não sabia que podia ter. E é nisso que me apego agora — na compreensão de que não preciso me diminuir para me manter amistoso. Posso crescer – ainda que nesta idade o corpo encolha e se curve - sem me perder. Posso ocupar espaço sem sentir que estou tirando algo de alguém. Esta versão de mim não é uma partida; é um retorno – talvez seja isso, quando envelhecemos, retornamos para quem fomos um dia, quando crianças puras. Uma expansão. Uma acomodação na vida que venho construindo silenciosamente. Pela primeira vez, parece menos que estou me desvencilhando de quem eu era e mais que finalmente estou me tornando quem sempre fui.

*VOCÊ NÃO É A CASA* Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como s…
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*VOCÊ NÃO É A CASA* Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como se até ela soubesse que não valia a pena se esforçar demais. Eu estava olhando para a garrafa quando vi a fotografia. Uma mulher de vestido branco, descalça, subindo uma escadaria destruída. Fiquei algum tempo olhando aquilo. Não sei por quê. Talvez porque havia alguma coisa familiar naquela escada. Os tijolos estavam expostos. O reboco tinha caído em pedaços. Havia entulho nos degraus. A casa parecia ter sido abandonada depois de uma briga longa demais. Daquelas em que ninguém lembra mais quem começou e todos saem perdendo. Ela subia. De costas. Não dava para saber quem era. Nem precisava. O que importava era que ainda estava subindo. Pedi outra dose. O homem do meu lado olhou para a fotografia e disse: — Lugar perigoso. Eu disse que sim. Mas não era a escada que me preocupava. Era reconhecer a casa. A gente passa uma parte da vida construindo paredes. Trabalho. Família. Amigos. Algumas mulheres. Hábitos. Pequenas certezas. Vai colocando coisa dentro e chamando aquilo de vida. Depois começam as rachaduras. Primeiro ninguém percebe. Uma porta que já não fecha direito. Um joelho que reclama. Um nome que você esquece. Uma pessoa que antes ligava e agora não liga mais. Um amigo que morreu e deixou uma cadeira vazia que ninguém tem coragem de ocupar. Depois vem o resto. A casa começa a perder pedaços. Aos sessenta e poucos anos, eu já não tenho a mesma disposição para fingir que não vejo. O corpo diminui um pouco. A paciência também. A gente começa a carregar menos coisas porque percebe que carregar tudo nunca foi sinal de força. Às vezes era só medo de deixar alguma coisa para trás. Olhei novamente para a mulher. O vestido branco destoava daquela destruição toda. Aquilo me incomodou. Talvez porque eu tivesse passado tempo demais acreditando que era preciso estar inteiro para continuar. Não é. Você pode estar cansado e continuar. Pode ter perdido gente e continuar. Pode olhar para trás e descobrir que boa parte daquilo que chamava de futuro já virou entulho. E continuar. A escada estava quebrada, mas ainda era uma escada. Isso bastava. A mulher levantava um pouco o vestido para não tropeçar. Não havia heroísmo naquilo. Nenhuma grande lição. Ela simplesmente precisava subir. Foi quando entendi uma coisa que demorei décadas para entender. Eu não sou a casa. Passei muito tempo confundindo as duas coisas. Achei que cada perda arrancava um pedaço de mim. Que cada fracasso derrubava uma parede. Que cada despedida me deixava mais perto do fim. Talvez não. Talvez algumas coisas apenas precisem cair. Há construções que só continuam de pé porque ninguém teve coragem de abandoná-las. A música terminou. O dono do bar não colocou outra. Ficamos alguns segundos ouvindo o silêncio das garrafas, dos copos, da rua quase vazia. Paguei a conta e saí. Na calçada, o ar estava frio. Não me senti renovado. Não houve epifania. Minha vida continuava com os mesmos problemas e algumas contas novas. Mas, naquela noite, eu tinha uma pequena diferença. Eu sabia que a ruína não era necessariamente o fim. Às vezes era só o lugar onde a gente finalmente percebe que não precisa morar para sempre. E então sobe. Mesmo descalço. Mesmo tarde. Mesmo sem saber exatamente o que existe no andar de cima. Sobe porque ficar parado dentro dos próprios escombros também é uma escolha. E eu já tinha passado tempo demais escolhendo errado.

*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO* Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali. Isso acontece mais do que eu gostaria.
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*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO* Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali. Isso acontece mais do que eu gostaria. Às vezes saio da cozinha com alguma coisa na cabeça e, quando chego à varanda, a coisa desaparece. Fico parado com o copo na mão, olhando o jardim, como se a resposta pudesse ter ficado para trás no corredor. O jardim vai até o passeio público. Não há muro. Nunca coloquei. A árvore cresceu torta para um lado e ocupa quase toda a sombra da varanda. O gato gosta de ficar ali embaixo. Naquele dia estava deitado sobre a terra, com as patas recolhidas e os olhos fechados. Eu tinha um cigarro aceso. Não lembrava por que tinha ido fumar. Isso me pareceu mais importante do que deveria. Sentei. Na mesa havia uma caixa de fósforos vazia. Peguei, virei entre os dedos e tentei lembrar quando tinha sido usada pela última vez. Não consegui. Deixei de volta. O gato abriu um olho. — Também não sabe? Ele fechou o olho novamente. Talvez estivesse dormindo. Talvez apenas não tivesse interesse na conversa. Eu respeitei. Passei muito tempo acreditando que precisava entender algumas coisas antes que fosse tarde. Não sei exatamente quando comecei com isso. Talvez depois dos quarenta. Talvez antes. A memória tem esse defeito conveniente de reorganizar os fatos para que pareçam ter acontecido quando a gente estava pronto para entendê-los. Eu não estava. Ainda não estou. Lembrei de uma frase que escrevi muitos anos atrás. Não sei onde está o papel. Talvez tenha jogado fora. Talvez esteja dentro de algum livro. Eu costumava guardar essas coisas. Escrevi que era um rascunho de um plano que o tempo havia esquecido de executar. Na época, achei que tinha descoberto alguma coisa sobre mim. Hoje penso que talvez estivesse apenas cansado. Mas a frase ficou. Algumas frases fazem isso. A gente escreve para se livrar delas e acaba passando anos carregando-as. Levantei para buscar mais uísque. Na cozinha, fiquei alguns segundos diante do armário sem saber o que estava fazendo ali. Voltei para a varanda com a garrafa. O gato tinha mudado de posição. Só isso. Eu tinha envelhecido alguns anos desde aquela frase e o gato continuava mudando de posição. Talvez fosse esse o problema. Eu sempre quis que o tempo produzisse alguma conclusão. Ele não produziu. Produziu contas, fotografias, algumas cicatrizes, nomes que já não significam muita coisa e uma coleção de decisões que, vistas de longe, parecem ter sido tomadas por homens diferentes. Talvez tenham sido. Ou talvez eu só goste de pensar assim porque é mais fácil atribuir meus erros a versões anteriores de mim mesmo. Um homem de vinte anos. Um homem de trinta. Outro aos quarenta. Todos com o mesmo nome. Nenhum deles me pediu autorização. Uma mulher passou pelo passeio empurrando uma bicicleta. Olhou para o jardim. Eu tive a impressão de que olhou para mim. Ela continuou. Durante alguns segundos fiquei esperando que voltasse o rosto. Não voltou. Foi quando percebi uma coisa que deveria ter percebido muito antes: quase ninguém está olhando. Passei anos me comportando como se houvesse uma plateia. Como se cada escolha minha estivesse sendo registrada. Como se fosse necessário chegar a algum lugar com uma história coerente para apresentar no fim. Mas não havia plateia. Havia apenas o passeio, a árvore, a rua e uma mulher que provavelmente já tinha esquecido a varanda antes de chegar à esquina. O gato levantou. Caminhou até a borda do jardim. Parou. Olhou para o outro lado da rua. Eu fiquei esperando que ele fizesse alguma coisa. Ele não fez. Depois entrou em casa. Fiquei sozinho. Pensei novamente naquela frase antiga. Rascunho. Plano. Tempo. Eu tinha passado tantos anos tentando descobrir qual era a versão definitiva de mim que talvez não tivesse percebido o óbvio: eu continuava escrevendo rascunhos porque não queria assinar a versão final. Não sei se isso é covardia. Talvez seja. Também pode ser apenas hábito. Acendi outro cigarro. Fiquei olhando a fumaça desaparecer antes de chegar à árvore. Pensei nas coisas que deixei pela metade. Algumas por falta de coragem. Outras porque perderam o sentido. Outras simplesmente porque eu era jovem demais para perceber que certas portas fecham sem fazer barulho. Ainda havia uma parte de mim que insistia em voltar a essas portas. Não para entrar. Só para verificar se continuavam fechadas. Achei isso ridículo. Depois pensei que talvez fosse apenas humano. O céu começou a escurecer. A luz da varanda acendeu sozinha. A caixa de fósforos continuava sobre a mesa. Peguei-a novamente. Dessa vez não tentei lembrar de onde vinha. Coloquei no bolso. O cigarro terminou. Fiquei segurando o filtro entre os dedos por alguns segundos, como se esperasse alguma instrução. Não veio. Joguei no cinzeiro. Eu poderia ter ido para dentro. Não fui. Talvez ainda esperasse alguma coisa. Não sei o quê. Uma resposta. Uma lembrança. Uma vontade antiga. Uma prova de que todo aquele tempo tinha servido para alguma coisa. Nada aconteceu. E talvez tenha sido justamente isso que me fez ficar ali. Sem resolver. Sem concluir. Sem transformar a tarde em uma explicação. A rua continuou. A árvore continuou. Dentro da casa, ouvi o gato derrubar alguma coisa. Fui ver. Era apenas um copo vazio no chão. Peguei o copo. O gato já estava no corredor, indo embora. Fiquei olhando. Depois apaguei a luz da varanda. A casa ficou escura por alguns segundos antes que meus olhos se acostumassem. E eu percebi que ainda havia coisas em mim que não tinham terminado. Mas, pela primeira vez, não tive pressa de terminá-las.

*EU ME QUERO DE VOLTA* Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar. Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mo…
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*EU ME QUERO DE VOLTA* Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar. Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mochila pequena, pouca roupa, documentos, algum dinheiro e aquela sensação conhecida de que talvez, se eu ficasse longe o bastante, certas coisas dentro da cabeça perdessem o endereço. A estrada de serra estava quase vazia. Subi sem pressa. Curva depois de curva. Pinheiros, barrancos, casas isoladas, pequenas vendas onde ainda se podia tomar café sem alguém perguntar se você queria açúcar. Em alguns lugares, o mundo parecia ter esquecido de atualizar a paisagem. Eu gostava disso. Talvez porque passei boa parte da vida fazendo exatamente o contrário. Atualizando. Mudando de emprego. De cidade. De mulher. De opinião. De planos. Trocando certezas velhas por certezas novas, como quem troca uma camisa suja e acredita que ficou limpo. Quando somos jovens, ninguém nos explica direito o tamanho da brincadeira. Dizem para estudar. Trabalhar. Construir. Casar, talvez. Ter filhos. Comprar uma casa. Ser alguém. A gente acredita. Depois descobre que existe uma diferença enorme entre cumprir o figurino e caber dentro dele. Eu cumpri algumas partes. Outras fiz pela metade. E algumas fiz tão bem que quase consegui destruir a pessoa que deveria ter sido. Foi só muito depois que percebi isso. Na juventude, eu achava que as decepções eram acidentes de percurso. Uma mulher que não ficou. Um amigo que virou estranho. Um projeto que morreu antes de nascer. Uma porta que não abriu. Um sonho que parecia grande demais para o quarto onde eu dormia. A gente sofre. Depois chama aquilo de experiência. É uma maneira elegante de não admitir que não entendeu nada. Continuei subindo. Em determinado ponto, parei a moto num acostamento. Havia uma venda pequena, dessas que parecem ter sobrevivido por teimosia. Pedi café. O homem atrás do balcão devia ter mais ou menos a minha idade. Talvez um pouco mais. Ele não tinha pressa. Fiquei olhando enquanto ele limpava o balcão com um pano que provavelmente já tinha visto dias melhores. Pensei em quantas pessoas eu havia observado durante a vida. Homens cansados. Mulheres que desistiram de certas coisas sem anunciar. Gente que bebia todos os dias. Gente que trabalhava todos os dias. Gente que dizia estar feliz com a convicção de quem precisava convencer a si mesmo. Eu costumava olhar para essas pessoas de fora. Agora começo a reconhecê-las por dentro. Essa talvez seja uma das partes menos agradáveis de envelhecer. Você começa a encontrar nos outros os mesmos defeitos que passou anos condenando. O homem que você julgava acomodado. Você. A mulher que você achava que tinha desistido. Você. O sujeito que dizia não esperar mais nada da vida. Você. É uma espécie de justiça tardia. A vida não manda boleto. Manda espelho. Voltei para a estrada. Desci a serra em direção ao litoral. O ar mudou primeiro. Depois a paisagem. A estrada se abriu e o mar apareceu entre uma curva e outra. Parei. Fiquei olhando. Não senti nenhuma revelação. Ainda bem. Tenho desconfiança de revelações. Quase sempre elas duram até o próximo problema. O que senti foi uma coisa mais simples. Cansaço. Um cansaço antigo. Não do corpo. O corpo estava funcionando. Era outro. O cansaço de carregar perguntas que aprenderam a se reproduzir. Quando somos jovens, procuramos respostas. Depois de algum tempo, percebemos que algumas respostas apenas criam perguntas melhores. E algumas perguntas não querem resposta. Querem companhia. Segui pela estrada litorânea. Pequenos lugarejos apareciam e desapareciam. Uma igreja. Uma praça. Dois cachorros dormindo na sombra. Um bar aberto numa quarta-feira à tarde. Um velho sentado numa cadeira de plástico olhando para lugar nenhum. Talvez ele soubesse alguma coisa. Talvez não. Essa é outra mentira da idade. A gente imagina que quem chegou mais longe sabe mais. Nem sempre. Às vezes só chegou mais longe. Foi então que lembrei de algumas coisas que eu tinha deixado para trás. Não pessoas exatamente. Momentos. A adolescência. Aquele período estranho em que a vida ainda não tinha apresentado a conta. Eu sinto falta de coisas que, na época, pareciam insignificantes. Uma rua. Um quarto. Uma conversa idiota. Uma música tocando num rádio ruim. Uma tarde sem obrigação. A sensação de que ainda havia muito tempo. É curioso. Quando temos tempo, queremos futuro. Quando o futuro já está parcialmente ocupado pelo passado, começamos a querer de volta algumas tardes. Não quero voltar a ser adolescente. Isso seria uma estupidez. Quero apenas recuperar alguma coisa daquele sujeito que acreditava que a vida podia ser diferente. Não necessariamente melhor. Diferente. Talvez seja isso que eu tenha perdido. Não a juventude. A capacidade de acreditar antes de exigir garantias. Passei anos tentando viver de acordo com aquilo que parecia correto. E algumas coisas corretas fizeram estragos. Essa talvez seja uma das coisas que ainda não compreendi. Como alguém pode fazer tudo conforme o figurino e, mesmo assim, terminar diante de uma vida que não reconhece? Você trabalha. Paga contas. Cumpre compromissos. Evita escândalos. Engole algumas vontades. Adia outras. Diz “depois”. Diz “agora não”. Diz “é o melhor”. E, quando percebe, existe uma distância entre aquilo que você construiu e aquilo que você era. Não houve uma explosão. Não houve música triste. Ninguém percebeu. Foi acontecendo. Depois que sangra, seca. O problema é que a pele fica diferente. Talvez algumas coisas tenham morrido em mim em dias que eu achei que tinha apenas perdido. Uma relação. Uma amizade. Uma possibilidade. Uma versão de mim. Aquilo não me matou. Mas algo naquele dia morreu em mim. Demorei para entender. Ou talvez ainda não tenha entendido. A diferença entre amadurecer e se acostumar é uma das perguntas que continuam me perseguindo. Porque existe gente madura. E existe gente apenas cansada. Existe gente tranquila. E existe gente que desistiu de discutir com a própria vida. Existe gente que aprendeu a viver. E existe gente que aprendeu a não reclamar. Às vezes eu não sei em qual grupo estou. Talvez nos dois. Continuei rodando. O vento batia no capacete e levava embora qualquer possibilidade de pensamento organizado. Foi bom. Minha cabeça sempre foi um lugar pouco recomendável. Sou de carne, osso e uma confusão de pensamentos. Nunca fui exatamente uma pessoa simples. Durante muito tempo achei que isso fosse um defeito. Hoje já não sei. Talvez a simplicidade seja apenas uma forma eficiente de esconder aquilo que não conseguimos compreender. Eu sempre vou ser uma confusão. Não digo isso com orgulho. Também não digo com vergonha. É apenas um diagnóstico sem médico. No fim da tarde, parei perto de uma praia pequena. Não havia quase ninguém. Tirei o capacete e sentei num banco. O mar fazia aquele trabalho antigo de ir e voltar sem precisar justificar nada. Pensei que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando resolver a minha vida. Talvez a amnésia resolvesse o problema. Esquecer algumas coisas. Esquecer algumas pessoas. Esquecer certas versões de mim. Mas logo percebi que seria inútil. Porque não é o passado que continua nos perseguindo. Somos nós que continuamos voltando até ele. Voltei para a moto. Ainda não sabia para onde iria dormir. Também não sabia o que faria no dia seguinte. Pela primeira vez em muito tempo, isso não pareceu uma ameaça. Talvez porque eu tenha finalmente entendido que planejar tudo não me protegeu de nada. Tudo correu como eu não planejei. E, apesar disso, cheguei até aqui. Não é uma vitória. Também não é uma derrota. É apenas o lugar onde estou. A estrada continuava pela costa. Eu podia seguir. Podia parar. Podia voltar. Não havia placa dizendo qual das três opções seria a mais correta. Ainda bem. Passei anos demais obedecendo placas. Naquela noite, enquanto o céu escurecia sobre o mar, pensei numa frase que não parecia minha, embora viesse de dentro: eu me quero de volta. Não o homem que fui. Isso seria impossível. Quero de volta alguma coisa que existia antes de eu começar a negociar comigo mesmo. Antes de transformar desejo em obrigação. Antes de confundir responsabilidade com abandono. Antes de aprender a dizer “é assim mesmo”. Talvez viver seja justamente isso. Perder algumas versões de si. Encontrar outras. E, de vez em quando, reconhecer uma antiga no acostamento. Parar. Olhar. Não tentar trazê-la de volta. Apenas agradecer. Depois subir na moto e continuar. Porque existir é pouco. É preciso viver. Mesmo sem saber exatamente como. Mesmo carregando perguntas. Mesmo fazendo errado. Mesmo descobrindo tarde demais que algumas respostas não estavam na estrada, na cidade, nas pessoas ou nos lugares para onde fugimos. Estavam naquilo que a gente evitou olhar enquanto ainda tinha tempo. O motor pegou na primeira tentativa. Pus o capacete. Acelerei. Vamos, vida. Me surpreenda. Dessa vez eu não vou exigir que você faça sentido.